Em tempos de vacas magras a solução é picotar a vaquinha gorda tirando dela pedacinho a pedacinho

Não se coloca em questão a penúria dos tempos atuais. Tem gente que vende o passe de ônibus que recebeu gratuitamente a fim de comprar o almoço ainda quente. Outros existem que anunciam a venda da esposa, e entregam a sogra a qualquer preço de banana verde por se tornar madura. Já terceiros empenham no banco o anel de brilhantes falso, com uma pedra que lembra safira, no entanto é um reles cascalho, retirado do mesmo garimpo exaurido. Os quartos passam adiante os “isquintos” dos infernos, tentam vender o capeta orelhudo, e recebem em troca apenas as brasas incandescentes restos de uma fogueira decadente.

E ainda existem, pasmem!, os que montam na feira de verduras a preguiçosa da madame saracura, que mal consegue ganhar a vida na mais antiga das profissões, e vira balzaquiana de programa, que se entrega ao primeiro vagabundo que lhe cruza o caminho, percebendo pelo ato falho apenas uma minguada moeda de um real.

Não persistem dúvidas que a coisa anda feia como urubu zarolho e perneta, recém saído de um balde de tinta branca. Mais sujo que galinha preta esquecida no pau do poleiro imundo, depois do piriri da brota da galinhada inteira.

Um dia me contaram, e não me pediram segredo, que uma pobre senhora, zeladora exemplar de um condomínio de um prédio de poucos andares, ainda de poucos moradores, adoeceu sensivelmente.

Ela se queixava de uma dor de cabeça persistente, mal que lhe fazia perder o sono de descontente.

A tal dor se irradiava de trás pra frente. Ia e vinha, como a Maria Fumaça na estrada claudicante, fazendo, na rotunda, aquela volta importante.

Com o tempo a cabeça enferma fazia a dona Esmeralda faltar ao serviço com certa frequência.

Ela recorreu, com as poucas armas de que dispunha, ao médico do sistema único de saúde.

Primeiro foi atendida, a duras pelejas, por um clínico geral.

O tal esculápio novato, oriundo de uma escola ainda não reconhecida pelo MEC, receitou-lhe “paracetamol”, na intenção louvável de aliviar-lhe os queixumes, não ir direto ao foco da doença, pois, sabido e ressabido que se deve tratar a doença, não o sintoma que ela traz.

Dias depois dona Esmeralda retornou à consulta, pior ainda de quando veio.

A dor era de tal intensidade que migrou em direção ao joelho. Daí ao pequeno artelho foi um salto brejeiro.

Meses depois, em situação desesperadora, enfim conseguiu uma consulta com o neurologista.

Foi preciso o apadrinhamento de um vereador no qual votou, sem saber qual lhe era o endereço (só depois veio a saber que o tal edil foi cassado, por comprar votos e prevaricar com a mulher do prefeito).

A sorte de dona Esmeralda parecia que iria mudar. Pena que só ela mudou de endereço, para um logradouro ainda pior que o primeiro.

O especialista em cabeças doentes pediu que dona Esmeralda fizesse um exame de nome Tomografia do crânio, do tipo mais moderno que existe, que só existia na capital.

Foram mais de doze longos meses na fila do SUS. E nada de o tal de SUS agendar na sua lista enorme de espera aquele importantíssimo exame crucial para o diagnóstico ser feito.

Sem como poder pagar os mais de quinhentos reais, irreais dada a sua condição de assalariada, mais uma vez a sorte não sorriu à pobre paciente do SUS, que em linguagem da plebe se denomina de Susto.

Chorosa, amargurada, deprimida, a pobre faxineira do condomínio onde morava gente de classe remediada, mas boa de coração, resolveram, em comum acórdão, os condôminos, todos eles, fizeram uma vaquinha para pagar a tomografia da dona Esmeralda.

Em pouco tempo, via particular, num bom serviço de imagens, dona Esmeralda conseguiu realizar o tal exame importante. Afinal, finalmente…

O resultado saiu num instante. Foi diagnosticada uma reles enxaqueca, que foi amenizada por alguns remedinhos caseiros mesmo.

Qual o moral da história?

“Quando, no país onde moramos, sem solução para uma mudança imediata, inda mais para a América do Norte, onde o governo Trump ameaça enxotar e construir muros nas divisas entre os Estados Unidos e outros países confrontantes, a emigração esbarra em tais medidas protecionistas, o melhor é ficar por aqui mesmo”.

Os condôminos do prédio amigável, de uma cidade perto de Lavras, fizeram uma vaquinha para pagar o exame de dona Esmeralda Esmeraldina.

Em tempos de vacas magras a solução é picotar a vaca, para pagar o pato. Mesmo que o pato seja uma vaquinha resultado da boa vontade dos amigos…

 

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