Quem ainda não escreveu, ou passou pelas suas mãos, uma ou duas folhas de papel envelhecido, amarelecido pelos anos, uma carta falando de amor, uma declaração de estar apaixonado, na intenção louvável de se casar um dia.
E quem ainda não teve o prazer não sabe o que perdeu.
Pena que nos dias de hoje não mais se escrevem cartas deste teor. Já que o computador substituiu, não à altura, ou com a mesma doçura e carinho, aquela folha de papel timbrado, tal e qual um pergaminho, já que nele não se pode tintar em tintas de pura saudade, todo amor que foi ou não correspondido.
Cartas, onde eram expressas letras borradas, por lágrimas lacrimejantes, as quais deixaram a folha de papel, antes branca, todo manchada, por um choro sem controle, justamente por ver a amada amante se despedir na rodoviária, sem destino certo, por certo seria aquele um último adeus, não um até breve, como esperava quem ficou à espera, no tempo presente são coisas infelizmente olvidadas, por serem inconvenientes desde que o carteiro não teve tempo de deixar na caixa do correio, já que a tal internet quase fez sepultar as tais cartas manuscritas.
Quando estive em terras espanholas, na capital madrilenha, que linda cidade me cativou tanto, aos que em Lavras me esperavam, com certa ansiedade, já que a nostalgia cutucava fortemente seus corações, enviei não só cartinhas curtas. Como diversos cartões postais. Mostrando na capa fotografias dos lugares visitados. E na contracapa alguns versos, que diziam da saudade que sentia dos meus pais e aparentados. A minha esposa Rosa não ficou sem receber uma só missiva minha. Foram tantas e tantos cartões e cartinhas. E com que gaudio recebia, em contrapartida, balinhas de mel feitas por ela. Com a mesma doçura dos beijos doces que nela deixei.
Hoje, antes da hora do almoço, deixei o consultório com minha pasta recheada de meus livros recém editados. Tinha intenção de vendê-los. Tarefa nada fácil em se tratando tanto da crise que vivenciamos quanto da falta do costume de ler dos brasileiros.
A primeira parada na vontade de desovar livros foi na clínica do primo angiologista de mesmo nome do meu avô Rodartino.
Mas, antes de ali chegar, andando devagar, dei uma paradinha num prédio na mesma rua do consultório do meu primo Neto.
Não foi fácil interfonar o número exato do apartamento das minhas tias avós, as queridas Maria Isabel e a sua irmã Luiza Alvarenga. Ambas bastante idosas. Quase centenárias.
Com a ajuda de um senhor, que estava na garagem daquele prédio antigo, de nome Eliane, acabei por interfonar o número 201. Por sorte acertei.
Subi por uma escada íngreme, aquele prédio deveria contar com um ou mais elevadores, pois ali moram idosos, e a porta já estava aberta.
Quem mo atendeu foram duas simpáticas e zelosas cuidadoras.
De pronto elas me levaram aonde estava a querida Luiza. Que, em tempos idos cortava o meu cabelo.
Abri a pasta onde descansava um dos meus livros. Acabei lendo uma das duzentas crônicas para as três. Foi um silêncio comparável ao que uma vez senti quando, numa casa beira lago, na represa de Camargos, dormia quase solitário apenas tendo por companhia o murmúrio do silêncio.
Depois da leitura feita, com a voz embargada e carregada de emoção, me fiz levar ao outro quarto. Onde cochilava a irmã mais longeva. A chamada Maria Isabel Alvarenga, prima de minha saudosa mãezinha.
Procurei, e acabei encontrando, não só fotos antigas, como velhas cartas de amor e saudades dos tempos idos.
Uma delas, que tenho à minha frente, escrita pela Maria Isabel, solteirona que vive pelos sobrinhos netos, era endereçada a um tal de Geraldinho.
Tratava-se de uma carta datada de seis de dezembro de um mil novecentos e cinquenta e um. Um ano depois do meu nascimento.
Era uma carta de amor. Onde estava escrito, em letras legíveis, à caneta tinteiro, que começava assim: “Antes de tudo quero pedir-lhe desculpas pela demora em acusar-lhe o recebimento do seu atencioso cartão e do registrado com minhas velhas cartas, que, apesar de muito simples, traduziam todo o meu amor por você. Enfim tudo que um coração de mulher pode sentir. Um coração que soube amar e mais ainda perdoar sem adiar um segundo sequer.
Você, que significa tudo na minha vida, os meus melhores sonhos.
Talvez você estranhe essa Maria que lhe escreve agora, mas é aquela mesma a quem um dia você supôs amar. Mas nada disso tem importância, Geraldinho. Pois tudo pertence ao passado. E como tal deve deixar de existir.
Você foi na minha vida um sonho grande demais que pensei transformar-se em realidade. Mas que não consegui.
Agora não mais haverá na sua vida nenhuma dúvida. Você poderá caminhar livre e despreocupado a procura de alguém a quem você possa amar e dedicar-se inteiramente sem restrições e objeções de sua família, porque o sentimento de amor existe.
Geraldinho, você é que ainda não o encontrou. E, por isso não quero culpá-lo pelo que aconteceu. Você sabe que nunca o odiei e jamais guardei qualquer ressentimento contra você. E, se há alguém que lhe deseja todo bem, sou eu.
Esperando que você seja muito feliz em tudo, aqui fica, meu ponto final.
Subscreve – Maria Isabel.
Data – seis de dezembro de um mil novecentos e cinquenta e um.
E como gostaria de ainda, antes que dezembro vier, receber, de quem for, melhor da minha Rosa, mulher, uma carta declarando todo amor que inda sentimos, um pelo outro, até nosso ponto final.