Desde cedo, isso beirando a idade dos cinco anos, Janozinho, menino criado na roça do avô, perdeu o pai antes de se ver nascer, pois o mesmo escafedeu-se na braquiária antes de saber que era pai, não um mero arremedo que fecunda a namorada e nem quer saber do acontecido meses depois, depois a abandona indo atrás da esposa verdadeira, aquela meninota envolta em cueiros nada mais passou que uma chuva de verão, a pobre criança, que apenas assinava Carvalho, o sobre o pai não constava na sua certidão de batismo, foi crescendo, desconheceu a escola pois tinha de ajudar ao avô nas tarefas pesadas da roça onde morava de favor.
O menininho artioso, sabido ao extremo, acordava antes do galo dar ordens no galinheiro.
Mal lavava o rostinho remelento, escovava os dentes em falta da maior parte, penteava com água mesmo os cabelos louros como os do milho em ponto de pendoar, vestia a roupa surrada herança de um primo maior, na cabeça usava um boné de pescador, numa teve tempo de ficar à beira do rio dando banho na minhoca, e partia rumo ao curral, antes de a coruja deixar o cupim morto, deixando a presa caçada no ninho da corujada faminta, e passava a ajudar ao avô na ordenha manual de mais de trinta vacas baldeiras, uma família inteira de bezerrinhos sôfregos de fome, alguns ainda mamando o colostro cheio de vitamina, oriundo das tetas da mãe vaca de primeira cria. Que logo iria segundar.
Eram cinco da manhã quando começava a espremeção das tetas. Atividade febril que só tinha fim ao final da manhã. As dez em ponto passava o caminhão que levava o produto do mojo das vacas ao laticínio perto. Quando a chuva caía a pingos gordos na véspera de um novo dia, mais um trabalhão danado esperava a dupla de dois, pois tinham de caçar o cavalo eunuco no pasto sujo, atrelá-lo à carroça e levar os três latões de leite quentinho ao ponto onde o caminhão dava conta de chegar, mesmo assim quando não atolava na subida do morro agudo.
Depois da ordenha terminada mais de dez missões aguardavam os dois aparentados por parte de pai.
A Janozinho cabia tratar da porcada, dar milho a galinhada caipira, juntar os ovos vermelhos sem endereço exato, poderia ser no ninho da bananeira, no cocho onde a ração das vacas era distribuído, apartar as vacas leiteiras das crias famintas, guardar os bezerrinhos neófitos na curralzinho a eles destinados, e ainda, antes de forrar o estômago que roncava faminto, tinha como derradeira tarefa da manhã ir à padaria da cidade perto, comprar uma dúzia de pães amanhecidos, já que naquela hora tardia os pães já estavam em ponto de virar combustível para a churrasqueira de todos os sábados e domingos.
E como o bom menino adorava ir à padaria! Seus dois olhinhos brilhavam faiscantes àquela hora feliz, quando tirava do embornal furado duas notas de dois reais, enchia o mesmo embornal com dez pãezinhos franceses, já frios dado ao frio das dez da manhã, e se despedia da dona do estabelecimento com um inocente selinho na face linda daquela balzaquiana morena com todos os apetrechos em boa forma adquirida em horas e horas de malhação nas academias de exercício constante.
A dama da padaria deveria, pelo corpo escultural, pelo derrière de fazer inveja às mocinhas casadoiras, pelos olhos castiços pintados como se fosse a alguma festa de grife, a cintura que punha a viola na saco e não havia quem ousasse abrir o tal saco, no máximo a conta dos anos lhe poria mais ou menos menos de trinta, isso com pouca vontade. E descaso de pura inveja.
Quiseram os anos que Janozinho se apaixonasse perdidamente pela dona da padaria.
Era uma paixão inconfessável, mesmo aos seus mais recônditos amigos. Entre eles se incluíam o galo gigante, a galinha ciscante de nome Esmeralda, o burro falante de nome Eunuco (ele tinha perdido os grãos ao pular a cerca do Tião Lambão), nunca mais repetiu o infortúnio, da vaca de três peitos que dava leite como a de quatro perfeitos, e até procurava escutar as suas inconfidências o amigo mais que amigo, o pai avô.
De nada adiantavam as advertências daquela gentalha em forma de gente.
Janozinho não emendava. Ia a tal padaria cotidianamente, ficava de olhos grudados naquela linda balzaquiana de bunda arrebitada, cabelos presos em rabo de cavalo inteiro, olhos negros, e cílios pintados na cor do desejo.
Ao fim do ano, quando Janozinho já contava com mais de vinte, já nascia barba naquele rostinho liso, um dia, ao ir à padaria, que já estava de portas arreganhadas como estavam as pernocas grossas de uma ficante da qual mal se lembrava, percebeu, de relance, uma cena incomum.
Foi com o coração aos pedaços que pilhou a sua paixão da padaria aos beijos e amassos com o padeiro esperto.
Aquilo foi o fim das suas pretensões de amor eterno, um casamento talvez, um ajuste de intenções, quem sabe um epílogo feliz, quem sabe a cura do seu mal de amor.
Ao sair da padaria da mulher que amava, sem saber o que o destino a ele reservava, afinal foram tantos e tantos anos de dedicação total, que perdeu a conta de quantos foram, se foram muitos, talvez fossem poucos, se foram poucos, para ele eram incontáveis.
Assim acaba o nosso caso de amor.
Janozinho deixou de sonhar com a balzaquiana fogosa da padaria.
Seu amor, inexplicável paixão, um amor de verão que se entendeu pelas quatro estações, respingou pelo ano inteiro, que o diga a vida inteira, terminou se tornando um amor pãotônico, de nome Biotônico Fontoura.