Que me perdoem a troca de letras.
Melhor dito seria velho. E melhor escrito seria dormir.
Mas nem tudo que tenta ser perfeito, neste mundo tão imperfeito, dadas às imperfeições que nos rodeiam, seria esse as com crase, ou seria dispensável usá-la?
Para dirimir a celeuma deveria me reportar ao meu nobre e erudito professor Antônio Russi.
Pena que a esta hora madrugada, o relógio do meu computador mostra seis e dezenove, meu amigo, confessor, e revisor, deve estar abrindo os olhos nesta linda manhã de inverno, já prontinho, ainda em pijamas, para ler, pela undécima vez, o livro de Manoel de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha, em sua edição original, escrita em espanhol.
Por falar em envelhecimento mais uma vez a deuda me persegue.
Ontem, lá pelas quase cinco e meia da tarde, ao deixar a academia, depois de correr na esteira cerca de cinco quilômetros, na velocidade a mesma que um bom cavalo trota, beirando os oito km, sem olhar no reloginho da tal máquina que avoa sem sair do lugar, fiz-me acompanhar até a saída daquele clube magnífico, onde lancei meu décimo nono livro, por uma garota odontóloga, linda como um campo de girassol florido em amarelo vivo, quase emparelhados, lado a lado. Ao chegarmos à roleta de saída, pensei que havia entrado numa máquina do tempo e desenvelhecido anos antes de agora.
Foi só chegar ao meu apartamento, neste beco sem saída defronte ao meu consultório, e me olhar no espelho, que desilusão! Era eu mesmo. Aos setenta e dois janeiros, embora estivéssemos em agosto, com o mesmo cabelo branco nas têmporas grisalhas, no alto uma calva luzidia, quase pelada, rugas a passarinharem-me a face, sobrolhos cheinhos de fios brancos, quase uma taturana idosa, o sulco naso labial mais parecido a um corregozinho sem água, um ar de verdade vetusto, como um idoso, não velho como um sapato furado na sola, sem direito ou chance de receber meia sola, aí sim, acabei por me conformar com a irreversível verdade do envelhecimento. Pois não existe máquina milagreira que nos faça retroceder no tempo. Pura ilusão das tantas que me acompanham desde quando fui criança.
E a tal receita pra veio durmir? Será que perdi a fórmula? Ou seria indício incipiente da moléstia de Alzheimer, enfermidade cruel ainda sem cura. Ou fármaco que a atenue. Ou tenta minorar o sofrimento dos circunstantes. Daquela familia que não tem como bancar cuidadores. Verdadeiros heróis ou heroínas que se desdobram dias e noites em claro, a mudarem o decúbito dos pacientes, tentando prevenir as escaras, ou até mesmo alimentar os enfermos com as sondas naso gástricas, pois eles, os idosos portadores desta doença degenerativa e irreversível, perderam a capacidade de ingerir alimentos por eles mesmos.
Sabido e reconhecido que velhos dormem muito pouco. Tentam fechar as olheiras a seguir da novela das sete. Tentam dormir, um sono leve, no meio da novela das oito e meia, que não começa antes das nove e meia.
Justamente no quase final desta novela- intitulada Pantanal, antes que a bela Juma se banhe pelada no rio onde jacarés fecham a boca de entusiasmo, por não poderem abocanhar aquele corpinho sinuoso, e ainda desprovido de celulite, os idoso cochilam sonolentos. Com o sono entremeado de roncos e flatus sonoros e fedidos, e a pobre veia cutuca a bunda magra do seu marido, que ainda ronca e sonha com uma linda donzela que se metamorfoseou numa fera ferida, e nada de o sono chegar.
E ele mexe e remexe o travesseiro. Amarfanha os lençóis a espera da troca, pois deles exala um cheiro de urina vencida, ronca e solta puns. Usando aqueles fraldões que se empapam bem cedo de xixi. Tossem e suspiram por aquela mocinha que envelheceu ao seu lado, seus lindos olhos mal enxergam as letrinhas grandes do meu novo livro, a mesma que tinha olhos azuis, hoje uma catarata não tratada fica como uma janela embaciada, branquinha como algodão na safra, e dorme de banda para evitar o sexo, que sempre fracassa, mesmo em uso daquela pilulazinha azulada, que promete levantar defunto, mais um Fake, e o sono não vem.
Do lado direito do leito ronrona o quase defunto ainda vivo. Ou quase. Prestes a viajar ao céu do além mar.
E que perigo o pobre marido velho não acordar no dia seguinte.
Eis que felizmente, ou infelizmente, ele acorda. Apanha a dentadura no copo com água pela metade no criado mudo.
E a tal fralda geriátrica, cheia de urina com um odor nauseabundo de enxofre, tem de ser jogada no lixo. E a veinha pensa alto: “dorme Antenor. Ainda não são nem quatro horas da madrugada. Nem tente me agarrar pelo traseiro. Sei que você nunca mais vai conseguir empinar sua pipa. Que agora só presta para fazer pipi. Mesmo assim sujeito a ter de chamar um urologista para passar uma sonda na sua uretra estreita”.
E o veinho ainda ressona. Tosse, não imagina quanto.
Já euzinho, ainda não veinho por completo, por falar em idade, não em vaidade, lá se foram os anos, em dezembro, precisamente dia sete, estarei setenta e três anos mais veinho. Não caberão tantas velinhas em meu bolo. E a minha veinha, a dona Rosa, quase da minha idade, ainda ressona ao meu lado. E que companheirona ela ainda o é. Sempre digo que a minha Rosa, cada vez mais sem espinhos, é o esteio onde amarro a minha égua.
Vocês podem pensar que vou sonegar a receita pra veio durmir.
Foi ontem a noite o acontecido. Durante o Jornal Nacional estava agendada a entrevista de um certo candidato a presidente. Desta feita, mal feita, seria a vez do sapo barbudo.
Já disse e repito, que aprecio demais o molusco de nome Lula à milanesa. Comida servida no restaurante “A Casa da Thais”.
Sogra do Danilo Frajola e de duas meninas lindas filhas dela.
Quando começava o noticiário da rede Globo, antes da prosa com o tal candidato, todos sabem de quem eu falo, logo caí num sono pesado. E só acordei no dia seguinte. A hora em que o sol nasce. E a lua desaparece entre as estrelas.
Tá aí a receita pra veio durmi. E dispenso aqueles que porventura venham ao meu consultório. Se ousarem pagar a consulta tudo bem. E levem meu novo livro como cortesia da casa.