Zé Castanha da Próstata Inchada e o poste

Para bem informar aos leitores, como urologista praticante e diletante, escrevinhador furibundo, poliglota lúcido em quase sete idiomas, melhor em linguagem da roça, a qual domino sem troça, a próstata, quando incha, sobretudo no idoso, depois da idade do lobo acaba por apertar a saída da bexiga, dificultando a emissão de urina, nos casos extremos provoca entupimento total, deixando o pobre sofredor com a barriga inchada, a qual nós, urologistas praticantes chamamos de Bexigoma, que deve ser esvaziada imediatamente por meio de sonda. E quando a tal sonda não passa pode-se, em segunda conversa, fazer uma saída de emergência por cima da pelve, passar uma outra sonda, a que se conhece por stoma, situação provisória como exemplo a mulher do compadre Zé Castanha, de quem conta essa história com final feliz.

Zé Castanhinha, pobre menino da roça, por não ter quem o informasse sobre seu aparelho genital, a mãe e o pai tinham vergonha de tocar nesse assunto, veio ao mundo com seu Piu-Piu encapado, também alcunhado de Bico de Lamparina.

Por exatamente esse motivo a pele que recobre a cabeça do pinto, a qual se chama de prepúcio, acabou aderindo-se à glande, por onde emerge a uretra, justamente no ponto final do pênis. Dias, meses, anos se passaram.

Um feio dia um acidente horroroso aconteceu ao pobre e infeliz menino de nome esquisito: Zé Castanhinha.

Quando ele foi urinar a urina não saiu nem com reza brava. Em casa mandaram chamar a benzedeira, que fez despacho com folha de aroeira do mato, com quiabo cru, com uma macega de capim gordura.

De nada adiantaram as tais providências roceiras.

Fui chamado às pressas no hospital onde trabalhava e ainda mourejo firme na ponta do bisturi afiado que nem navalha sem cabo.

Fui à roça prejuizenta do pai do menino infeliz, com seu Piu-Piu entupido, e tive de fazer apressado uma pequena incisão para alargar seu bico de lamparina apagado.

Depois do feito bem feito saiu um chororó de xixi contido à força dentre daquela pelinha estufada. Foi um alívio enorme na história do malfadado menino da roça.

Fui pago com duas dúzias de ovos caipiras, um frango novato, duas galinhas em começo de postura, e um galo cego dos dois olhos furados.

Mesmo assim saí feliz da vida com minha boa ação de médico sem culpa no cartório.

Os anos passearam na vidinha modesta do Zezinho Castanhinha com a próstata por inchar.

Aos mais de cinquenta anos novo incidente no percurso do nosso herói do mato dentro.

Zé Castanha, já quase idoso, começou por urinar de hora em hora. Pela manhã bem cedo era pior ainda. Para tirar leite dava um suadouro na testa ancha do nosso amigo prostático assumido.

Com o tempo massageando-lhe as costas vergadas pelos anos o pobre Zé observou a urina com a cor estranha. E com um mau cheiro de deixar a porcada no chiqueiro levantando o sovaco para ver de onde vinha o mau odor nauseabundo.

E com uma nódoa de sangue talhado, com o mesmo jeitão de sangue de galinha antes de fazer molho pardo, naquele prato raso, levado às pressas a cozinheira especialista em frango com quiabo.

Aos sessenta e tantos janeiros, antes de fevereiro nascer, quis a maldita falta de sorte que o destino viu o Zé Castanha passar de mal a pior.

A exemplo de cão macho, quando deseja marcar território, não podia ver um postinho que fosse. Levantava a braguilha da calça surrada, quase descia a pantalona gasta, e fazia um esforço enorme para verter urina. Daí passou a se chamar – Zé Castanha da Próstata Inchada e o Poste.

Desta feita não tive dúvidas.

Levei o desafortunado Zé à mesa de operação. De suas entranhas escuras extraí uma enorme próstata madura, com mais de duzentas gramas de peso vivo. Fora o pinto morto do pobre Zé Castanha da Próstata Hipertrofiada, que por acaso era de natureza benigna, o pai não sofreu de câncer na próstata, veio a falecer de doença do coração, que por sinal era bom demais, não bom de saúde, e sim bom de bondade pura.

Um ano depois Zé Castanha da Próstata Hipertrofiada de novo me procurou, desta feita no consultório.

Estava vendendo felicidade por todos os poros. Irradiando saúde pela bexiga sem sinais de esforço evidente.

Despedimo-nos como velhos amigos, que em verdade éramos.

Depois da operação, via SUS, sem pagar nadica de nada, recebi como pago duas vacas baldeiras, um touro eunuco, um saco de milho em espiga, prontinho a cozinhar com sal, ou fazer cural, ou broa de milho verde recheada de queijo de minas gerais, além de um beijo na testa descalvada de cabelo, sou quase careca, salvo umas penugens na parte lateral do crânio.

Desde então jamais me esqueci do bem que fiz ao compadre Zé Castanha da Próstata Inchada, agora seu nome foi acrescido para: Zé Castanha da Ex Próstata Inchada, Já Operado, Nunca Mais Tocado, Naquele Recôndito Abrigo Onde a Coruja se Esconde nas Horas Frias do Inverno da Roça do Desabrigo.

 

Deixe uma resposta