Mental-idade

Nunca tive receio do tal envelhecimento.

O tempo passarinha e a gente nem se dá conta disso.

Certo, indubitável, que, após certa idade, tudo depende da genética, da cor da pele, da atividade que a gente opera, dos riscos que enfrentamos, da capacidade de reagir e nos levantarmos depois das quedas, inevitáveis por que passamos, das atribulações, poucas ou muitas que a vida nos oferece, a passividade ou até mesmo a sofreguidão, já que cada um é distinto do outro, quando nos olhamos no espelho, alcagueta linguarudo, abelhudo, como queiram; as rugas acabam por passearem em nossa face. Os pés de galinhas são como marcas indeléveis do passar do tempo. As inevitáveis cãs ombreiam os cabelos que ainda restam. A calvície, antes lindas melenas são percebidas nas fotografias em preto e branco no velho álbum de formatura. Os cabelos, quando ainda os temos, embranquecem de vez pra sempre. a barba negra, se deixada crescer, ao nos olharmos no mesmo espelho, que susto! Para sermos papais noéis de nossos netinhos só precisamos de um trenó puxado pelos ares por renas que avoam sem asas.

Considero envelhecer como normal. Mas, se pudéssemos retardar os ponteiros dos relógios, retardá-los horas, dias, meses, anos. Se porventura a gente pudesse entrar numa máquina do tempo. Retroceder nele.  E, se me indagassem a qual idade gostaria de voltar. Por certo responderia: “ah! se eu pudesse, e o tempo me permitisse, que tal aos vinte anos? Ou menos ainda? Naquela idade infantil. Como a dos meus três netinhos. Que ainda ignoram o que lhes reserva o porvir. O que a eles interessa são os dinos, os desenhos animados, os joguinhos jogados pelo celular, as brincadeirinhas de pique esconde, e outras atividades que infelizmente mudaram tanto, desde quando era criança. Cujos folguedos eram díspares.

Tais como cricar bolinhas de vidro. Fazer travessuras na rocinha de umas tias avós. Ai que saudade sinto da fazendinha da Cachoeira, onde as tias Mariana e Leonor, faziam de uma bacia enorme a nossa piscina. Onde elas se revezam à hora do banho. Mesmo nas noites frias invernais não conseguíamos escapulir daquelas águas meio frias. Aquecidas nas trempes ainda crepitantes do velho fogão a lenha. Com um enorme rabo. Onde nos juntávamos aos primos de Perdões. Terra dos Alvarengas. Sobrenome de minha saudosa avozinha dona Belica, e da sua filha minha querida mãe.

O tempo acaba por nos levar adiante. E não temos como deter-lhe a voluptuosa velocidade de um trem bala.

De repente não mais temos vinte anos. Os trinta ficaram pra trás. Aos menos de dezesseis, alguns, antes de criarem espinhas na face, tiveram de se operar de fimose. Pois, dada à efervescência dos hormônios, o sexo fez endurecer aquilo que antes só tinha serventia para urinar. E começaram a punhetar. Pensando naquela meninazinha. De pernocas roliças. Lisinhas como cabelo de milho antes de a espiga penduar. E tome ejaculação prematura. Que nada mais é do que devido à intempestividade do garoto. Mesmo num dia claro. Sem indícios de tempestade a se anunciar.

Conforme o dito de um tal de Urbano, postado no Face por uma entendida em língua portuguesa, uma das irmãs Possato, precisamente a Maria Adélia, este autor, por mim desconhecido, desta maneira versejou sobre o tempo.

“Estar velho é ter vinte anos de idade confinado em uma UTI. Estar jovem é ter sessenta anos de idade caminhando na praia. Ser velho é permitir-se aos preceitos ditatoriais do tempo. Ser jovem é negar o limite. Velho, ou jovem: questão de saúde mental. MENTAL-IDADE. Aí o tempo se desfaz. Por não caber em nós”.

Em absoluto não me sinto velho. Embora meus quase setenta e três digam amém.

Ainda sou capaz de empinar pipas e soltar papagaios palradores da gaiola em que passaram meia vida confinados. E vê-los soltos a gritarem uivos de felicidade.

Tenho o mesmo tirocínio de outras horas. A capacidade de ouvir antes de emitir minha opinião me fez mais sábio. Não tiro mais conclusões precipitadas. Dou prioridade ao paciente e não à doença que o consome. Certo que tenho o sono curto. A melhor hora pra escrever é ditada pela madrugada. Tenho medo da noite me engolir com sua língua escura e viscosa.

Ficar velho é coisa de sapato furado na sola sem chance de meia solar.

Tornarmo-nos idosos é inevitável. Coisas e loisas do destino. No dia em que me sentir, em verdade, um velho decrépito, usando fraldões e só podendo me locomover em cadeira de rodas, sem ao menos poder admirar o belo, ou me impedirem de sonhar;  por favor, que me ajudem a dormir, cerrar os olhos para sempre.

Aí sim. Estarei em verdade um velho.

Um obséquio lhes suplico. Quando for sepultado certifiquem-se, deveras, se de fato esteja eu realmente morto. Pois posso ressurgir das cinzas ainda não apagadas tal e qual uma ave que subiu aos céus, mesmo sendo considerada morta.

Envelhecer, tanto faz, como tanto se desfez, é apenas uma questão de mentalidade.

Eu mesmo ainda penso ser aquele menino traquinas. Que só saía do castigo imposto por minha mãezinha, assentado àquele banquinho duro, depois de implorar a ela: “mãe! Por favor. Quero leite!” E como eu detestava leite…

 

 

Deixe uma resposta