Agradeço aos ipês. Embora…

Sejam eles amarelos, roxos, brancos, de que cor há de ser.

O que conta é a beleza de suas flores, de todas as cores, indistintamente não sei qual a que mais me agrada.

Dizem que as flores desta linda árvore, ninguém a observa quando apenas vestida em folhas, seca, quase apenas se vê o tronco e galhos prestes a se embonecarem, nestes tempos de frio, onde o inverno se anuncia, a tal florzinha de rara beleza, embora de vida fugaz, que, tão logo desabrocha despenca rumo ao chão. Costuma ser indício de chuva que vai chegar. E como a chuva é tao ansiada, mais ainda nos ares da roça, para enverdecer a pastaria, fazer o capim brotar, a roça de milho despontar da terra mãe, com minúsculos pezinhos de milho que, se o tempo permitir, logo estarão lotados de espigas graúdas, e, no momento certo, quando  ainda mole, que saboroso cozinhar na panela cheia de água em ebulição, tirar da mesma panela com um garfo, para não queimar os dedos, colocar a espiga ainda quente, nela salgar, ou amanteigar, e ir comento devagarinho, grãozinho por grãozinho, até só restar a espiga nua, cujo destino ingrato vai ser o saco de lixo, num recipiente qualquer.

Um dia, quando morava no condomínio, de onde me mudei por causa de meus netinhos, ao passar por uma pracinha antes enjeitada, lá no alto da cidade, ao ver aquela florzinha despencar, sem paraquedas, e desabar sobre a relva seca do jardim, antes que elazinha se esborrachasse, aparei-a com a palma da minha mão.

Nossa conversa foi mais ou menos assim: “desculpe-me caríssima florzinha. Você me inspira pena. Vive tão pouco. Eu, com meus setenta e dois anos, penso chegar aos cem. Imortalizar-me-ei? Jamais. Talvez meus livros imortalizar-se-ão. Não seu autor. Finito. Algum dia de aqui passarinhei.  Poderia fazer uma tentativa? Se por acaso eu de novo a restituísse ao galho onde nasceu, quem sabe a senhorita pudesse de novo embotoar-se. E nova flor amarela, ou roxa, ou até mesmo branquinha, ressurgisse como uma borboleta, tão linda e colorida, antes saída de um casulo fechado, um verdadeiro milagre da natureza”.

A tal florzinha do ipê não me deu resposta. Emudeceu. E eu continuei meu caminho. Até este mesmo lugar onde agora estou.

Considero não apenas coincidência.

A cada ano, antes essa efeméride acontecia ano a ano, agora já tarda mais de quatro quando lancei meu derradeiro livro, o romance Por Quem os Sinos não Dobram, como se fosse um milagre, meus lançamentos caem, justamente em concordância com a florada dos ipês. E esse último não escapou à regra. Foi ontem mesmo o nascimento do meu novo livro – Leia com meus olhos. Daí o meu sincero agradecimento aos ipês.

Foi um acontecimento magnífico, como postado nas redes sociais.

Ali compareceram amigos chegados e até desconhecidos. Não tenho palavras para agradecer aos funcionários do Lavras Tênis Clube. O meu xodó.

Foram servidos quitudes de várias qualidades. Além de uma cervejinha bem suada na garrafa, salgadinhos, refris, e água à vontade.

Até o meu breve discurso foi ouvido com o maior respeito e atenção. O aparelho de som, ofertado pelo clube, graças ao competente amigo Donatelo, não fiz feio. Não zoou como de vezes anteriores. Em outras edições de lançamentos passados.

Mais uma vez agradeço aos amigos ipês. Sejam eles roxos, amarelos ou branquinhos.

Só um pequeno senão não poderia deixar de comentar.

Que pena!

Neste nosso amado Brasil pouco se tem o costume de ler. Escrever, então, faz parte de uma minoria irrisória. Trata-se de um dote restrito a alguns felizardos. Penso me enquadrar dentre eles.

Um dia, aqui, no meu prédio, o Edifício das Clínicas, um amável amigo zelador, Seu Luís, que não mais labuta por aqui, me parou na portaria, bastante contrariado, e me confidenciou: “doutor Paulo Rodarte. Esse livro de sua lavra foi encontrado no lixo. E eu o devolvo ao senhor”.

Não carece dizer que eu refiz a dedicatória em nome dele. Ignoro o destino e o nome daquele infeliz livro. Não sei se de novo ele voltou ao lixo.

E não preciso afirmar que eu mesmo me senti como um dejeto mal cheiroso.

Amo a florada dos ipês. Eles me trazem coisas boas. Nascem e falecem em agosto e setembro.  Ou até mesmo um restinho de outubro.

Mais uma vez repito a palavra pena.

Ao lançamento de ontem compareceram mais ou menos dez pessoas. E eu tive a ousadia de encomendar quinhentos exemplares da gráfica editora.

Refazendo as contas, no que não sou experto, faltam mais ou menos quatrocentos e noventa para serem vendidos. Vai ser como uma missão impossível.

E, pergunto? Por que razão é tão difícil vender livros neste nosso país?

Um dia destes, um caminhão, lotado de livros, despencou numa ribanceira. A carga não foi saqueada. Da mesma maneira que não se roubam livros.

Adoro a florada dos ipês. Como amo escrever e ler.

Mais uma vez agradeço aos ipês. Embora, nesse país, não se cultive o hábito saudável e enriquecedor, de ler…

 

 

 

 

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