A vida se torna engraçada mesmo depois de anos e anos de estrada.
Quando pensamos ir pelo caminho certo, por uma vereda a descoberto dos raios de sol, lá vem ele, com sua língua de fogo a deixar nosso corpo queimado, num vermelho dolorido, que logo vem a descascar e formar feridas, esparramadas por cada centímetro da pele clara, mas logo depois as feridas cicatrizam, a vermelhidão se torna rosada, a pele volta ao lugar de antes, num espaço curto, como curta é a vida.
Por mais que nos tornemos gastos pela inclemência dos anos, por mais que nos sentimos imunes aos maus juízos que fazem de nós, por mais que pensamos fazer o certo, existem pessoas possuídas pela inveja e ciúme, como disse antes ninguém chuta cachorro morto, as tais pessoas que dão ouvidos às prosas nãos emersas de nossa boca, que infelizmente sabe falar, e não se cala frente às iniquidades e injustiças que tentam lançar sobre nós, nesta altura da minha envergadura não tão alta, como o céu que não se deixa tocar, tenho aprendido a engolir sapos e lagartos, mesmo não apreciando-lhes o paladar.
Não tem sido ameno escutar falatórios egressos da intimidade oral de terceiros. Pessoas levam e trazem coisas que em absoluto não fomos nós quem proferimos aquelas inverdades. Foi alguém que usou da nossa fama conquistada pelos artigos transparentes que saem do teclado do computador que obedece fielmente aos nossos dedos, esse alguém que ouve tais fofocas saídas de bocarras abertas, de onde exala um cheiro pútrido de coisa podre, a exemplo do alimento d o qual se locupletam os urubus, verdadeiros garis de asas negras que voam usando as correntes de ar, e ajudam a tornar a terra menos insalubre para se morar.
“Ladram os cães e a caravana passa”. Essa expressão não é de minha autoria. Trata-se de autor ignorado, um ilustre escrevinhador, talvez como eu incompreendido, perdido e não encontrado pelas ruas da vida.
Não existe como passar pela vida em brancas nuvens descoloridas de cinza. Ora elas mostram indícios de sol. Da mesma forma, no dia seguinte, quando se pensa que vai sair o sol despenca a chuva em pingos gordos, em forma de chuvadonha irada.
Existem dias em que a gente só recebe encômios sob forma de tapas no ombro, enaltecendo-nos as virtudes, a maior parte delas só a nossa mãe conhecia. As outras, as demais pessoas fecham os olhos para não se inteirar delas. É bem mais fácil tentar arruinar a identidade, macular a verdade, do que falar bem do que temos feito, pois boas ações não tem o respaldo de serem jogadas nas pás dos ventiladores, melhor espalhar merda ao vento, e deixar o fedor entrar pelas narinas abertas de cada gente.
Entre falar de mim, ou deixar a minha pessoa no ostracismo, prefiro a segunda premissa. Entre inventar inverdades e rechear as ruas de malversações ou podriqueiras que dizem ter saído de nossa boca, prefiro morar no campo, onde as pessoas da roça mal têm tempo de semear as sementes, preparar a terra, torná-la desnuda, riscá-la com as ranhuras do arado puxado por um trator, adubá-la na hora certa, e esperar que o tempo colabore para uma boa safra.
Os trabalhadores de mãos caludas, aqueles que mal nos cumprimentam por acharem que suas mãos finas iram macular ou sujar as nossas, mal têm horas vazias para falar da vida alheia.
Por esse motivo que me dou bem entre eles. Por isso me sinto como eles. Mesmo sendo cidadão urbano, com o umbigo não enterrado na roça, mas coração aqui espera a hora e lugar para ser entronizado debaixo da velha árvore que ensombreia o pasto verde onde as vacas escondem a cria recém parida na intenção de preservá-la dos predadores, sendo o mais perigoso deles o ser humano. Com sua língua de trapo.
Como disse, na frase anterior, cuidado com a língua do ser humano. Muitos deles são desumanos. Maliciosos, arredios, frios e desprovidos de coração. O que lhes bate no peito não se trata de coração, e sim de uma bomba formada de músculos duros, que tem a função de levar o sangue ao resto do corpo, aos mais longínquos lugares, às extremidades extremas, ao cérebro que se comporta como o maestro do corpo humano.
Hoje, bem cedo, ao descer a rua como rotina, ao passar por uma padaria nova, onde quase sempre tomo café a um preço convidativo, ali paro alguns segundos apenas, fui repreendido pela dona da padaria, uma mulher de olhares raivosos, como uma águia à espreita da presa indefesa, como se fosse um reles cachorro morto.
Deixei a casa dos pães injuriado pela admoestação espevitada, nascida de uma fofoca desalmada, de alguém que por certo não trabalha nem mora na roça.
De hoje em diante nunca mais paro naquele lugar. Vou tomar meu cafezinho magro em outra casa de pães.
Agora, antes das oito da manhã, neste 22 de novembro, prestes a acordar dezembro, depois da injúria sofrida, graciosamente, vou tentar redimensionar-me a vida, ir adiante, depois de tantas decepções e contrariedades.
Embora saiba que elas fazem parte de nossa vida…