Desde menino, espertinho, assanhado quando via uma meninazinha de sainha acima dos joelhos, usando aquela meinha branca comprida, por debaixo do vestidinho curto sonhava em adivinhar qual seria a cor da calcinha, e, se ela estava sem, melhor ainda, uma estranha sensação me cavoucava por dentro, ainda não conhecia a intimidade das mulheres, casto que ainda era, aos mais de cinco anos me desvirginizei, não por completo, pois, aquele primeiro ato sexual as cortinas do teatro não se levantaram, muito menos meu piupiuzinho encapado, avexado e constrangido com as pernas grossas da minha primeira namoradinha, confesso ter desistido da primeira relação, que foi postergada para os sete anos, idade perdida no esquecimento, já que se passaram mais de sessenta e mais anos, e foi então, no leito macio da minha primeira e inesquecível babá que aprendi a não sertão intempestivo e tempestuoso, ejacular veloz como as asas frenéticas dos beija flores, e impetuoso como um garanhão novinho, o qual, só de ver a égua no cio vara a cerca de arame farpado, fica agarrado na fiada do meio, e seu dono faz upa para retirá-lo do imbróglio que o infeliz cavalinho inteiro se meteu, creio que não há de ser a primeira vez nem a derradeira.
Os pesares, contratempos, os percalços, continuaram a me abocanhar por anos a fio.
Creio não ter perdido o fio da meada.
Continuava a me atrever pelas estradas poeirentas ou enlameadas. Confesso que ainda prefiro me descolar pelas estradas barrentas e enlameadas, quando os pneus da minha caminhonetinha prateada quase escorregam pelo acostamento e, se não fosse um bom motorista decerto iria cair num despenhadeiro qualquer, e acabaria meus dias aqui neste planeta ainda maravilhoso, apesar de muitos pesares, já que o bicho homem não se dá conta de quantas e tamanhas maldades praticadas em nossa morada tão linda como uma margarida em flor.
Perdi a conta de quantos pesares tive de atravessar, não numa pinguela oscilante, que balouçava intrepidamente, quando, em nossos passos vacilantes, tentando apear ao outro lado rio, cujas correntes intrépidas correm em direção ao oceano, e, ainda menino, criança, ia de férias a Cabo Enregelante, metia meus pezinhos nas águas frias do mar revolto e retornava àquele macio banco de areais branquinhas e ali me sentia seguro, aninhado, a exemplo de um filhotinho ainda aninhado no velho ninho, a esperar alçar meu primeiro, não o derradeiro dos voos que se seguiria tempos depois.
Foram incontáveis percalços que tive de saltar pela vida afora
O primeiro a ser vencido foi ter sido aprovado no primeiro degrau de uma escada tão alta que não podia deslumbrar o desfecho. Nem ao menos atingir seu cume. E, mais uma vez não desisti. Parei para um breve interregno de tempo. Aspirei o ar puro da serra. Senti-me como a um passarozinho prestes a deixar o achego quentinho e confortável de onde ele nasceu.
Uma vez mais vi que nem tudo são flores. Que nos espetam com seus espinhos afiados, que podem, não apenas macular a nossa pele fina bem como ferir a minha intensa sensibilidade, a mesma que costumo chamá-la de maldita, de tantos sofreres que elazinha me faz chorar.
Desconheço vida despida de sofrer, sem dores duradouras. Sem mágoas ou ressentimentimentos maiores. Ou até mesmo tristezas irremediáveis ou insosolucionáveis.
Pra tudo, quase, pode ser encontrada uma luzinha piscante ao final daquele túnel escuro e negro. Basta acendermos luz a de um bando de pirilampos. Se cuidarmos pacientemente deles,
os mesmos vagaluminhos serão eternamente agradecidos. Desde que o tratemos bem.
Apesar, dos percalços e desprazeres incontáveis, todinhos, elezinhos, lado a lado, perfilam como soldados num batalhão de recrutas insípidos e em início da carreira militar. Jamais irei desistir, tanto, dos meus devaneios de um dia, nessa, ou noutra passagem passageira, na qual somos apenas e tão somente viajores transitórios, a continuar, por, essa trilha, por muitos leitores considerada indigesta, a espalhar cultura, sementinhas que poderiam não vicejar. Nessa estiagem que ainda perdura. De norte ao estremo sul de nosso Brasil continental.