Como anda difícil, quase impossível, conviver em qualquer profissão, ou meio de atividade, nestes tempos bicudos em que estamos atravessando.
É como se fosse equilibrar-nos em uma pinguela tosca, a fim de atravessar um ribeirão, fundo, de águas barrentas, num dia de chuva intensa, em plena escuridão.
Nossos passos titubeiam inseguros. Temerosos de cairmos no fundo daquela água que escorre velozmente, e a gente não sabe nadar. Em direção ao rio e depois ao mar.
Não tenham indefinições de que a gente atravessa momentos de afoiteza, insegurança, onde a miséria infelizmente se mostra em cada esquina, seja nas grandes cidades, onde aglomerações predominam, onde a truculência campeia à solta. E, por quaisquer motivos brigas se sucedem, por uma simples discussão no trânsito, onde palavrões são ditos e infelizmente seguidos por querelas as quais muitas vezes levam a mortes devidas a tiros que ecoam seja tanto à luz do dia ou até mesmo durante as noites onde impera a escuridão.
A vida se mostra colorida ou descolorida em distintos matizes.
Pra uns a cor amarela azul é a que domina. Pra outros não restam deudas de que a cor se mostra negra como asa de urubu.
E tudo independe de nossa vontade. Dizem que o sucesso acontece à mercê de suor e uma certa dose de sorte. Mas nem sempre ganhar dinheiro se torna uma lida fácil. Muitos se graduam em uma profissão dita seja a melhor escolha. Como informática, computação gráfica, e mesmo gastronomia.
E, no entanto, quantos advogados tentam advogar em causas quase perdidas e acabam perdendo o diploma por se envolverem com endinheirados safados que têm as costas largas. E conseguem subornar desembargadores, até mesmo juízes sem juízo, e terminam prematuramente mudando de profissão. Engrossando a fieira, não de peixes, e sim de garçons que vão e voltam de mesa em mesa em busca de caraminguados trocados, para tentar engordar aquele salariozinho miudinho, que mal lhes permite sustentar com dignidade a sua prole de muitas bocas famintas, quando deveria ter feito logo de cara a tal vasectomia, infelizmente ainda não subsidiada por este sistema injusto, que privilegia ricos em detrimento daqueloutro que ganha tão pouco, mais um cadiquinho do que um salário mínimo.
O que nos espera o day after das eleições que se avizinham? Se o Brasil ganhar a copa. E o Bolsonaro for o preferido. Quem sabe a situação se transmude? Pra pior ou menos ruim? Não sei se sim ou se não. Tudo depende do que nos vai dizer o futuro. Ainda bem que não tenho a arte de uma cigana que diz ter o poder de ler as linhas das mãos.
Ontem, ou num dia qualquer, em visita a um colega de farda, quando digo colega de farda não pretendo dizer que o tal seja do exército ou da polícia, e sim um esculápio como se dizia quando a referência era um médico dos tempos idos, ao chegar ao seu local de trabalho, e olha como ele trabalha! Pula de emprego a outro, dá plantões em mais de cinco hospitais, e ainda quase não lhe sobra tempo para ficar em seu consultório, sempre às moscas, onde espera e nunca alcança, aliás, se cansa de esperar pacientes, que porventura apareçam em sua oficina de trabalho.
Não sei bem o seu nome. Na escola de medina ele era chamado de doutor Nenhures. Que pensava ser em nenhum lugar ou em parte alguma.
Já algures significa em alguma parte ou algum lugar.
Esse colega, não irei repetir de farda, pois muitos de nós usamos jaleco, e muitos figurões ou figurinhas carimbadas da medicina ainda usam gravata ou terno sob o tal jaleco, eu prefiro usar a mesma roupa do dia após dia, se quente uso manga curta, se faz frio uma camisa de manga comprida. Com uma blusa por cima da camiseta.
Antes usava branco. Mas com tantas agressões que nossa classe tem sofrido acabaram por macular o nosso branco, enxovalhando-nos a antiga fama de quase sermos beatificados, e nos transformaram em cidadãos mais que comuns, como padeiros, laticinistas, açougueiros que destrincham bois em frigoríficos onde a temperatura permanece entre zero e poucos graus acima. E por aí vai e vem.
Este doutor Nenhures, médico de formação excelente, que só não conseguiu se especializar por ter de trabalhar logo após receber o canudo, percebia, nos três ou quatro empregos, varando noites em plantões exaustivos, mal dormia, o celular o intimava a cada meia hora a atender, ora um acidentado, ora uma dor de barriga devido a alguma lombriga faminta, de outra vez um paciente impaciente que quase agrediu uma atendente educadíssima, que simplesmente tentou lhe explicar que o doutor Nenhures estava atarefadíssimo tentando salvar um acidentado grave, de vez em quase nunca ia ao consultório.
Ah! Já quase ia me esquecendo de dizer o quanto percebia de salário nos inúmeros empregos vários nos quais se desdobrava. Era a soma irrisória de três, quase quatro, salários mínimos.
Naquela tarde, quase noite, quando o visitei, no seu consultório, num prédio modesto, de cinco andares, sem elevador ou portaria, por cuja salinha pagava um aluguel de quase mil irreais reais, o doutor Nenhures não estava.
Ele chegou, arfante de cansaço, depois de mais uma noite indormida, e me cumprimentou com olhos lacrimejantes de sono.
Já havia mirado a sua agenda vazia. Nenhum paciente marcado para as próximas semanas ou meses.
Isso pra ele não era novidade. Pra mim sim.
É. Tanto não se torna missão fácil vender livros, de autores desconhecidos, bem como ser médico desconhecido, num país como o nosso.