Desde quando, naqueles tempos idos de moleque travesso, ainda com meus pais presentes, já entendedor, em parte, do espírito natalino, em parte pois imaginava ser apenas o Natal data para se ganhar presentes, enfeitar aquela árvore que tanto podia ser de plástico ou material reciclável, ou um pinheirinho criado com todo desvelo plantado num vaso enorme, do tamanho do coração do Papai Noel.
Em criança não pensava ainda na ideia real do Natal. Qual fosse entrar de corpo e alma impura naquela festa cheia de luzes piscantes, como vagalumes noctívagos nascidos e criados na roça, que um dia migraram em direção à cidade perto, e, decepcionados não encontraram nenhum papai Noel de verdade, e sim larápios mal intencionados, marginais que se aproveitam das comemorações de fim de ano, do descuido dos passantes e lhes aliviam a carteira recheada de sobras do décimo terceiro que mal dão conta de amenizar-lhes as dívidas, tantas e tantas que são, que mal cabem no caderno de apontamentos que tenta dormir no criado mudo e não consegue.
Agora, deixando a criança dormir sossegada, o adulto oriundo dela não consegue mais ter uma noite inteira de sono, acorda pela madrugada adentro para escrever, penso ter encontrado o verdadeiro sentido de Natal.
Além dos presentes que as crianças sonham encontrar na sala, debaixo ou escondidos em algum lugar perto dos enfeites, das bolas coloridas, naquela brincadeira do pique- esconde: “tá frio, tá morno, vai queimar-lhe a mão”!
E agora, após ter deixado a criança perdida no emaranhado das teias de aranha do tempo, um tempo distante, bem antes, acabo deixando os festejos de Natal ao meu primeiro neto, que, aos quase quatro meses ainda não percebe ou sente por dentro a alegria nascida na face barbuda do Papai Noel, que vem de trenó do Pólo Norte, ou de algum lugar onde a neve cai, com a carruagem puxada por renas ligeiras, que voam sem asas mesmo, depois de ler as cartinhas que chegam de todas as partes do mundo, não deixa nenhum menino, ou menina, sem o seu regalo de presente. Mesmo que seja uma simples sementinha de amor ao próximo, de companheirismo ou carinho, coisas singelas que não se guardam em caixas coloridas presas por laços de fita amarela ou de qualquer cor advinda das cores do arco-íris.
Eu, por meu lado de idoso, um velho que se olha no espelho e não se sente assim, faço de conta que me pareço ao meu netinho Theo, com aquela carinha linda, sorridente em seus melhores momentos, chorosa quando tem fome de vida, mas logo o espelho me informa, com sua face espelhada, me diz com desdém, com escárnio, que sou um avô babão, nada mais.
Agora sei que meus presentes de Natal não mais chegam pelas mãos enluvadas do bom velhinho. Hoje sou eu o bom velhinho. Sou aquele senhor sem barbas brancas, se deixasse a minha crescer seria tal e qual a do Papai Noel, que não oferece presentes a mim mesmo. Deixo essa incumbência nas mãos de Deus.
De papai de dois filhos de muitas promessas reais passei a ser avô de um neto lindo. Que vai continuar o périplo pelos anos afora da mesma forma que eu.
Sei que as festas de Natal mudaram de cor e sabor. Muitas crianças não recebem presentes espalhados debaixo ou perto daquele pinheirinho viçoso ainda, logo ele vai murchar, virar uma acha de lenha, que vai aquecer as lareiras nos países frios, ou vai ser jogado numa lata de lixo cujo conteúdo vai ser recolhido pelo caminhão comandado pelos garis da limpeza pública, verdadeiros atletas maratonistas, sem medalhas, sem premiação em dinheiro, são pagos em poucas moedas para se dedicarem àquela tarefa insalubre, mesmo assim trabalham com o sorriso nos olhos e amor no coração cheio de espírito natalino.
Nesta altura da planura que me acena nessa caminhada rumo ao outono de minha vida terrena, não sei o que me espera depois desta vida, se haverá outra, nem sequer imagino, embora não mais acreditando em Papai Noel, ele se tornou eu, e outros como eu, ainda acho maravilhoso quando uma criança se acerca de uma árvore de Natal.
Quando seus olhinhos soltam chispas de felicidade ao encontrar presentes por toda parte. São bicicletas de rodinhas, carrinhos de rolimã, como se usava construir, bonecas que falavam Mamãe, ou chupavam mamadeiras ou chupetas como as verdadeiras, ou até mesmo aqueles caminhõezinhos feitos pelos encarcerados, ou ainda bolas de futebol, mesmo que de material reciclado, meus olhos cansados não se cansam de admirar ou de sonhar com os velhos natais de antigamente.
Um dia, bem perto da festa de fim de ano, com o Natal se avizinhando, a cidade onde moro, por motivo de economia, não mais vai iluminar as árvores da praça principal, como em anos anteriores.
Vai ser triste observar todas aquelas árvores, grande parte centenárias, sem os enfeites piscantes escorrendo-lhes pelo tronco ainda forte, pelos galhos por onde andam os passarinhos, pelas folhas que caem ao fim do seu ciclo de vida, sem os enfeites iluminados do Natal.
Em minha Lavras querida o Natal vai ser às escuras, a exemplo daquelas noites roceiras, em falta de luz artificial.
Ah!, se pudesse, e nos meus sonhos coubessem, iria bem rápido à roça, de lá traria os pirilampos, aprisioná-los-ia em enormes caixas de fósforo, com toda cautela, com eles conversaria, uma prosa amistosa, se por acaso concordassem, não seria de graça o trabalho, pagaria com as sobras de carinho que as crianças me deixassem à criança que fui, tomara ela volte um dia, e os deixaria voar pelo jardim principal da praça Augusto Silva, iluminando sem custos ao poder constituído que logo vai ser destituído, povoando de luz e sonhos os devaneios dos meninos.
Assim, com a anuência dos vagalumes, oriundos dos campos fecundos, o Natal da minha cidade não seria às escuras…