Trinados de liberdade

“Libertas quae sera tamen”

Sabem quem foi o autor desta frase dita num momento em que o Brasil uivava de descontentamento do jugo de Portugal? Que apenas nos sugava as riquezas. E pra nossa colonização apenas enviou para a terra brasilis a escória, o que havia de pior, gente sem instrução, sem nenhuma capacitação profissional, larápios, salafrários. Gente boa continuou no seu torrão natal. Talvez isso explique, em parte, a falta de gente letrada, instruída, bem intencionada, gente que idolatra o trabalho. E não fica conferindo nádegas ao assento nos bancos das praças. Em intermináveis discussões sobre política, religião, futebol, ao revés de procurar melhores dias, algum trabalho que lhes dê o pão de cada dia, o sustento de sua familia, mesmo que alguns destes filhos teus não sejam em verdade dotados dos mesmos genes.

O mártir da independência, Joaquim José da Silva Xavier, alcunhado por Tiradentes, talvez alguém que deposita os olhos na minha crônica saiba dizer se ele em verdade era um bom dentista, eu não fui seu cliente, nem meu avozinho Rodartino Rodarte tenha sido. Embora muitas vezes o tenha visto acordar, naquela casa que hoje se transformou num pequeno edifício, que leva o seu nome, naquela rua que daqui se avista a mão esquerda, retirar a sua dentadura que descansava num copo cheio d’água, no seu criado mudo, e recolocá-la novamente dentro de sua boca. E ela não parava quieta. Soltava-se sempre à hora das refeições, por não conhecer, naqueles tempos idos, o tal Corega.

Amanhã, sete de setembro, celebra-se em todo território nacional o dia da independência.

E eu me pergunto: seriamos em verdade de fato independentes? Ou ainda dependemos da boa vontade de terceiros para matar a fome alheia. De atenuar a nossa vida miserenta. E ter de conviver em cada esquina com pobres estendendo-nos as mãos sujas. Não tanto quanto aquelas dos políticos safados. Que tentam esconder propinas comprovadas a olhos vistos?

Somos de fato independentes? Poderíamos viver condignamente por nosso próprio esforço? Ou dependemos de enfrentar filas que dobram quarteirões em busca de um emprego que promete a paga mixa de menos de um salário mínimo?

Somos donos de nosso próprio nariz? E se o tal narigão for adunco e de fala anasalada? Quem vai nos tirar o complexo de feioso e fanhoso? Somente um bem formado cirurgião plástico. Dentre eles cito o meu genro Daniel Reis e tantos outros ainda confiáveis.

Seremos em verdade verdadeira independentes do que nos põem a mesa? Ou dependemos unicamente daquela heroica gente, de mãos cascudas, tez tostada pelo sol, pele áspera como lixa nova, aqueles que vivem e sobrevivem, não sei como, do que plantam e por vezes não colhem. Já que a chuva tardou novamente. E o preço do leite baixou ao rés do chão. Na contramão dos altos preços dos insumos. Já que tanto o milho, a soja, o trigo, fundamentais na alimentação dos ruminantes, têm seu custo aumentado. Subindo à estratosfera.

Não creio que sejamos totalmente independentes ainda. Talvez, quem sabe? Nossos netos, bis, e seus descendentes, se tornem de verdade independentes. Num futuro que nem sei vaticinar quando será. Um dia, quem sabe?

São algumas coisinhas que considero de suma importância no meu modo de pensar: a liberdade, a independência, o ar que respiramos, a saúde, a saudade, a nossa familia, a boa vontade, o poder ir e vir, o ato de não contestarmos o obvio ululante, detesto discussões infrutíferas, isso não quero dizer das árvores frutíferas que tenho plantadas na minha roça,  o sol, a chuva que cai mansamente, gente mansa e tolerante, embora não costumo levar desaforos pra casa, e outras coisiquinhas mais. Deixo-as de lado. Na intenção louvável de não engordar demasiado esta crônica de hoje cedo, dia seis de setembro, desta terça-feira que amanhã muda para quarta.

Antes, quando morava no condomínio Jardim das Palmeiras, um belo logradouro pra se morar, pertinho tanto do centro quanto da rodoviária, tinha, na horta, se bem aquilo não era bem uma hora, pois ali não existia um só pezinho de couve, um canteiro de alface repolhuda, unzinho só pepinozinho, e como detesto aquele legume. A minha querida esposa Rosa ama despepinar qualquer problema. É ela quem guarda meus talões de cheque e os cartões de crédito. Pois não tenho acesso a nenhures deles. E, se, por um acaso afano um deles, tanto uma folha de cheque, um cartãozinho de alguma das minhas duas contas correntes. Ai de mim! Não só levo uma descompostura como ainda sou posto de castigo sem poder levantar cedinho, com ela ainda ressonando, tomar minha Maltodextrina misturada a duas bananas, tudo juntinho a dois litros de leite, tudo batidinho no liquidificador, sem fazer barulho para não incomodar os vizinhos do andar de cima ou de baixo, e para cá me dirijo. À minha oficina de trabalho. Entendam consultório. Quando o edifício das clínicas ainda se mostra quase vazio.

Nos fundos da minha casa do condomínio, protegidos tanto do sol quanto da chuva, debaixo da laje de um espaço onde ainda creio haver uma churrasqueira, uma pia para lavar as sujeiras dos pratos, e da caca de passarinhos, existiam duas gaiolas.

Numa primeira morava um trinca ferro. Foram três ou mais, anilhados, permitidos a viver em gaiolas pelo Ibama, um deles, talvez o primeiro, se chamava Zé Amâncio. Os outros, que infelizmente sucumbiram, talvez por idade, não por falta de liberdade, desconheço-lhes os nomes.

A seguir, não em ordem, nem por falta de progresso, escritos no centro de nossa bandeira brasileira, ali passarinharam alguns canarinhos belgas. Eles não falavam francês. Nem ao menos português ou alemão.

Eles sim cantavam lindos trinados.

Não sei como pássaros canoros conseguem cantar trancafiados em gaiolas. Dizem, os entendidos, que eles foram criados em cativeiro e não se dão bem em liberdade.

Já euzinho, caso me prendessem numa jaula, como um leão raivoso uivaria e tentaria deixar minha prisão à força de minhas garras afiadas.

Pra mim pássaros cativos cantam de tristeza. Um canto que pode nos parecer alegres. Mas, em verdade trata-se de um canto sem alegria ou felicidade.

Um destes canarinhos amarelinhos, o qual chamei de Vitinho, foi dado de presente a uma menininha filha de um dos retireiros da minha rocinha antes prejuizenta. Era o bonezudo Dé.

Um dia, era um sábado, faz tempo o acontecido, encontrei o canarinho Vitinho meio amuado.

Percebi-o descontente. Talvez depressivo. Elezinho parou de cantar. Não mais se ouviam seus alegres trinados pela manhã. Nem ao meio dia. Muito menos ao cair das tardes quase mortas.

Com a devida permissão da meninazinha da roça, filhotinha do retireiro Dé, acabei por soltar o canarinho Vitinho.

Assim que abri a portinha da gaiola ele, meio sem jeito, custou a sair.

Depois de alguns longos minutos de espera enfim Vitinho, meio desconfiado, avoou.

Pousou num galho fino de uma jabuticabeira. E ainda o ouço cantar. Um canto alegre.

Aquele canto do canarinho, uma vez posto em liberdade, pra mim, de fato comprovado, era sim um trinado de liberdade.

Nada melhor do que celebrarmos a nossa independência. Embora ainda não saiba que independência é essa…

 

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