Quem pesa mais?

Já me preocupei demasiado com os quilogramas que a balança mostrava.

Há alguns anos atrás me apoquentava os miolos não apenas a queda dos cabelos. E como os tinha exuberantes. Um topete negro quase encobria a minha testa.

O lindo bigode negro, mostrado naquela fotografia, nos verdes anos de quando me graduei em medicina, ai que saudades eu o exibia,  todo garboso, melenas castanhas escondiam as minhas orelhas, certinhas, não de abano, cabelos alinhados graças aos cuidados de minha quase esposa de antão, a Rosemirian, com quem durmo, bem pouco, a qual, como uma eficiente cabeleireira, a exemplo faço uma reverência à minha linda prima Nieta Rodarte, fazia verdadeiros milagres com meus pelos da cabeça, me fazendo de cobaia, já que a minha amada Rosa não faz parte da legião de quem cuida dos cabelos, tanto dos homens quanto de suas parceiras, em mim fazia bobs, me deixava ao secador, aquele quase dinossáurico, de rodinhas na haste que o mantinha de pé,  tempos imensos, usava um spray de marca Elnet, nem sei se existe mais, e como eu ficava formoso, e ainda penso ser, já que a única pessoinha que me considerava bonito em verdade era minha amada mãezinha Rute.

E como os anos, levianos e alcaguetas, fazem da gente, uma vez idosos, eu considero a velhice uma fábrica de monstros, e com eu amo estes monstrinhos, entre eles me incluo, bem velhinhos, assoprando velinhas tantas que quase causam incêndio no bolo que mal comporta tantas velas, se assopradas descuidadamente, suas labaredas, se forem longe podem causar uma tragédia na cidade. Ah!, se não fossem os bombeiros expertos? Ignoro a extensão da tragédia que o fogaréu poderia causar.

Já tentei fugir da balança. Como atleta mal formado, e mal informado, quando pesava mais de oitenta quilogramas, apesar da dieta, das correlanças que voltei a fazer, quando passava por perto de uma delas fingia que não a via. No entanto ela me olhava de banda e me intimava que voltasse. E eu, temeroso de ter ganhado alguns quilinhos, nunca fui obeso como um certo primo, Luís Carlos Rodarte, o do cartório, que ontem me comprou um livro, na tal balança me pesava. E os seus ponteiros nunca me alertaram que eu estava em sobrepeso. E que precisava com certa premência procurar um colega. Aquele médico especialista em dietas, e entendedor de patologias glandulares.

Sobre peso, ontem, durante uma corridinha nanica na esteira, ao meu lado caminhava tartaruguento o Messias. Um aposentado da Cemig. Onde ocupava um cargo de chefia.

Enquanto eu corria desembestado como uma besta furibunda o Messias, pachorrentamente andava.

Foi quando a ele perguntei sobre o título da minha crônica de hoje cedo: “quem pesa mais. Livros ou uma dúzia de elefantes em manada gigante”?

Eu, dentro da minha mochilinha bem levinha escondiam dois livros. Os últimos editados da minha lavra. Era em verdade um peso bem levinho. Em desacordo com os vinte pacotões trazidos da editora Indi Gráfica, onde nasceu meu último filho livro: Leia com meus olhos.

À minha pergunto o sábio eletricista, hoje jubilado, que penso não entender patavina do que seja uma lâmpada, me respondeu: “sabe o que pesa mais? A consciência”.

Entre um monte de livros e a consciência não tenho dúvidas. Uma mala lotada de livros pesa um bom bocado. Se tentarmos pesar meus livros todos, aqueles que tenho guardados na estante, e os empacotados, à espera de compradores, não sei se a tal balança iria se esconder como eu tentei amoitar-me na moita um dia na farmácia.

Agora as balanças não me atemorizam. Até gosto delas. Não tenho por elazinhas sonora admiração. Mas não fujo da raia quando uma delas me chama às falas.

Sobre o dito do Messias, que não tem o hábito de correr na esteira, mas na piscina, nos dias de calor, ele nada muito melhor que euzinho, sobre o que pesa mais, um amontoado de livros e a consciência, a ele dei uma resposta à altura da minha baixa envergadura. Não moral.

“Se deseja mesmos saber quem pesa mais, livros, ou a consciência, desde que a consciência não seja suja, seu peso pesa bem menos que um livrozinho sequer. Mas se ela estiver carregada de podridão e sujeira eu opto pelos livros. Livros podem pesar demasiado quando se amontoam na minha estante. Mas a tal consciência, quanto ela está carregada de más intenções seu peso dobra. Em muitos quilogramas”.

Vocês, meus leitores, entenderam a minha distinção? Se não experimentem guardar livros nalguma estante qualquer. E espero que limpem da sua cabeça as suas consciências impuras.

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