Assim como existem pessoas que nos fazem bem. E outras que remam contra a correnteza.
Umas são verdadeiros achados. Outras são machados de pontas afiadas, que nos ceifam a felicidade. E tentam inserir obstáculos onde eles não existem.
Da mesma maneira, felizmente, uma pequena minoria tenta obstaculizar o nosso sucesso. E, apesar dos apesares a fortuna nos bate à porta sem interfonar.
A vida escorre lenta ou velozmente como um casal de seriemas caçando cobras peçonhentas.
E, falando noutra língua certas gentes exalam peçonha pelos poros. Com o mesmo perigo de ser picado por uma serpente venenosa.
Hoje, neste começo de setembro, logo desperta a primavera, depois de agendado uma visita, de véspera, com uma senhora, linda nos seus cabelos tintos em neve, que se fazia acompanhar por sua irmã, já a havia conhecido de vista, somos quase vizinhos não só de consultório como de morada, na intenção previamente combinada de fazê-la conhecer o derradeiro livro de minha lavra, o décimo nono. Recentemente lançado. E bem divulgado nas redes sociais.
Lá por volta das nove horas atrevi-me a interfonar.
Uma voz lá de dentro daquela casa maravilhosa, em estilo mediterrâneo, igual a ela na minha cidade só encontro uma similar, uma voz estranha me interpelou quem seria.
Anunciei-me a mim mesmo.
Subi pelas escadas suaves como a dona da bela casa.
Foi ela mesma, a grande dama. A mesma que num dia passado, creio que numa sexta-feira, ao lado de sua irmã, com o mesmo tom de um grisalho sem tintura, me recebeu à porta com um olhar recheado de sabedoria, amistosidade e candura.
Adentramos casa adentro. Fui levado, extasiado, cômodo por cômodo.
Aquela velha morada, que foi comprada a um dentista de nome Homero, ainda conserva traços de sobriedade e elegância, entre aquele mobiliário antigo. Em perfeitas condições.
Ali me senti como se estivesse dentro de um museu à casa de portas abertas.
Uma gentileza e fidalguia me fazia sentir como num sonho antigo. Só faltavam as carruagens puxadas por corcéis brancos. Cujas rainhas eram as duas irmãs.
E eu, como um reles vassalo, me arrependo de não ter feito mesuras à grande dama de cabelos tintos em neve e de uma fala macia como um travesseiro de penas de cisnes brancos.
Assentamo-nos um ao lado do outro num sofá que deve ser da idade da minha bisa.
E a nossa conversa fluiu como um riacho calminho que escorre lentamente em direção ao oceano. Antes de passar pelo rio que o conduziria ao mar.
E que sabedoria aquela grande fidalga emanava. Antes funcionária da receita estadual. Perdoe-me, dona Lea, se por acaso faltei com a verdade neste texto recém-nascido.
Ela me conduziu, a mim, boquiaberto, assombrado entre tanta beleza, quarto por quarto, cômodo de banhos passando pela cozinha, ampla, toda branca, subindo por uma escada em madeira irretocavelmente de um tom amarronzado, de vez em quando, entremeados por uma conversa irrestritamente imaculada, e como aprendi com aquela linda senhora, dona de uma memória prodigiosa. E de uma sabedoria comparável a poucos mortais.
Ali fui na intenção não apenas de uma visita. Que espero que se repita inúmeras vezes. Fui sim na intenção de vender meu derradeiro livro.
E não me contive. Depois de aprender tanto. De ouvi-la com ouvidos embevecidos. Acabei dando-lhe de presente o meu Leia com meus olhos.
E deixei aquela maravilhosa residência sem vontade de dali me evadir. Pena que a pressa de outros compromissos me intimava. A tal urgência que nos consome e nos transforma em arautos do afogadilho.
Tanto a dona Lea. Bem como a sua irmã, se me equivocar ao dizer seu nome novamente me desculpem. Penso que a irmã de dona Lea se escreve Vandalea. Juntos ou separados. O fato é que ambas dormem juntinhas no mesmo quarto.
Como disse, neste texto, de agora a tarde, que existem pessoas que inspiram e outras que conspiram. Tenham certeza. As duas irmãs da casa debaixo do prédio onde tenho a minha oficina de trabalho são exatamente, tais e quais, aquelas pessoas que não só inspiram como também nos enchem de amor.