Tudo começou num terreno baldio.
Era campo de pelada de garotos traquinas, que cabulavam aulas para passar o tempo jogando futebol num campo pelado, de terra batida, que quando chovia virava um lamaçal enorme, quando a seca cuspia perto tudo era poeira, e nada mais.
As traves eram feitas de dois cabos de vassoura, restos das sobras daquele artifício de varrição da mãe de um dos meninos, que de tão gasta pelo tempo foi abandonada, largada como certos idosos são soltos pela própria família, na rua do abandono e da indefinição se eles são gente ou animais.
A meninada passava naquele pedaço de terreno sem dono, diziam que era de propriedade do poder público, em realidade pertencia a um senhor circunspecto, dono de várias glebas de terra, das quais nem conhecia a paternidade, horas e horas baldias, sonhando ser futuros Garrinchas da vida.
O que não sabiam, nem sequer imaginavam, era que o estudo seria mais importante do que ser jogador de futebol sem instrução, pois a fama passa com o batutar dos anos, a educação, não.
O tempo esperneou em dias, semanas, meses e anos.
Os moleques cresceram, na vertical. Muitos viraram jogadores de futebol. Tiveram carreiras curtas. Logo se aposentaram dos gramados. A minoria continuou a olhar os gramados de longe. Apenas assistindo a partidas de futebol. Já outros enveredaram-se por outras latitudes. Formaram-se engenheiros, doutores da medicina, outros não conseguiram ver o sonho de um diploma de curso superior dependurado na parede escura da sala de visitas, dando sabor a vida dos pais.
Um deles foi eleito prefeito da cidade. Um bom prefeito?, diga-se de passagem.
Zizinho se lembrou, uma vez mandatário maior daquela comarca sem marca, uma cidade famosa pela universidade eclética em que se tornou, também conhecida por Cidade dos Ipês e das Escolas, antes Santana das Lavras do Funil que a represa engoliu, daquele terreno vazio, antes o campinho de várzea, onde passava horas com os amigos, sonhando ser jogador igual à Garrincha e tantos outros que o passado sepultou nas fotos antigas das quais os torcedores se lembram com nostalgia, dos tempos bons que o calendário deixou-se despetalar.
Num dia de chuva forte, raios e trovões passeavam pelo céu escuro, o alcaide deu uma volta longa pelos arrabaldes da cidade.
Num certo ponto da cidade viu, com os olhos chamuscados de saudade, o terreno onde foi o velho campinho de futebol.
Zizinho fez parar a comitiva. Composta de dois secretários, uma secretária executiva, a qual anotava tudinho numa agenda de pernas curtas, como curta lhe era a memória, e fez constar em ata o seguinte despacho. Aquele seria um ato do executivo que tinha de passar pelo poder legislativo para ter o aceite final.
O prefeito decretou feriado municipal. Conseguiu verba estadual para dar o pontapé inicial na feitura de uma pracinha linda, projeto de uma paisagista famosa, de nome Alessandra, a qual entendia de plantas e árvores desde quando tinha dez anos de idade. E olha que agora ela tem mais de trinta, seriam mais?
Em um mês a tal praça ficou prontinha da silva, embora seu nome fosse “Tenente Francisco de Souza Lima”.
Ela fica logo à porta do condomínio Jardim das Palmeiras, lindo local para se morar.
Hoje ela consta de três canteiros onde algumas árvores olham o entorno com olhos de nostalgia. São dois ipês que florescem em agosto e setembro, despetalando lindas flores amarelas por sobre a relva mal cuidada, duas palmeiras do tempo do império, também carecendo de poda, outras arvorezinhas que não crescem por falta de trato, uma grama que mais parece um capinzal sem poda, acredito, é só.
A tal pracinha enjeitada foi idealizada num passado ermo. Não sei quando e por quem foi criada (essa história do tal prefeito Zizinho nada mais é do que fruto da minha imaginação criativa).
O fato retrato onde gostaria de aportar, nesta crônica de hoje, é a situação de penúria por que passa a pobre pracinha gasta pelos desmandos dos poderes constituídos, e mal, desde quando foi edificada.
Não sei se foi num terreno baldio, de um senhor circunspecto e arredio. Nem sei se ali foi um campo de futebol cambeta.
Pena que agora, nos dias de hoje, ao passar perto daquela pobre pracinha enjeitada, com o gramado transformado em pasto de amarrar cavalo, naqueles esteios dos coqueiros coitados, onde cães defecam sem parar, onde sem tetos passam a noite fingindo dormitar, encraquizados, me dá vontade de chorar.
Se o tal Tenente Francisco de Souza Lima estivesse aqui, para testemunhar, ele também teria pena da pobre pracinha enjeitada, que de amarradouro de cavalos passou a latrina de cães, e moradia de mendigos que ali pensam dormir, quando o que fazem é sonhar sonhos pesadelos, sem hora e dia de terminar.