Em quem eu voto agora posso confessar

Apenas em menino criança, por volta daquela idade cheia de espinhas na face, um tanto avesso à aritmética, quando mal sabia fazer contas nem de dividir muito mesmo de multiplicar, somar letrinhas era a minha predileta, diminui-las nem em sonho, comecei a escrever anos mais tarde, tinha verdadeira paixão, como ainda sinto por outra paixão, aquela mulher de pouca estatura e de elevada devoção à família, muitos amigos já sabem de quem eu falo, ela tem nome de flor, umazinha que se protege com espinhos, que de vez em sempre penetram na minha pele fininha, ainda me lembro da missa das nove e meia, na mesma igreja pertinho de onde me encontro, nesta manhã de terça-feira, quando, acompanhado de minha mãezinha tão estimada, até hoje dela não me esqueço, acostumava entrar numa salinha escura, de joelhos dobrados num piso de madeira dura, do outro lado, de dentro do confessionário, um padre, que falava um português com forte sotaque alemão, idioma que bem mais tarde passei a dominar e ao mesmo tempo amar, e este mesmo padre santo, de nome João, que nos dias de hoje pastoreia ovelhas desgarradas nos campos santos do céu, e a ele confessava meus pecadinhos, não tanto cabeludinhos quanto aqueloutros quando mais velho fiquei, e ele, ou me perdoava, ou me recomendava pensar melhor nas minhas atitudes. E, acabei crescendo, não tanto em altura, e sim em cultura recheada de boa literatura, e como me sinto bem ao escrever a cada manhã.

Depois que minha idade passou de certa idade o hábito de ir à missa foi-se atenuando, desacentuando, até apenas entrar na igreja antes de aqui chegar, quando ela se mostra vazia. Tendo por companhia bancos de madeira, imagens sacras, ignoro todos os nomes de santos, a cruz onde Jesus Cristo foi imolado. Pobre dele! Ah, se por acaso soubesse o destino da humanidade, o quão cruéis muitos se tornaram, e como a bandidagem anda à solta, sem a punição devida, o quanto díspare nos tornamos. Muitos habitam mansões paradisíacas. A maior parte da população brasileira mal tem onde morar. E se abrigam debaixo de pontes e viadutos. Ou tentam ludibriar a fome se alimentando dos restos das sobras. E como existe desperdício no país inteiro. É tanta comida ainda aproveitável que se transmuta em dejetos fétidos. Um monte de lixo depositado a céu aberto. Quando deveria, ou ser levado para casa em sacolas recicláveis. Ou se transformado, num simples projeto de compostagem. Servindo como adubo em hortas comunitárias. Na intenção louvável de tirar a barriga da miséria. De tantos compatriotas desempregados. Que passam horas intermináveis, sob um frio intenso, ou debaixo de uma tempestade recheada de raios e trovões. Ou até mesmo sob a inclemência do sol do meio dia, à espera de comida. E acabam voltando para seus barracos, no alto de um morro qualquer, ou numa palafita infecta quase sempre inundada quando a maré sobe. Sem nenhuma perspectiva de um futuro melhor tanto para ele como pra sua família de muitas bocas desdentadas. Cujos filhos, netos, nunca tiveram a oportunidade de uma visitinha sequer ao dentista.  Que cobra os olhos das bocas. E a saúde pública engatinha como um gato no qual falta uma das pernas. E que pena que em nosso país, um dos postulantes ao planalto, justamente o mais bem avaliado nas pesquisas de intenções de voto, nele falta apenas um dedo. Melhor seria, se ao revés de um dedo apenas, a ele sobrasse um cadinho só de dignidade e respeito ao bem alheio.

Em quem eu voto nem ao espelho iria me confessar.

Aliás, quando me olho no espelho, logo ao acordar, quase madrugada, com a cara deslavada, olheiras profundas sulcam-me o canto dos olhos, melhor seria ouvir o canto do sabiá laranjeira bicando laranjas maduras, ou até mesmo a algaravia dos pardais, penso, com as cãs que enxovalham as minhas têmporas, se por acaso, ou até mesmo um descaso, deixasse minha barba crescer, decerto o pobre Papai Noel perderia o emprego. E as crianças talvez nem me deixariam entrar pela chaminé. Não por ser obeso. E sim pela minha sovinice. Já que não me acho avarento. Perguntem a minha Rosa se por acaso costuro o bolso de minha calça? Ou se eu mesmo não deixo meu minguado dinheiro meio escondido numa gaveta qualquer.

Estamos prestes a ter de votar. Encher a urna de votos, que seja eletrônica, como prefere a boca do povo, ou a outra, da preferência de outro postulante à presidência. Pra mim dá no mesmo.

Agora está aberta a temporada de caça. Pobres animais com a vida em risco. Melhor seria grafar cassar com dois esses. Pois muitos políticos, por uma safadeza qualquer, depois de eleitos são cassados. Não a tiro de espingarda de que calibre for. Eu mesmo tenho uma espingardinha de chumbinho. Escondidinha dentro de um armário antigo. Com a qual costumava caçar rolinhas. As quais eram fritas na panela e depois comidas como se fossem frango a passarinho.

Esse ano em curso vai ser o ano das bondades e falsidades. As trocas trocas vão imperar.

Dez sacos de cimento. Ou um carrinho de mão semi novo. Ou até mesmo um cacho de banana que já deu fruta. Ou um carrinho de rolimã sem as quatro rodinhas em falta. Podem ser objetos de permuta em troca de votos, que, ao revés de serem endereçados àquele candidato vão ter outro destino. Àqueloutro vagabundo, com cheiro nauseabundo de bunda mal lavada, que prometeu mundos sem fundos, e nunca mais por lá apareceu.

Este segundo semestre promete. E não vai cumprir.

Primeiro avizinham-se as eleições. Depois vem a copa do mundo. Se o Brasil for campeão, que bom (Kibon). Mas ainda prefiro o sorvete da marca Gelato.  Se ganhar este ou aqueloutro? Pra mim não importa se a mula manca ou trupica.

Já disse, dantes, no título, que agora eu posso confessar o meu voto. Pena que sou devoto de tantos santos. De pau oco.

Que ainda não sei em quem votarei. Se irei votar, para presidente, no sapo barbudo, tenho de refazer minha barba branca. E se a minha intenção é votar no tal capitão, que me perdoem os soldados rasos.

Ainda persistem dentro mim algumas incertezas. Se sim ou se não.

Agora confesso. O meu voto vai ser naquele que não só vai prometer comprar mais livros de minha autoria. E de fato irá me convencer que em suas mãos limpas vai ser a melhor escolha para engrandecer o destino de nosso amado Brasil.

 

 

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