Já pensei seriamente em ter um neto nos braços, vê-lo dormir, depois de sugar da mamadeira o produto das tetas das vacas, no caso de a mãe não ser de boa índole leiteira, apertá-lo forte em contato com o peito desnudo, para senti-lo arrotar, chorar um cadinho, bem de mansinho, medicá-lo contra dor de barriga, através de um chazinho que só minha avó conhecia, e de repente, numa fração de segundos ver seus olhinhos se fecharem, bem devagarzinho, até perceber, naqueles olhinhos cerrados a inocência de uma criança dormindo.
Há quatro meses atrás este sonho se fez real. Nasceu das entranhas da minha filha mais nova um rebento, um menino, de olhos fechados, ainda sujos de restos de placenta, clarinho como dia de céu azul, ou de nuvens brancas, meu primeiro neto, futuro peão que por certo irá montar em minhas costas de touro castrado. E me fazer de gato e sapato, o que ele quiser.
Theo, seu nome de batismo, que linda festa ele nos ofereceu, sempre que posso, e mesmo quando não permitem que posso, satisfazer meu desejo de avô fresco, dou uma passadinha de beija flor osculando a rosa, e lhe faço uma visitinha de médico, que por acaso eu sou. Não sou pediatra. Apesar de adorar caso fosse.
Depois de me tornar avô de primeira viagem o mundo quase desabou em lágrimas de felicidade, de ternura e candura, naquelas horas amenas quando em visita fugaz ao meu neto querido.
Hoje ele foi viajar ao Rio de Janeiro, na sua primeira ida em companhia dos seus pais, e a babá.
Hoje sou um velho babão. Se pudesse me metamorfosear em babá e ir cuidar do Theo em sua primeira viagem à cidade maravilhosa para lá iria sem constrangimento ou grito de desalento. Iria todo feliz, quando como no dia em que ele nasceu.
Nem sei se daria conta de ser babá. Decerto iria babar na pele clarinha do meu netinho sabichão.
Sei que o ensinaria apenas as traquinagens que aprendi em criança. Não o poria de castigo, nem minha avó, muito menos minha mãe o fizeram, pois sempre fui um menino educado, bom aluno, um pouco fora de uso nos moleques de então. Os de hoje, que contramão!
Sou avô de primeiras fraldas, de primeiros cueiros, de primeiros pijamas que vou tentar trocar no Theo. Quando precisar trocar as fraldas sujas do meu netinho querido vou ter de pedir ajuda à babá ou à minha filhota querida, na qual não sei se troquei fraldas, ou velei-lhe o sono, quando ela acordava durante a noite com fome ou dor de barriga. E na hora do banho? Como vou despir-lhe o macacãozinho lindo, que eu mesmo lhe dei? E se ele se afogar na banheirinha cor de rosa, se ele ainda não sabe nadar? Farei um curso imediato de salva- vidas, no primeiro corpo de bombeiro seja onde for, ou estiver. E se não me aceitarem, pela idade em que me encontro, trocarei os meus documentos pra mais novo, não sei a idade que escolherei.
Talvez eleja a idade quando sonhei ser um netinho ainda, no colo da minha querida mãe e da minha avozinha de nome Belica, casada com o avô Rodartino, ou da avó Maria, ou até do vovô Alberto de Abreu, que velam por mim do céu.
Ser avô é padecer a alegria de viver no paraíso terreno . Se tornar avô é como o cavalo faminto se empanturrar num monte de feno. Ser avô não se trata apenas de dormir com a avó, abraçadinhos ao neto, quando os pais ausentes precisarem de nós por perto. Ser avô é cuidar do jardim onde vai se esbaldar meu neto, onde ele vai comer tatuzinhos bola misturados ao esterco. Ser avô é não sentir dor quando a bola chutada pelo neto bate forte nas partes genitais descaídas pela idade, quase sem função, a não ser urinar pelo sapato gasto.
Ser avô é ser especial, embora muitos pensem que o velho não serve pra nada, é um sapato velho, carta fora do baralho, um obstáculo morto no caminho da vida do neto, que, uma vez chegada a hora de virar a página da vida, anos galopando frenéticos, de neto se tornar avô, talvez ele possa cuidar de nós, idosos decrépitos, que um dia, quando jovens, sonharam em ter netos, como eu e todos os avós, felizes anciãos que perderam a memória, mas sabem eles que um dia todos a irão perder, menos o prazer e a ventura de sentirem em seus braços a alegria inenarrável de um dia terem netos. E serem avós…