Vendo a vida passar

Depois que a gente vence certa idade, difícil precisar quantos anos seriam, pra muitos depois dos quarenta, para outrem após ultrapassados dez anos depois, ou vinte, tendo sido vividos mais da metade da vida, que tem sido esticada a cada ano que passa, ontem a idade atingida seria pouco mais de quarenta, agora esta cifra passa em muito dos cinquenta, num futuro perto mais de cem, o que fazer com o planeta apinhado de gente, ruas atapetadas de pessoas indo e voltando, caminhando sem espaço pelas calçadas, sem emprego, sem trabalho, sem habitação condizente, sem saúde decente, sofismo, como meus pensamentos que vagueiam a esmo, qual seria o destino da humanidade, com o mundo inchado nas cidades, o campo anda vazio, pois ninguém mais quer viver na roça, ali o caboclo de mãos ásperas e caludas pensa que o futuro reside nas grandes aglomerações urbanas, ledo engano, pois é do campo que vem a alimentação – o arroz com feijão não nasce no asfalto, as hortaliças não crescem nos passeios, o leite não aparece sem a presença da vaca, que não se dá em casas luxuosas, pelo contrário bezerro vê a luz do dia ou a lua cheia amoitado pela mãe vaca num matinho qualquer, sem a interferência de mãos humanas, sem parteiro, sem obstetra, no máximo exige alguém que saiba dar um basta no sofrimento da novilha de primeira cria que tem o feto atravessado na barriga, e carece de mãos experientes para desvirar o concepto, aí sim, a cria nasce feliz, já andando pelas próprias pernas, sugando das tetas da mãe o colostro cheio de nutrientes fundamentais ao seu desenvolvimento, e por aí caminha a humanidade.

Voltando à longevidade, aos de mais idade, pensando no tempo que me resta para vislumbrar o fim dos meus dias, quando e como irei me despedir da terra, de suas pessoas com as quais convivi, se as amei ou ignorei, se as deixei com saudade, ou não pensei com clarividência em seus destinos, fui desatento aos seus sofrimentos, se fui avesso aos seus próprios lamentos, se não cri em uma entidade superior, por ser um ser inferior, se deixei uma criança chorando de fome, ou se distribuí benesses aos que me estenderam a mão num momento de aflição pura e simples, se fui bom, se fui caridoso com meu próximo, mesmo aquela alma distante, da qual mal sabia o nome, se fui incrédulo ou adversário contumaz dos desígnios de Deus, caso tenha ignorado o sofrimento de alguém que me olhou com olhos de angústia pedindo um tempinho que fosse para que eu o escutasse, e mais uma vez eu, sentindo-me um ser superior,desdenhei daquela pessoinha sem expressão fisionômica que não me dissesse respeito, um mero corpo caído na sarjeta, por ele passei, não olhei pra trás, e fui seguindo o meu caminho, e não voltei os olhos ao sofrimento de um próximo que considerei distante demais.

Uma dia, fim de semana qualquer, voltando da roça com minha mulher, por uma estrada longa, calçada de asfalto bem conservado , entre Ijaci e Ibituruna, são mais de cinquenta quilômetros de estrada cheia de curvas oblongas, com destino a Nazareno, meta final era chegar a Camargos onde tenho uma casa de campo, ali mora um cão amigo de nome Pirunguinha, um Border Collie ainda jovem, pouco acostumado a minha pessoa que pouco aparece por lá, ao passar por Ibituruna, uma das primeiras vilas de Minas Gerais, comarca cortada pelo rio Grande, rio que cruza quase todo o meu estado, ao entrar por uma rua sem asfalto, logo percebi que ia pelo caminho errado, gostaria de ir parar em Nazareno, Ibituruna seria a metade do caminho, um cadinho mais, acabei por parar a caminhonetinha Estrada numa rua que não dava em nada.

Duas pessoas despreocupadas estavam comodamente assentadas a uma mesa de bar.

A tal mesa de plástico, sob o sol do meio dia, ali não serviam cerveja ou outra bebida qualquer. Nem um petisco,um tira gosto, um prato restaurador da fome.

As duas pessoas as quais perguntei qual a direção de Nazareno, foram extremamente corteses em indicar a direção: era pra lá, não por aqui, volta pra trás, dobra à esquerda, uma vez no posto de gasolina dobra à direita, e segue a frente, que não tem jeito de errar.

Assim guiei o meu veículo no rumo certo. Em poucos minutos já estava em Nazareno, outros minutos após já antevia o lago da represa de Camargos onde o cão Pirunguinha não fez caso da minha presença que tinha no hálito do amargume da distância e da falta de convivência tão crucial para aproximar dois amigos, no caso do cão e seu dono.

Retornando de volta à Ibituruna, de onde partiu a pergunta às duas pessoas que me indicaram a direção a seguir, ainda me lembro de quando eu, jogando conversa fora, sem mais o que dizer, a eles indaguei, na calma que reinava bucólica naquela cidadezinha parada no tempo: “o que vocês fazem aqui”?

Em coro os dois me responderam: “estamos vendo a vida passar”.

Em quantos anos a minha vai passar também?

Nem sequer imagino, nem mesmo desejo imaginar. Deixo a cargo do futuro prognosticar quantos anos serão mais…

Deixe uma resposta