Dafany Siqueira, uma trajetória de sucesso

Quem diria que aquela menina linda, nascida de família modesta, pais separados depois, a razão desconheço, talvez seja dada à bebida que o pai amantíssimo da filha usava sem moderação, ou por incompatibilidade de gênios, ou qualquer motivo que interessa apenas aos dois, um dia seria uma médica de sucesso, conseguido, à duras pelejas, vencendo e convencendo aos professores da cidade pequena onde morava, de nome Ijaci, provando aos professores que com inteligência e esforço denodado se poderia chegar onde ele agora estava, formada em medicina com louvor por uma escola federal, uma das melhores do país, bem perto de sua Ijaci querida, dos pais que amava a exaustão, do seu namorado com quem desejaria ficar até o fim dos seus dias, tempo ainda longe de se converter em realidade real.

Os percalços não foram poucos até atingir o primeiro degrau de uma subida vertiginosa.

Parece que tudo conspirava contra os desejos da linda Dafany.

Os pais se separaram quando ela mais precisava deles. Foram dias de melancolia e tristeza, de enormes dificuldades e incertezas, que logo foram vencidos com galhardia por aquela estudante aguerrida, de real valor, que saiu de um passado incerto para sentir seu sonho se materializar em curto espaço de tempo.

A nossa heroína, exemplo entre tantas e tantas meninas de modesta situação, num passado perto morou na roça. Era comum vê-la de mochila às costas subindo o morro agudo, nos dias de chuva tinha de ir de carroça puxada por um cavalo eunuco, pois andando pelas próprias pernas não dava conta de vencer o lamaçal que se formava pelas chuvas de verão.

A escolinha rural, hoje desativada, repousa indolente como marca de um passado singelo, logradouro para onde iam aprender as primeiras letras os aluninhos que moravam perto. Entre eles ia Dafany, que se destacava entre os demais não apenas pela inteligência, esforço hercúleo, e atenção às saudosas mestras de então.

Acontece que naquela escola Dafany não vislumbrava o futuro que a ela acenava numa escola de medicina de bom conceito, se possível não paga, pois os pais bem sabiam o custo alto de se manter uma menina quase feita numa faculdade particular.

Quis o tempo que, pelas altas notas de Dafany, pela sua capacidade em se destacar entre os colegas, aprovada com menos de dezoito aninhos na Faculdade de Medicina de uma universidade Federal, foi quando teve começo a carreira da nossa querida Dafany, para a qual o futuro mostrava os dentes brancos de felicidade explícita.

Graduou-se em medicina aos vinte e dois anos incompletos naquele dois mil e dezenove. Foi uma linda festa de formatura.

Os pais não podiam pagar a despesa da festa marcante. Por esse motivo Dafany não foi à festa, compareceu apenas à entrega dos diplomas, vestida numa beca escura, presente de uma tia torta.

A nossa médica foi a oradora daquela turma de doutores em medicina.

Agradeceu em primeiro lugar aos pais, depois à tia torta que teve o mérito de endireitar-lhe a vida, a seguir aos professores do curso de medicina, querida por todos que era.

Todos os esculápios recém formados bem sabem que as dificuldades não param nesse exato instante.

Para se tornar médico completo não é apenas suficiente o título recebido naquele momento, assim como mais e mais anos de dedicação, de corpo e alma, aos degraus que ainda têm de subir escada acima.

A residência médica é mais difícil que o vestibular. Talvez mais concorrida em certas áreas da vida de um profissional que toma a si a responsabilidade de salvar vidas humanas, se não consegue tenta atenuar as dores e dissabores que as enfermidades trazem.

Foi este o caminho seguido pela médica recém formada de nome Dafany Siqueira.

Mais uma vez a indecisão fez parte de sua trajetória pelos caminhos exigentes da medicina de qualidade.

Se quisesse ficar por ali mesmo não seriam necessários mais concursos, mais anos debruçados aos grossos compêndios de medicina, mais horas intermináveis em plantões mal pagos, não era importante o quanto recebesse, e sim o aprendizado que nunca tem epílogo dos abnegados doutores que mais e mais entendem de nacos estreitos do corpo humano, mais e mais se especializam em setores minúsculos do minucioso labirinto do qual se compõe o homem em sua totalidade.

Mas a esforçada Dafany queria mais.

Não se contentava em ser mais uma triagista, uma plantonista nos tais Psfs da vida, que mal sabem que hemorróida compete ao proctologista e não ao Urologista, que fimose deve ser resolvida, caso não complicada, depois do pênis formado, isso acontece por volta dos quinze ou mais anos.

Dafany escolheu a Neurologia cirúrgica para se tornar médica completa. Adorava perscrutar os meandros intrincados do cérebro humano, poder operar um tumor cerebral, ou um avassalador aneurisma em área complexa, como complexos são os neurônios.

E assim Dafany se tornou quase completa, na sua maratona pelos corredores indevassáveis da medicina de ponta.

De neurocirurgiã consagrada passou a professora requisitada mundo afora, palestrante de renome, médica formadora de opinião, ouvida e apreciada por todo planeta terra.

Foi quando a vi, durante uma corrida bem cedo, pelas ruas de Lavras, quanto fui ter a uma padaria já acordada, a fim de tomar meu cafezinho madrugador, dei de olhos na cara sonolenta da consagrada médica Dafany Siqueira.

Ela havia, de pouco, abdicado das conferências magistrais, da cátedra de titular da cadeira de Neurologia de uma faculdade importante, das cirurgias robóticas, nas quais era pioneira, para se dedicar única e exclusivamente a um pronto socorro modesto, local que atendia a pacientes da região onde moro.

A ela perguntei, entre perplexo e admirado, qual a razão de tal guinada em sua vida?

Dafany se despediu de mim com a seguinte resposta: “meu caro Paulo, deixei a cidade grande, a cátedra da faculdade de medicina, cansada da situação de falta de tudo por que o país passa. Não quero mais não ser dona de mim mesma. Agora, de volta ao interior do meu interior, moro ainda em Ijaci, dou plantão por aqui, tentando ordenar os meus neurônios. Pobres deles!, concluiu a doutora Dafany, caso continue no ritmo que estava, em poucos anos não serei eu mesma”.

Continuei a corrida pensando como a colega Dafany. Se eu também não parasse a tempo, e não desce uma pausa nos meus muitos anos, não sei no que me tornaria. Se num fantoche da medicina, ou se um robô meio cambeta…

 

 

Quem diria que aquela menina linda, nascida de família modesta, pais separados depois, a razão desconheço, talvez seja dada à bebida que o pai amantíssimo da filha usava sem moderação, ou por incompatibilidade de gênios, ou qualquer motivo que interessa apenas aos dois, um dia seria uma médica de sucesso, conseguido, à duras pelejas, vencendo e convencendo aos professores da cidade pequena onde morava, de nome Ijaci, provando aos professores que com inteligência e esforço denodado se poderia chegar onde ele agora estava, formada em medicina com louvor por uma escola federal, uma das melhores do país, bem perto de sua Ijaci querida, dos pais que amava a exaustão, do seu namorado com quem desejaria ficar até o fim dos seus dias, tempo ainda longe de se converter em realidade real.

Os percalços não foram poucos até atingir o primeiro degrau de uma subida vertiginosa.

Parece que tudo conspirava contra os desejos da linda Dafany.

Os pais se separaram quando ela mais precisava deles. Foram dias de melancolia e tristeza, de enormes dificuldades e incertezas, que logo foram vencidos com galhardia por aquela estudante aguerrida, de real valor, que saiu de um passado incerto para sentir seu sonho se materializar em curto espaço de tempo.

A nossa heroína, exemplo entre tantas e tantas meninas de modesta situação, num passado perto morou na roça. Era comum vê-la de mochila às costas subindo o morro agudo, nos dias de chuva tinha de ir de carroça puxada por um cavalo eunuco, pois andando pelas próprias pernas não dava conta de vencer o lamaçal que se formava pelas chuvas de verão.

A escolinha rural, hoje desativada, repousa indolente como marca de um passado singelo, logradouro para onde iam aprender as primeiras letras os aluninhos que moravam perto. Entre eles ia Dafany, que se destacava entre os demais não apenas pela inteligência, esforço hercúleo, e atenção às saudosas mestras de então.

Acontece que naquela escola Dafany não vislumbrava o futuro que a ela acenava numa escola de medicina de bom conceito, se possível não paga, pois os pais bem sabiam o custo alto de se manter uma menina quase feita numa faculdade particular.

Quis o tempo que, pelas altas notas de Dafany, pela sua capacidade em se destacar entre os colegas, aprovada com menos de dezoito aninhos na Faculdade de Medicina de uma universidade Federal, foi quando teve começo a carreira da nossa querida Dafany, para a qual o futuro mostrava os dentes brancos de felicidade explícita.

Graduou-se em medicina aos vinte e dois anos incompletos naquele dois mil e dezenove. Foi uma linda festa de formatura.

Os pais não podiam pagar a despesa da festa marcante. Por esse motivo Dafany não foi à festa, compareceu apenas à entrega dos diplomas, vestida numa beca escura, presente de uma tia torta.

A nossa médica foi a oradora daquela turma de doutores em medicina.

Agradeceu em primeiro lugar aos pais, depois à tia torta que teve o mérito de endireitar-lhe a vida, a seguir aos professores do curso de medicina, querida por todos que era.

Todos os esculápios recém formados bem sabem que as dificuldades não param nesse exato instante.

Para se tornar médico completo não é apenas suficiente o título recebido naquele momento, assim como mais e mais anos de dedicação, de corpo e alma, aos degraus que ainda têm de subir escada acima.

A residência médica é mais difícil que o vestibular. Talvez mais concorrida em certas áreas da vida de um profissional que toma a si a responsabilidade de salvar vidas humanas, se não consegue tenta atenuar as dores e dissabores que as enfermidades trazem.

Foi este o caminho seguido pela médica recém formada de nome Dafany Siqueira.

Mais uma vez a indecisão fez parte de sua trajetória pelos caminhos exigentes da medicina de qualidade.

Se quisesse ficar por ali mesmo não seriam necessários mais concursos, mais anos debruçados aos grossos compêndios de medicina, mais horas intermináveis em plantões mal pagos, não era importante o quanto recebesse, e sim o aprendizado que nunca tem epílogo dos abnegados doutores que mais e mais entendem de nacos estreitos do corpo humano, mais e mais se especializam em setores minúsculos do minucioso labirinto do qual se compõe o homem em sua totalidade.

Mas a esforçada Dafany queria mais.

Não se contentava em ser mais uma triagista, uma plantonista nos tais Psfs da vida, que mal sabem que hemorróida compete ao proctologista e não ao Urologista, que fimose deve ser resolvida, caso não complicada, depois do pênis formado, isso acontece por volta dos quinze ou mais anos.

Dafany escolheu a Neurologia cirúrgica para se tornar médica completa. Adorava perscrutar os meandros intrincados do cérebro humano, poder operar um tumor cerebral, ou um avassalador aneurisma em área complexa, como complexos são os neurônios.

E assim Dafany se tornou quase completa, na sua maratona pelos corredores indevassáveis da medicina de ponta.

De neurocirurgiã consagrada passou a professora requisitada mundo afora, palestrante de renome, médica formadora de opinião, ouvida e apreciada por todo planeta terra.

Foi quando a vi, durante uma corrida bem cedo, pelas ruas de Lavras, quanto fui ter a uma padaria já acordada, a fim de tomar meu cafezinho madrugador, dei de olhos na cara sonolenta da consagrada médica Dafany Siqueira.

Ela havia, de pouco, abdicado das conferências magistrais, da cátedra de titular da cadeira de Neurologia de uma faculdade importante, das cirurgias robóticas, nas quais era pioneira, para se dedicar única e exclusivamente a um pronto socorro modesto, local que atendia a pacientes da região onde moro.

A ela perguntei, entre perplexo e admirado, qual a razão de tal guinada em sua vida?

Dafany se despediu de mim com a seguinte resposta: “meu caro Paulo, deixei a cidade grande, a cátedra da faculdade de medicina, cansada da situação de falta de tudo por que o país passa. Não quero mais não ser dona de mim mesma. Agora, de volta ao interior do meu interior, moro ainda em Ijaci, dou plantão por aqui, tentando ordenar os meus neurônios. Pobres deles!, concluiu a doutora Dafany, caso continue no ritmo que estava, em poucos anos não serei eu mesma”.

Continuei a corrida pensando como a colega Dafany. Se eu também não parasse a tempo, e não desce uma pausa nos meus muitos anos, não sei no que me tornaria. Se num fantoche da medicina, ou se um robô meio cambeta…

 

 

 

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