Pra quem não sabe pra onde ir qualquer caminho serve

Sábio começo de texto. Não fui eu quem o inventei. Foi outro. Desconheço a autoria.

E sempre inicio minhas crônicas pelo título.

Daí vou divagando, retratando a realidade, seja real ou fictícia, retratando o que vi no dia de ontem,  trasanteontem, até chegar a esta linda manhã que teve começo num certo calor, com o sol a brilhar, mais tarde, oxalá, despenque uma chuvinha mansa, que não somente enverdece a minha grama, lá na roça, como também não deixe secar tanto a pastaria, não deixe, por favor, ao meu bom Deus eu peço, faça com que a sofrida mina d’água não sofra tanto e logo volte a brotar, e logo se transforme num lindo riachinho de águas frescas e cristalinas, cheinho de lambarizinhos listrados, que não se deixem mordicar a isca,  impedindo seus coleguinhas de serem fritados, ou, até mesmo esta chuva benfazeja inunde de alegria os corações dos homens que vivem na roça, e como eles prezam a chegada das chuvas, que por vezes tardam mas não falham, como jamais fracassam os olhos cheios de alegria incontida de emoções, ao ver aquele filhote, nascido agorinha mesmo, ver o mundo pela vez primeira.

Pra onde caminha a desumanidade? Com tanta desumanidade sendo vista a cada quarteirão, gente morrendo à mingua, famintos proliferando como ratos, coelhos, trêpados trepidando angustiosos com aquele hálito etílico inconfundivelmente asqueroso, é só riscar um palito de fósforo próximo as suas bocas que logo pode advir um incêndio, labaredas iluminam a escuridão, crianças sem teto, sem afeto, sem poder levar à boca seu docinho predileto, mães angustiadas vendo as suas geladeiras vazias, sem um único litro de leite a oferecer aos filhos, devido  aos altos preços dos gêneros alimentícios, desempregados oferendo suas mãos caludas para um trabalho qualquer, como carpir lotes sujos, servirem de mãos de obras idênticas àquelas dos tempos da escravidão, e agora imagino, que país é este?

Seria possível fazê-lo renascer das cinzas como a ave Fênix, ou como uma águia valente, que, para não morrer tão prematuramente bate o velho bico num paredão de rochas pétreas, no alto de serra qualquer, muda as penas, e se metamorfoseia numa outra águia quase como nova, de novo alça voo, paira no ar como urubus, e, lá do alto espreita outras presas, que, uma vez seguras em suas garras afiadas leva ao ninho para alimentar as aguiazinhas ainda por se empenarem, como uma boa mãe faz com seus filhotinhas humanos.

E muita gente, sem humanidade, sem afeto, pensando-se isentas de responsabilidade, passa por uma calçada qualquer, percebe, dormindo ao relento um homem ali deitado, semi morto, desacordado, e salta por cima daquele velho adormecido, com sabor de pão amanhecido, de onde exala um odor fétido, e nem sequer tem um gesto de comiseração, não a ele estende as mãos, e passa batido em frente, ávido por chegar a um restaurante grã-fino, para um antepasto que quase sempre custa mais de dois salários mínimos.

No começo da crônica de agora cedo, véspera de mais um sábado, pra mim mais que especial, quando ainda tinha dúvidas pra onde iria lançar meu décimo nono livro, o intitulado LEIA COM MEUS OLHOS, ainda em dúvidas indaguei, a mim memo, onde seria o acontecimento?

Já fiz diversos vernissages por lugares tantos que nem sei contabilizá-los nos dez dedos das minhas mãos.

Muitos, não me incluo entre eles, podem confundir vernissage, palavra masculina, com exposição, lançamento e coisas afins.

Vernissage é o termo usado para se exporem pinturas, quadros, ou obras de arte. São geralmente efemérides de curta duração. Já exposições são mais duradouras. E quadros, esculturas, podem permanecer defronte aos olhos de admiradores por tempo indeterminado.

Já lançamento de livros são solenidades culturais, por vezes se oferecem coquetéis, bebidas distintas, salgadinhos a gosto, geralmente de ótimo gosto, e, ali comparecem leitores ou simplesmente penetras, que nem são convidados, e, estes bicões passam a festa inteira comendo do bom e do melhor, bebendo todas, e, deixam o lançamento de mãos vazias, sem ao menos comprar um livro, talvez por não terem o  bom costume de ler, ou por achar o preço cobrado por um livro de muitas páginas de rico conteúdo, caros demais, isso se considerarmos sessenta reais uma soma alta, bem menor do que se paga num botequim infecto, por uma Kaiser quente, duas dúzias de torresmos queimados, batatinhas fritas feitas no óleo vencido, e, deixa o lançamento tentando levar um livro, que nunca vai ser lido, de graça, sem ao menos uma boa noite, ou um aperto de mão dizendo parabéns por sua arte, já que o fulano de tal desconhece o que seja arte, e a confunde com traquinagens que ele fazia quando ainda criança.

Já lancei livros de minha lavra em vários locais. Listo-os, não em ordem de lançamentos: no cube de Lavras, em duas ocasiões, no hotel Vitória, do saudoso Ênio de tantas saudades, num restaurante que nos dias de agora se transformou numa farmácia, no salão de festas do condomínio onde morei, e por aí, e por acá, me atrevi, já que editar ou tentar comercializar livros, nestes tempos bicudos, onde a internet abocanha, com sua boca faminta, todas as intenções, a maior parte delas malfadada, de lançar livros impressos, quase figuras dinossáuricas, e ainda persevero, contrariando conselhos ao revés, ainda vou continuar escrevendo enquanto a inspiração me ditar, enquanto  a morte não me convocar a viver no céu, onde irei algum dia, espero não tão perto, irei continuar na minha saga, de tentar incutir cultura nas mentes obscuras, dentro da obscuridade que reina em nosso amado Brasil.

E agora Paulo Rodarte?

Onde você vai lançar seu décimo nono livro? Já escolheu a data? E o local?

Elegi sim.

É lá mesmo. Naquela mesma rua onde cresci. Onde deixei amigos. Onde meus parentes viveram. Naquela mesma rua, que daqui se avista, à mão esquerda.

Naquele mesmo clube onde, com meu saudoso pai jogava tênis e futebol de salão.

Foi naquela mesma piscina onde aprendi a nadar. Ali, pertinho de onde moravam os Rodartes. Naquela mesma rua hoje bastante modificada. Por onde sempre passo ao cair das tardes quase mortas.

Meu próximo lançamento se avizinha.

Vai ser amanhã. A partir das dezenove horas.

A efeméride não tem hora para terminar. E meu Leia com meus olhos, por certo, vão abrir suas páginas, uma a uma, a espera do aceite dos meus caros leitores e compradores.

Eu não sabia onde iria lançar meu próximo livro. Pra quem não sabe pra onde ir qualquer caminho serve. Será?

Há tempos já havia decidido. Vai ser aqui pertinho. No bar do Lavras Tênis Clube.

Nos meus idos anos conhecido como Praça de Esportes. Entidade formadora de atletas e homens com H maiúsculo.

 

 

 

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