Infelizmed

Que palavra estranha dei como título a esta crônica de hoje cedo. Derradeiro dia do mês de agosto.

Ao final desse texto meus leitores terminarão por compreender, caso leiam até o final, por que a palavra Infelizmed. E não infelizmente.

Ser infeliz traduz-se como uma pessoa triste. Acabrunhada, perdida dentro de uma redoma de vidro opaco. Ensimesmada dentro de si mesma. Ao mesmo tempo poder-se-ia dizer infeliz. Por circunstâncias pra mim mal conhecidas.

A tristeza é cercada de apatia. Quando a gente acorda e mal saboreia, ao descerrar as cortinas, como é bonito o dia que nasce lá fora. Com aquela luminosidade que quase nos cega. Ou com uma densa neblina a tapar a boca do sol sonolento, que, decerto acordou numa ressaca estonteante. Depois de um porre após dormir com alguma estrela noctívaga, que tenha por acaso recusado o seu amor, e acabou transformando o pobre astro rei num vassalo que quase pôs fim à vida por pura paixão não correspondida.

Como as coisas se transmutam com o passarinhar dos anos. E como a gente se torna distintos assim que a velhice chega.

Nos tempos de dantes, quando ainda menino criança, tinha cabelos lourinhos, não como os do meu netinho primeiro, o Theo, com seus cabelos cheinhos de cachinhos doirados. Como se fosse um anjo descuidado. Que, por ventura, por ter feito uma diabrura qualquer, tenha sido alijado do céu e caiu neste planeta chamado terra em que vivemos.

Por vezes me pergunto? Seriamos nós, os terráqueos, os únicos habitantes da via láctea? Ou algum ET, em seu disco voador, tenha, por um desvio de percurso, por ter-se equivocado de caminho feito uma paradinha aqui. Ou aterrissado, por engano, na vizinha cidade de Varginha?

Quando aqui apeei, depois de quase completar a minha formação profissional na capital das Minas Gerais, tive uma inspiração única. Das tantas que me acompanham a cada manhã. Tendo por mote tantos textos cada um é cada um.

Foi a Espanha, precisamente a sua belíssima capital, Madri, onde passei mais de um ano inteiro, me dedicando não somente ao aprendizado de Urologia, assim como tentando conhecer, in loco, países da bela Europa, da Ásia e parte do continente africano.

Era nos intervalos das curtas férias, que mal duravam uma semaninha, que punha as rodas  nas estradas, ou mesmo nas asas dos aviões, ou até mesmo nos trens de ferro, qual fossem os meios de transportes daqueles bons tempos de juventude, que me deslocava quase sempre, sempre acompanhado por mim mesmo,  indo conhecer o Reino Unido, a distante Istambul, porta de entrada para os países asiáticos, até ver de perto os camelos no Marrocos, a linda e cosmopolita Paris não ficou incólume, passei pertinho da linda Suíça, dei uma voltinha até Portugal, pra onde retornei tempos depois, e, enfim, voltei à pátria amada salve-se quem puder, usando tamanco, pitando cachimbo, e, retornando ao Brasil de navio, partindo de Barcelona, numa cabine lá em baixo, quase no fundo o oceano, junto a quatro estudantes de idiomas conflitantes. Um era argentino. O outro londrino, o terceiro oriundo da Alemanha, e eu, meio médico, ainda imperfeito na minha especialidade, acabei por pisar o solo brasileiro na cidade maravilhosa, cheinha de encantos mil, a bela Rio de Janeiro, onde a temperatura oscilava entre trinta  graus à sombra e mais de quarenta ao sol.

Ao aqui chegar, nos anos distantes de um mil novecentos e setenta e sete, mês de maio, não tinha sequer uma noite de sono completo. Acordava, sob o tilintar do tal telefone preto, ainda não existiam os celulares, a fim de atender os pacientes operados de véspera, tanto de próstata, quando de pedrinhas desgarradas, e que dor os enfermos sentiam quando os ureteres entupiam. E as tais pedrinhas marotas não eram eliminadas à luz do dia, via uretra, e eu, com olhos remelentos, era intimado, com irrestrita urgência de voltar ao hospital para reoperar os recém operados, desentupindo sondas, ou controlando hemorragias, que sofrimento, não só de minha parte, assim como dos outros. E assim, de telefonema em ligações tardias a minha lida persistia, por anos e anos a fio.

Creio que, se não me titubeia a memória, ainda me lembro, sem saudades, de uma reunião entre esculápios, numa salinha qualquer.

Era um colega de turma da UFMG, o meu saudoso colega bem parrudo, de nome Marcelo Noce. Daquela turminha de médicos idealistas, ainda cheio de sonhos depois descoloridos, diplomados daquela mesma turma que quase completa, daqui há três curtos anos, cinquenta anos de graduados. Quando aconteceu nosso primeiro contato na finalidade de aqui em Lavras ser implantada o tal plano de saúde, a chamada de Cooperativa Médica, depois foi conclamada de Unimed.

Ainda me lembro que fui voto vencido. Temia pelo final das consultas particulares.

Já que quando aqui iniciei meu périplo espinhoso pela medicina existiam dois tipos de pacientes. Os pagantes e os indigentes. Que eram atendidos com a mesma cordialidade e afabilidade. Tanto os primeiros quanto os demais.

Anos depois aconteceu o que havia previsto. As consultas privadas, que eram pagas em espécie, não em cartão bancário, em notas miúdas ou graúdas, foram minguando como a água da mina em temos de veranico. Quando as chuvas escasseiam. E os deixar para pagar depois, quando puder e quiser, acabaram por serem a bola da vez.

A tal Unimed cobra não somente os olhos da cara. E cada ano que passa os preços aumentam em cascata depois de uma tromba d’água.

Sempre fiz planos. Primeiro gostaria de ser médico. Era bom aluno. Conforme me confidenciou, no dia de ontem, a minha querida professora de Matemática, a inesquecível Maria Adélia. A mesma que ontem teve uma certa dificuldade em fazer um pix para pagar meu novo livro.

No entanto, esse plano de saúde, epitetado de Unimed, não tem me dado o devido descanso.

As suas mensalidades, ano a ano, quase mês a mês, sobe como um foguete da Nasa, um dia vai alcançar além da lua o planeta Marte.

E nossas ridículas aposentadorias não dão conta de seguir-lhe os passos.

E nós, médicos, ditos associados deste plano de saúde acabamos ficando inadimplentes.

Os preços exorbitam. E quase nenhum médico, de algum centro ou cidade de maior porte, acaba deixando de atender pela Unimed.

Antes médico não tinha o costume de cobrar de colega. Desde que a gente mostrasse a carteirinha do CRM éramos isentos de pagamento.

E como a coisa se modificou. Além de termos de pagar os honorários cobrados, ainda nos resta saldar a conta do hospital. Que não fica barata como o marido da barata.

Infelizmed os tempos são distintos. E o que nos reserva o porvir?

Não tenho a resposta na ponta da língua. E depois podem me chamar de arauto do final do mundo. Ou língua de trapo. Como preferirem não estou nem aí. Fico por aqui mesmo. Antes que me processem por danos morais…

 

 

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