Descobri onde mora a solidariedade

Antes pensava que a tal solidariedade se escondesse numa casa linda, uma bela residência beira lago, de onde se avistavam cisnes brancos e negros, patos de todas as cores, que não eram servidos à mesa em restaurantes granfinos, onde iates magníficos disputavam regatas de ida e volta ao mundo das águas, ou num castelo perdido nos fiordes da Noruega, ou até mesmo em hotéis mais de cinco estrelas, aqueles que se permitem ver em resorts da África do Sul, em meio à safáris onde se fotografam animais selvagens ameaçados de extinção, onde jamais se pode matar leões, ou exterminar ainda mais os belos exemplares da fauna silvestre, cada vez mais protegidos da selvageria dos homens, verdadeiros animais ignóbeis, por serem domesticados, que se pensam racionais, no entanto poucos os são.

De outra forma pensava, com meus senões, que a tal solidariedade se manifesta apenas nas festas de fim de ano, fora da opulência dos lares bem afortunados pela sorte, que as bem aventuranças se estendessem porta afora, presenteando todo aquele que estende a mão, dorme debaixo das marquises, usuário de drogas pesadas ou não, esmola qualquer resto das sobras das mesas farturentas, coleciona nãos daqueles a quem estende o chapéu gasto pelo sol, recebe impropérios duros de quem pede uma moedinha apenas, um troco do cigarro que vicia, e não tem esperança de a vida melhorar no dia a dia cruel do seu cotidiano infeliz.

Quantas e quantas vezes pensei que a solidariedade fosse adereço próprio de irmãs de caridade, de padres solidários, de gente oriunda de clubes de serviços, como exemplo cito o Rotary e o Lyons, ou até mesmo de cidadãos comuns, homens e mulheres engajados em algum movimento voluntário, prontos a deixarem o conforto dos seus lares em benefício de irmãos de menos sorte.

Sempre, ou quase sempre imaginei que a tal solidariedade não nascesse em terra desnuda, e sim naquela adubada por água que vem da chuva, temperada com adubo na medida certa para colorir de verde a natureza ressequida resultado da estiagem prolongada da metade do ano em diante.

Mas, depois de pensar em tantos e tantos locais de onde viria a tal solidariedade pura, se do ar que se respira, se da terra fértil do Brasil, ou de qualquer país de que hemisfério fosse, depois que presenciei esse ato de boa vontade, de boa educação, de solidariedade, no dia de ontem, acabei por concluir que solidariedade pode ter o umbigo enterrado em qualquer parte. E com ele o coração.

Seja num castelo de fazer inveja aos nobres ingleses, seja numa pensão modesta, fosse num ranchinho beira chão, com o telhado furado por onde se pode ver tanto as goteiras caírem gordas num dia de chuva risonha, quanto a luz da lua iluminando as madrugadas.

Foi ontem que vi, com estes olhos observadores que vêem de tudo, ou quase, quando subia a rua, já perto de onde moro, um jovem vestido com uma bermuda caque, no tronco esguio uma blusa vermelho vivo, nos pés descalços uma sandália furada, na cabeça sem cabelos uma calva luzidia.

Como caminhava rápido a tal pessoa!

Eu não dei conta de acompanhá-lo. Enquanto dava duas passadas ele, com suas pernas compridas, dava apenas uma. Seu caminhar era muito mais veloz do que o meu.

Notei que o jovem levava numa das mãos um saquinho de papel. Dentro dele iam guloseimas, as quais, de começo, não sabia identificar quais seriam elas.

Enquanto o moço andava, oferecia o conteúdo do saquinho de papel aos que com ele se cruzavam.

Quando mais perto do saco de papel notei o que ele continha. Eram enroladinhos de salsicha que decerto recebeu de solidariedade dalguma padaria caridosa.

Ele me ofereceu um daqueles petiscos. Gentilmente recusei, por estar satisfeito comigo mesmo. Não tinha fome, apenas de observar o entorno.

Durante a nossa curta caminhada, na subida da rua perto de onde moro, quase à entrada do condomínio, vi algumas pessoas mal se dignarem a olhar em direção a mão do moço. Talvez pensassem que ele fosse algum ladrão safado.

Apenas uma moça que revirava um saco de lixo procurando latinhas de metal, coisa que poderia vender a algum interessado, aceitou de bom grado o oferecimento do petisco do enroladinho de salsicha.

Assim fomos, por caminhos díspares.

Antes de entrar pela portaria do condomínio onde vivo feliz, praticando solidariedade quando posso, são poucas as vezes em que posso, ainda vislumbrei, pela última vez, o jovem, que se disse sem teto, abrindo o saquinho de papel pela metade com os enroladinhos de salsicha, oferecendo solidariedade aos passantes.

Ao entrar em minha casa confortável, de mais ou menos quinhentos metros quadrados, com três suítes principais, numa delas, no meu quarto, uma banheira de hidromassagem de pouco uso, dois jardins bem cuidados, uma enorme sala de visitas, uma pequena biblioteca, bem que poderia ser maior, além de outros cômodos que não merecem destaque, ah!, já ia me esquecendo do melhor, uma sala de televisão onde passo a maior parte das minhas horas baldias, foi que atinei onde mora a tal solidariedade.

Solidariedade habita os lugares mais improváveis.

Tanto pode se esconder num rico castelo beira lago. Quanto num resort dez estrelas. Quanto numa casa de campo, onde se pode receber os amigos, gente simples do lugar.

Mas, especialmente a solidariedade mora nas boas intenções e amor ao próximo daquele sem teto, meio louco, que andava como insano, oferecendo petiscos ao Deus dará.

A gente pode descobrir onde mora a solidariedade nos lugares mais improváveis, basta saber procurar…

 

 

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