Aquela cidadezinha perdida no sertão de Minas, fincada entre montanhas e campinas verdejantes, famosa pelas mulheres bonitas e pelas feias de viver, a meio caminho entre São Paulo e Belo Horizonte, nunca teve uma administração decente.
Primeiro tomou-lhe as rédeas o PT. A seguir outro alcaide recebeu as chaves da cidade de portas trancadas. O anterior prefeito deu sumiço na papelada, queimou todos os arquivos que mostravam a situação financeira caótica da comarca, e desapareceu na braquiária.
De nada adiantou a tal operação mãos limpas, pois tudo fedia à sujeira naquela municipalidade mineira.
A câmara dos edis apenas discutia a quem dar o título de cidadania honorária, qual nome dar a rua nova, pra que apelido mudar aqueloutra, qual seria o número de vereadores na próxima disputa, que seria acirrada, qual o salário dos novos edis, se subiria ou desceria até o degrau mais baixo da escada da igreja matriz, que oposição fariam ao prefeito novo, quem ocuparia o palanque falando sandices, quem iria cometer mais erros de português, pobre de quem tentasse falar inglês, nem quem nascesse na América do Norte entenderia, muito menos os nascidos na Inglaterra, e outras coisas menos, pois de mais nada seria dito.
Assim a nossa cidade, aquela da qual me escuso de dar nome aos bois, ia de mal a pior.
O cofre da entidade, gerida pelo prefeito, foi saqueado no dia seguinte a eleição. Ali nada encontraram. A não ser uma galinha morta, um crucifixo quebrado, um pai de santo desalmado, e uma beata com uma enorme vela na mão.
Foi um escândalo quando se comentou tudo isso na praça principal.
Aquele lindo logradouro público onde desocupados conferem nádegas ao assento, assuam o narigão entupido, e fofocam sobre a vida de todo mundo. Lá é preciso andar de costas para não ser o motivo dos comentários nada faceiros. E tome cuidado para não ser o próximo da fila de muitos outros!
Com os meses deixando os detrás atrás do morro a tal cidade da Tipuana (árvore símbolo daquela terra), foi empobrecendo, ficando mais miserável, os salários foram atrasando, o povo foi ficando de saco cheio, não de dinheiro, e sim de vento.
O comércio sentiu na carne viva o odor da morte pútrida. Era uma fedentina tão grande que se podia senti-la em Ribeirão Vermelho, onde passa pachorrento o Rio Grande. Pra onde corro quase sempre aos domingos cedo, para ver a Maria Fumaça fungar sua preguiça de monumento parado.
Anunciava-se o fim de ano. As festas natalinas punham as árvores enfeitadas de fora.
Como o salário estivesse dois meses em atraso o que diria o décimo terceiro? Nem é bom falar no quarto, ou na despensa vazia.
Famílias inteiras sonhavam com uma festa linda. Pinheiros enfeitados de bolas vermelhas, luzinhas brilhantes piscavam como pirilampos nas noites roceiras.
Pelo menos era essa ideia que rondava as cabecinhas sonhadoras.
Como nem tudo que é ruim fica ainda pior, naquela cidade perdida, afundada em dívidas, a chuva começou a despencar do alto.
A princípio foi uma chuvinha mansa. Que depois engordou de vez em quando.
Num sábado chovia tanto que a prefeitura inundou. Deu enchente até na porta da igreja e na casa paroquial.
Imaginem o estado em que ficaram as ruas… Cheias de lama, de buracos por todo asfalto podre, por todo o jardim principal.
Um feio dia o prefeito, tentando por ordem na desordem da comunidade, foi dar uma volta de carro oficial, um belo automóvel branco, alienado ao consórcio com mais de vinte prestações em atraso, na porta a logomarca da cidade (todos em frente que atrás vem gente), em letras azuis, quando passava, a frente da comitiva onde ia todo o secretariado, mais a primeira dama toda vestida em traje de gala, o veículo caiu num enorme buraco fundo.
O carro do prefeito foi engolido por aquele buracão com rodas e todos os ocupantes do auto novinho em folha.
Depois do acidente previsível foi colocada uma placa de advertência com os seguintes ditames: “aqui jaz o carro do prefeito, o cargo do prefeito, de toda vereança, e de toda a Cidade dos Ipês e das Escolas”.