Nesse dia de luto proclamo, despediu-se uma grande dama

O quinze de novembro poderia passar em branco por um singelo motivo.

Trata-se, a meu entender, de uma chatice comemorar a proclamação da república em nosso Brasil, país de tantos e tantos encantos mil, que se ficasse aqui dedilhando estas sandices, enaltecendo-lhes as virtudes, todos temos defeitos também, a república da terra que foi descoberta (dizem, eu não estava lá para confirmar), por um navegador português (nunca fui bom aluno em história, como era em português), o tal Pedro Álvares Cabral, que aqui aportou por engano, pensando ter descoberto a América de Cristóvão Colombo, há os que preferem o regime monárquico onde reis e rainhas reinam sem governar, essa incumbência chata quem toma as rédeas é o primeiro ministro, homem ou mulher, pra mim elejo a mulher como mandatária maior, lá em casa quem manda é a patroa, a quem bato continência sem pestanejar, vamos respirar um pouco. Para depois voltar ao assunto em pauta, sem pauta mesmo, vamos ver no que vai dar.

Estamos em pleno quinze de novembro. Logo entra dezembro e o ano finda.

Com ele falece mais um ano, menos um em meu currículo de muitos anos de vida.

Em sete de dezembro completo mais um repleto baú de idade.

Precisamente, não sei mentir, faço desaniversário no dia sete de dezembro, minha carteira de identidade surrada pelo tempo afirma que foi em Boa Esperança onde pela primeira vez chorei.

Naquela linda cidade, hoje banhada por um lago verde, na Rua Coqueiral 155, centro, onde hoje é a sede da Casa da Cultura daquela cidade onde nasceram Rubem Alves e Nelson Freire, coincidentemente foi ali que despontei rumo à vida do útero da minha saudosa mãe, mera coincidência pois eles são gênios, eu pouco sei quem sou eu, na linda terra que Lamartine Babo imortalizou com sua “Serra da Boa Esperança esperança que encerra, no coração do Brasil um punhado de terra”…e por aí não fica.

O fato é que me considero de Lavras, aqui não tenho o umbigo enterrado, mas o coração…

Assim como foi aqui nascida, assina também Abreu no sobrenome, viveu a maior parte da vida, uma enorme vida cheia de gentilezas esparramando beleza e finesse pelas trilhas por onde passou.

Ainda me lembro da sua pessoa amável, extremamente cortês, lhana no trato, educada ao extremo, mãe extremada, avó bem amada, participando ativamente do coquetel de lançamento de quase todos os meus livros.

A grande dama da noite, banqueteira de mancheia, acompanhou Lavras em quase todos os eventos de grife.

Era comum vê-la se desdobrando, indo e vindo por entre as mesas, comandando com mãos de pena de cisne seus garçons, suas cozinheiras mestres na arte de fazer engordar com elegância, conversando com as pessoas, distribuindo ordens por onde quer que seus passos caminhem.

Nunca a vi, ou ouvi, falando alto, dando ordens aos gritos, vociferando palavras duras, pois ela era a doçura doce em pessoa.

De índole afável, de educação esmerada, era uma esmeralda burilada, do mais lindo garimpo que já se viu.

Seu marido que a sucede em vida era outro artista. Quem já não viu o Alfeu cantando com sua voz maviosa no coreto do jardim, vendendo CDs, não sei quantos ele vendeu, tomara mais que eu passei adiante meus livros, um a cada ano, quase.

A grande dama dos bufês no dia de hoje, quinze de novembro, dia feriado, motivado pela proclamação da república federativa do país onde vivemos, rincão adorado, com tantas e tantas maravilhas dependuradas em seu seio, com tantas coisas que lhe maculam a beleza, mercê de tantas e tamanhas falcatruas que lhe conspurcam a delicadeza, veio a se despedir de nós, lavrenses e cidades circunvizinhas, no dia de hoje.

Soube a hora do almoço da funesta notícia. Na hora tive um choque. “Quem morreu”? Indaguei novamente. O arauto da fúnebre efeméride me repetiu novamente: “Foi DONA NÉRCIA”, em maiúsculo mesmo.

Saí daquele encontro pensando na vida. Deixei o local de luto. Só depois pensei, cá comigo mesmo.

O dia de hoje, quinze de novembro, poderia passar em branco. Afinal quem se recorda da proclamação da república? A gente não estava lá para chorar.

No caso do passamento da DONA NÉRCIA do bufê, agora tendo como regente da orquestra sua filha Ivana, todos nós temos motivos de sobra para chorar.

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