Se aquela rua falasse…

Quem não conhece aquela canção antiga, dos tempos de meus avós: “se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas de brilhantes, para o meu, para o meu, amor passar. Nessa rua, nessa rua, tem um bosque. Que se chama, que se chama, solidão. Dentro dele, dentro dele, mora um anjo. Que roubou, que roubou meu coração. Se eu roubei, se eu roubei teu coração. É porque, é porque te quero bem. Se eu roubei, se eu roubei, teu coração, é porque tu roubaste o meu também. Se essa rua, se essa rua, fosse minha, eu mandava ladrilhar. Com pedrinhas de brilhantes, para o meu, para o meu amor passar”.

Pena que as ruas mudam. Se transfiguram como a gente. A idade um dia chega. Sem mandar recado ou servir, depois do almoço, uma sobremesa.

E só nos resta, ou mudar de rua, de casa, de cidade. Mas a gente sempre volta ao ninho antigo.

Aquele que não tem a oportunidade de retornar, um dia, que nem se anuncia, cá estamos nós, envelhecidos, a caminho do ninho antigo. Não como os pássaros que, uma vez tenham aprendido a voar, pelas próprias asas, batem asas e nunca mais verão os pais novamente.

Pena que aquela minha rua, sempre decantada em minha prosa insossa, que desta manhã fria, começo de setembro, logo a primavera sucede ao inverno, por onde caminhei, a passos titubeantes, hoje mais seguros, a Costa Pereira, onde o velho hospital me ensinou que se deve tratar os enfermos com cortesia e amor, naquela mesma casa, hoje reduzida a um buraco fundo, ladeada por outra onde morou meu tio, um dos Rodartes que me emprestaram o primeiro sobrenome, ai se eu pudesse ladrilhá-la, enchê-la de pedrinhas de brilhantes, e ver, com meus próprios olhos enxergadores, este mesmo amor, que ainda me faz companhia há tantos e tantos anos passados.

E se, por uma ventura, por um acaso dado ao descaso, esta mesma rua falasse?

Bem sei que ruas são feitas de calçamentos. Ou de vetustos paralelepípedos. Ou até mesmo de terra batida. Que ruas são feitas de casas, hoje estas mesmas moradas acabaam sendo substituídas por prédios, lotes vazios, a espera de novas edificações. Que as mesmas ruas se metamorfoseiam. A minha Costa Pereira sofreu mudanças tão significativas que quase não mais a reconheço. Mutas casas foram demolidas. Famílias inteiras, vetustas conhecidas, ou se mudaram, sem deixar o endereço, ou fazem parte dos moradores do céu dos anjos e coisas afins.

“Pra onde foram os meninos da Costa Pereira”? Quantas vezes a mim inquiri. Se não obtive reposta não foi por culpa minha. E sim dos velhos amigos, muitos deles já tomaram outro rumo. Ou moram noutra cidade ou enfeitam a legião dos céus.

Ah, se esta mesma rua falasse. Não pela boca dos antigos moradores. E sim pelas portas que já se fecharam. Pelos olhos já sem poder avistar o que se passou, por ali, nos bons tempos de minha meninice peralta, da mesma forma que meus três netinhos agora os são.

Se por acaso esta mesma rua pudesse emitir sons, agudos ou graves, ela talvez gritasse, em alta voz: “como o fulano de tal faz falta. Como o cicrano, ou o beltrano, aquele companherinho que brigava comigo por causa de um cãozinho peludinho, de nome Rebel, rebelde que sempre foi, mas, fiel amigo, que, num passado antigo, tentando me defender, tornou-se presa fácil dos dentes afiados de um canzarrão raivoso, ainda me lembro de tê-lo encontrado de olhos cerrados, com marcas profundas em seu couro à visa, num lote baldio, onde hoje está situado o Tiro de Guerra, onde uma mina d’água ainda minava, e agora jaz ressequida. E nem suspira mais.

Se a minha saudosa e ainda viva Costa Pereira soubesse expressar ela por certo o faria. Com lágrimas copiosas descendo, ou pelos velhos paralelepípedos.  Ou fazendo barro que antes calçava aquela mesma rua. Hoje reduzida a poucos moradores, salvo um ou outro sobrevivente, entre eles cito meu primo tabelião competente o Luís Carlos Rodarte, figura assaz conhecida e admirada por toda a cidade de Lavras. E os filhos do doutor de porte diminuto, chamado de doutor José Botelho. Sem me esquecer o Cacá. Que ainda mora na casa de baixo de onde morava o velho esculápio. De vez em quando, quando desço pela mesma rua, em direção ao LTC, não vejo o velho Cacá assentado na sala, a assistir à televisão.

Se minha querida Costa Pereira pudesse falar, qual a prosa iria rolar entre nós?

Seria talvez assim. Ou assado?

“Onde hoje moram meus pais? Bem sei que minha querida Rosinha mudou de endereço. De quando em vez a visito. Mais abaixo. Noutra rua nas proximidades da minha Costa Pereira. Torna-se fácil localizá-la. E, pra onde se mudaram os incontáveis filhos da dona Ester que morava numa depressão da mesma rua. Todos os seus filhos eram meus amigos chegados. E como ainda tenho uma grande estima por todos eles. Sejam ainda vivos ou entregues à lembranças fugidias. E meu tio Chico Rodarte? Ainda deixa a sauna do LTC enrolado apenas numa toalhinha curtinha. E, quando ele caiu na piscina, a velha do trampolim, lendo descuidado um jornal, quem foi que o livrou da morte certa, retirando-o daquela água fria seu corpinho pequenininho? E o tio Rui Rodarte. Marido da Dodó? Paizão do primo Pedro, ai que saudades deles todos sinto. A tia Cida e o tiozão Binho, ainda andam por ali tal e qual almas penadas. Tomara eles dois ainda vivam para contar e recontar os causos da mesma rua da qual tanto falei.

Se a minha rua Costa Pereira, por felicidade, não somente minha e de todos que ali moraram, pudesse falar, como ela de mim se despediria?

Com certeza indubitável ela assim diria: “ por favor, Paulinho, filho da dona Rute e do Paulo José de Abreu, irmão do Fred e da querida Rosinha, a mesma que mudou de residência, e jamais deixou de se lembrar de todos nós, e que memória afiada ela tem, nunca se ausente desta mesma rua. Ela não só se lembra de você, pequenininho, lourinho, olhinhos meio esverdeados como os da sua mãe, que, depois de idoso se transformou em retratista do cotidiano, volte sempre.”

E a ela respondo: “com certeza nunca irei te esquecer. E, se eu pudesse ladrilhá-la com pedrinhas de brilhantes, para o meu amor passar, eu jamais iria te deixar na solidão. Iria caminhando dentro de ti, em companhia de um dos meus amores. Dentre eles contaria meu pai, minha mãezinha Rute. Minha avozinha Belica. Meu avozinho Rodartino. Meus tios e aparentados. Meus primos ainda vivos ou aqueloutros que me fizeram vestir luto. A minha irmãzinha Rosinha jamais poderia ficar de fora. Meu irmão Fred, mesmo morando distante, sempre o tenho nas lembranças”.

Ah! Se a minha Costa Pereira pudesse e soubesse falar. Eu emudeceria. Ficaria em silêncio. Não diria uma só palavra. E, se por acaso esta mesma palavra ousasse sair dos meus lábios simplesmente diria: “como ainda te amo”.

 

 

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