Entre estupefato e incrédulo

Um dia destes, à espera numa fila pequena, aguardava impaciente a minha vez de ser atendido.

O motivo era o seguinte: há quase um mês comprei, sem saber a idoneidade da empresa, pelo Face, um lindo tênis de marca conceituada.

Nunca havia feito tamanha imprudência em meus mais de setenta anos.

O tal tênis até no presente momento não chegava. Esperava pelo correio. O carteiro que passava pelo meu beco era interpelado se por acaso não estaria entre suas entregas um pacote endereçado a mim.  E ele sorria, mostrando os dentes, alvos e em perfeito estado, que infelizmente nada constava a ser entregue no meu apartamento.

Pela mesma rede social, ao ler os comentários, mais me sentia lesado.

“Eu paguei com cartão de crédito e faz dois meses que não recebi o par de tênis.”

Outro reclamante dizia: “faz um tempão que paguei pela encomenda e nadica de nada. Espero que o tênis chegue antes do Natal. Era o presente a dar ao meu filho”.

Na fila supra citada, cheia de reclamantes por motivos variados, estava uma senhorinha, de aparência humilde, a espera de que chegasse a sua vez. Outros quatro ou cinco estavam na antessala do Procon. Confortavelmente assentados.

Para tentar quebrar a ansiedade e monotonia da espera, já que não sabia quanto tempo iria ficar ali, puxei prosa com a tal fulaninha. Bom dizer que discutir sobre política, religião e futebol não fazem parte do meu costume.

“A senhora por acaso já decidiu em quem votar? Ser vai ser no Lula, no Bolsonaro, ou noutro postulante ao Planalto”?

E ela me respondeu malcriadamente: “vê lá se voto em ladrão? O tal Borsonaro é um gatuno e falador. Eu? Tá doido? Num voto im merda nenhuma. Vor anelar meu voto”.

Na hora pensei cá comigo: cada povo tem o governo que merece. E o nosso, salvo honrosas exceções, se mal sabem escrever ou falar, que país irão deixar aos seus descendentes?

Ontem foi o dia da pátria. Um hino cantarola: “salve salve pátria amada. Pátria amada solo es mãe gentil. De amor e de esperança a terra desce. Se em teu formoso céu risonho e límpido a imagem do cruzeiro resplandece”.

Na praça principal de minha Lavras amada uma multidão comportada esperava o desfile. Bandeiras tremiam nas mãos dos simpatizantes. A ululante maioria, não confundam com um certo candidato, que já esteve entre grades e saiu, pasmem, ainda lhe permitem a candidatura, empunhavam bandeiras verde e amarelas. Das cores lindas do nosso Brasil.

Gritos, cânticos entoados, famílias inteiras se aglomeravam na Praça Doutor Augusto Silva.

Um palanque foi montado para que autoridades assistissem à efeméride num local privilegiado. Mas me foi permitido subir lá em cima. Embora não fizesse parte daquele grupo seleto.

Estava com a barriga ronronando, como um gato persa, esperando a hora de descer um cadinho até o restaurante A Casa da Thais.

Tinha de me ombrear, pedir licença, para que me deixassem passar.

Estava com a minha pasta costumeira dependurada ao ombro. Dando uma volta no meu pescoço curto. Ela continha três livros da minha última lavra. O de nome “Leia com meus olhos”.

Ao final do repasto, já com o estômago satisfeito, que delícia são os sushis da Casa da Thais, voltei pela mesma praça. Não me assentei no mesmo banco do mesmo jardim. Nem tive a sorte de rever minha primeira namorada. Com a qual dei de cara no rela do mesmo jardim.

Um grupinho de alguns conhecidos cantava e empunhava bandeiras verde e amarelas, com um fundo azul e algumas estrelinhas no meio daquele azul profundo. E no centro as palavras ordem e progresso.

Por sorte desovei mais um livro meu. E a pasta esvaziou-se.

Um dos meus livros permaneceu na banca do amigo, por quem tenho insofismável admiração, o João da Praça.

Agora, vendo as estatísticas de intenções de voto, tanto veiculadas pela tv ou por redes sociais, sempre mostra o candidato petista na frente. Alguns percentis apenas. Que ora aumentam ou diminuem. Depende de qual emissora de televisão assistimos.

Pela multidão, que se ajuntava na praça de ontem, sete de setembro, segundo a minha pesquisa, não autorizada, a esmagadora maioria dizia ser bolsonarista. Não vi nenhuma camiseta de cor vermelha. E meus olhos enxergam perfeitamente. Mesmo sem usar óculos de qualquer grau ou degrau.

Quando percebo, pelas estatísticas, seja de qual instituto de pesquisa for, aquele percentil a favor de Lula, fico, entre incrédulo e estupefato.

Tomara que as urnas digam amém ao que tenho pensado. O tal Borsonaro, sobre o qual aquela senhorinha enfezada vociferou, creio que ele, durante a sua vida pública, nunca tenha enfiado a mão no borso de ninguém. Ele não responde pelos pecados de sua prole. E, na véspera de a gente votar, as estatísticas, muitas delas falaciosas, corroborem o que tenho dito. Não somente eu. E sim toda aquela multidão que na praça principal ontem se aglomerou. Sem medo de ser feliz.

A nossa linda nação brasileira vai ter o governo que realmente merece. Caso reeleja o mesmo presidente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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