Quem me dera

Hoje acordei com uma estranha sensação de infelicidade.

O céu despejou água a noite inteira. O dia acordou cinzento. Pingos magros ainda desciam das nuvens e eu precisava ir ao trabalho sem a ajuda do meu guarda chuva azul, cor que preferia estivesse o céu do dia de hoje, com o sol brilhando, nuvens da cor de algodão tapando a boca desdentada do sol, que, naquela plena madrugada, deveria estar dormindo com a lua, depois de fazer amor quente com aquele astro bem perto da gente, onde alguns de nós já pisaram em anos antes, deixando sua marca indelével no solo lunar. Só que o homem que esteve na lua nunca fez amor com ela. No máximo a continua admirando bem no alto, com seu disco de vários matizes sendo o ponto de encontro distante entre os enamorados amantes.

Nessa semana que está pela metade tenho tentado, debalde, realizar um dos meus sonhos irrealizáveis.

Tenho uma roça aqui bem perto, no município de Ijaci. É de lá que trago meus causos, minhas histórias que versejam do homem do campo, valente e estóico guerreiro que ama a chuva com amor verdadeiro, a ela reverencia na hora certa de ver a roça de milho crescer, verdejar, assim como a pastaria sair de um reles capim rasteiro e encompridar, fazendo o gado engordar, o leite aumentar, o bezerrinho recém nascido logo prumar, saindo do matagal onde foi escondido pela mãe vaca que é todo desvelo, protegendo a cria dos perigos que rondam não apenas no ar assim como do lado de baixo.

Tenho tentado, há tempos rendados, construir uma modesta residência de olhos e alicerces bem perto de um lago barrento, este fato se dá pelas chuvas constantes que caem incessantes por sobre a represa do Funil.

Não tem sido exequível concluir tal projeto. Primeiro devido à chuva que despenca incessante sobre a estrada de terra batida, a qual pretendo transformar-lhe o leito em algo pisável pelas rodas da minha caminhonetinha prateada, valente companheira que via de sempre tem afundado os pneus no lamaçal em que se transformaram as estradas vicinais.

Já contratei máquinas pesadas, que não apenas raspam a estradinha curta, passante pelo meu terreno, que liga à casa amarelazul aos olhos úmidos da represa do Funil.

A construção ainda está nos alicerces. Vai indo devagar, e quase sempre.

Mas, como nem tudo é estiagem nas estradas da vida a reforma da estrada tem esbarrado na falta de conseguir pôr as máquinas na lida. Ora o comandante da patrol não aparece ao trabalho, de vez em quando a mesma máquina claudica e não consegue ir adiante. E a pobre estradinha continua intransitável pelos mares da vida.

O caminhão que leva o material para a futura casa beira lago não tem como aportar naquele recanto encantado. E a casinha tosca não sai da base, nem sobe pela escada do céu.

E eu, contrafeito e contrariado, continuo sem saber quando e como vou poder passar as noites enluaradas, sem pregar os olhos de sono, naquela morada linda, com a melhor vista d’olhos da represa que faz divisas com minha rocinha antes prejuizenta, agora em mãos expertas de um amigo rico em amizade genuína.

Não sei quando vou concluir meu sonho azul. Hoje o azul virou cinza, as nuvens derriçam água caída do céu cinzento.

Tenho tido contrariedades de vários aspectos. Primeiro no que tange aos homens que tentam me servir e não conseguem. Ora eles faltam ao serviço, ora as máquinas rateiam com seus motores pifados bufando de cansaço.

De outra feita os entregadores de material atolam na estrada barrenta e não conseguem seu intento, de pisar naquele meu solo sacrossanto repleto de encantos.

Mais ainda vários outros percalços me acompanham. A falta de dinheiro, maldito vil metal, me tem faltado na hora exata do pagamento que tem atrasado sem hora e dia de ser quitado.

Nesta manhã, bem cedo, ao descer a rua na intenção de trabalhar, e, nos intervalos de deitar no computador as minhas angústias, o meu desassossego, pensando nos homens, nas máquinas comandadas pelos homens, na estrada curta que une meu pedaço de paraíso à casa amarelazul, cenário de A Moça Alegre do Sorriso Triste, meu último romance fictício,como gostaria que fosse pura expressão da realidade, matutei, com meus pensamentos que vagam não ao sabor das águas do mar, Minas não tem mar, e sim rios, no quem me dera…

Quem me dera fosse eu auto-suficiente em minha vida desvairada, cheia de sonhos coloridos, embora o dia seja apenas de uma cor cinza, e não precisasse de gente, de máquinas empurram terra, de caminhões que carregam cascalho, de indivíduos entregadores de material de construção, e gente que não me cobrasse pelos serviços prestados, bem ou mal, de terceiros que terceirizam a obra, de pedreiros, carpinteiros, armadores, capinadores de ervas daninhas, retireiros faltosos, cozinheiros inescrupulosos, peões que judiassem dos cavalos xucros, prestadores de serviços que exigissem mais que posso desembolsar na hora do pagamento, enfim, toda sorte e gama de pessoas com as quais gostaria de ter apenas relações de amizade, que os negócios no que refere a dinheiro ficassem ausentes das nossas relações mais prementes e puras, e que, finalmente aquela curta estradinha logo ficasse transitável, e permitisse passar por ali apenas a felicidade, e deixasse as contrariedades e melancolias de fora, ah!, quem me dera…

Quem me dera eu dependesse de apenas eu.  E fosse auto-suficiente em mim mesmo…

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