Quando as luzes do cérebro se apagam

Agora, cedinho, ao deixar meu apartamento, a hora costumeira, de começo o céu se mostrava escuro.

De repente tudo, cadinho a pouquinho, foi-se abrindo a luminosidade.

A azulice do céu mostrou-se timidamente. Um solzinho encabulado mostrava o sorriso paulatinamente, na sua amarelice costumeira.

Fazia um certo frio. Não tanto quanto sentem os esquimós no polo norte.

A temperatura, acredito, neste vinte e dois de agosto, quase final do mês, deve oscilar entre os treze e alguns graus a mais.

Neste quase final da pandemia, as estatísticas mostram um leve decréscimo dos casos, nesta crise que ainda atravessamos, com a falta de perspectivas de crescimento que o país demonstra, não por culpa dele, ou doutros,  tendo vistas o desemprego que ainda não mostra recrudescência, neste segundo semestre que se avizinha, dada as eleições que se aproximam, penso ser o ano das bondades. Toma aqui. Distribui-se acolá. Passa o chapéu pedindo votos. Promessas prometidas e não cumpridas. Santinhos, não tao santificados, candidatos caminham, barrigudos, tomando cafezinhos ali e acolá, apertos de mãos justamente na contramão das intenções de amealhar votos, não sei o que vai ser no day after das eleições. Se vai continuar a ser um final de ano de espalhar bondades. Ou será um porvir trágico. Quando a crise vai mugir como a vaca de saudade dos seus gabiruzinhos famintos, que foram impedidos de mamar na única teta que sobrou depois da ordenha da manhã.

Confesso, sem me esconder num confessionário, infelizmente não ver a luz ao final do túnel.

Que ainda persevera escuro. Lúgubre e taciturno. Como a cabeça pouco esclarecida de certos postulantes, qual seja a uma cadeira na câmara dos deputados, que seja no governo do estado, qual e tal acontece nos pretendentes ao senado da república.

Versando sobre o mesmo tema, eleições, luzes feéricas devido à luminosidade de uma amarelice brejeira que o sorriso do sol quase ofusca as minhas meninas dos olhos, se não fossem as persianas abaixadas não sei o que seria desta crônica de agora cedo, gostaria de dar um dedal de prosa sobre um assunto que me tem atormentado.

Como a idade provecta faz da gente uma verdadeira fábrica de monstros.

Primeiro nossos passos claudicam. A nossa massa cinzenta se reduz pouco a pouco. Depois, cada um com sua cruz, envelhece mais cedo ou mais tardiamente. Os hábitos alimentares sofrem alterações significativas. A começar pelo tirocínio. Os olhos se embaciam. A ereção não nos permite amar a contento. As recordações do passado ficam perenizadas em nossa mente. Já o presente fica numa obscuridade que nos impressiona. Até quando, sem previsão de quando será, um velho amigo, já falecido, um dia me alertou: “Paulo Rodarte de Abreu. Não vá nunca ao cemitério. Não se aproxime de uma cova recém aberta. Imagine se um seu desafeto, sorrateiramente, por detrás, lhe dá um empurrão. E você, sem saber se chegou sua hora é enterrado ainda vivo. E, lá embaixo, por debaixo de dez palmos de chão, nem sequer pode chamar a atenção. E termina seus dias sem poder respirar. Já que lá embaixo não se pode pedir socorro. Cuidado. Disse-me ele numa tarde de domingo”.

As luzes de nosso cérebro vão se apagando de mansinho. A cada tempo lâmpadas queimadas não podem ser trocadas. E só nos resta esperar a hora de nos despedirmos de nossos entes mais queridos. Já que nossos pais se foram.

Ontem, domingo, quase à hora da ave maria ser cantada na torre principal da igreja matriz, fui, de bolsa dependurada ao pescoço, caminhando sem destino.

Dentro dela trazia dois livros recém editados. Os mesmos que foram lançados no sábado vinte de agosto.

A primeira parada curta foi no apartamento de uma tia querida. Irmã mais nova de minha mãezinha amada. Que hoje penso lecionar nos céus. Dando aulas para anjos e querubins.

Tia Cida Rodarte Catermol Werner, quase centenária, senhora que aprendi a admirar desde cedo, quando ainda morava num sobradinho juntinho à residência de meus avós Rodartino e vó Belica, onde hoje foi construído, por meu saudoso pai, no começo da Costa Pereira, rua que já foi morada de inúmeros Rodartes, o prédio que leva o nome do meu avô, além de ser uma guerreira, que a vida judiou, quem a conhece pode endossar  o meu escrito, e como ela sofreu na pele todas as agruras do mundo.

Primeiro seu esposo adoeceu. O querido Vavá Werner, radioamador prestante e prestativo, vítima de enfermidade cruel, jogado ao leito, com suas mãos encurvadas por causa de artrite reumatoide incapacitante, passava o dia inteiro com o microfone nas mãos, falando ao rádio, dando notícias do pais inteiro, com sua fala estridente, saída do fundo de uma garganta doente.

Tia Cida não desanimava nunca. Desdobrava-se entre os cuidados do seu marido e a sua arte de ensinar. Quase todo cidadão lavrense, sobremodo os mais antigos, bem se recordam dela imbuídos de imensas saudades. Já a minha querida mãe pouco tempo lecionou. Pois logo se casou com meu pai. e teve de se mudar de aqui para Boa Esperança, cidade vizinha onde nasci.

A minha querida tia Cida, mãe do Ricardo, falecido prematuramente em São José dos Campos, onde ia ser matriculado no ITA, estudioso e inteligente, primo do meio, já que eu sou o mais velho dos netos do Rodartino, um dia, sem se prevenir, nasceu a minha querida irmã prima Rosinha de Lourdes Rodarte de Abreu.

O xodozinho dos meus pais.

Ontem passei na sua morada. Naquela pracinha fronteiriça ao Colégio de Lourdes.

A princípio ela não me reconheceu. Seu filho Rogério não permite que sua mãe seja vista sem usar máscara. Por amá-la demais. E temer alguma contaminação pelo tal Covid.

Passamos minutos agradabilíssimos juntinhos. Guardando certa distância.

Tia Cida Rodarte de vez em quando claudica nos seus raciocínios. Aos mais de noventa e cinco anos era de se esperar.

Mesmo sem ser especialista nesta matéria, afeita aos neurologistas, como médico tenho um certo conhecimento. Já sei que as luzes do cérebro de todas as pessoas um dia irão se apagando, lentamente, até um dia, quando não mais nos vai ser possível enxergar a luz ao fim do túnel.

Infeliz o dia quando as luzes do cérebro da minha querida e amada tia Cida se apagarem para sempre.

Este, com certeza, vai rivalizar em tristeza com o mesmo dia quando perdi meus pais.

 

 

 

 

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