Entre a Purina e a Milena

Os dois são nomes lindos como o dia que nasceu na roça.

Eram “garotas” nascidas no mesmo mês de novembro.  Chovia forte naquela noite escura, raios, trovões, percorriam o céu ameaçador naquele cafundó de Judas.

Há uma semana o senhor Júlio, dono da propriedade onde viviam as duas fêmeas, plantou sua roça de milho. Que quase não viu emergir da terra seca aqueles fiapos verdinhos, encarreirados como soldados em um batalhão, por um motivo simplório: nada de chuva depois da planta, passaram-se semanas baldias sem que nenhuma aguinha despejasse do lado do céu azul, que de repente mudou para cinza plúmbeo, depois despencou uma chuva mansinha, que dura até o dia de hoje, quatorze de novembro.

“Bendita chuva criadeira. Tomara ela persista a semana inteira, não deixe de cair até o próximo mês, que dure tanto quanto o meu amor pela mãe de Milena”. Assim disse em voz alta o bom Júlio, que perdera a esposa um mês antes da nossa história ter começo.

E a chuva repicava furibunda de segunda a segunda, causando alguns percalços na vida da roça. O trator grudava as rodas na lama barrenta. Nenhum peão se animava a empunhar a enxada, ou a foice, o que fosse.

A via de acesso àquela propriedade ficou intransponível. Nem uma junta de boi dava contar de chegar até lá.

A família ficou ilhada naquele ermo pedaço de chão. Sem internet, ou celular, ou televisão.

E como fazia falta um dia sequer sem a chuva que continuava a despencar do alto do céu cinzento! Dois ou mais dias de sol seriam maravilhosos para secar a estrada, fazer granar a roça de milho, dar um basta no lamaçal que tomou conta do curral. O ideal, para quem entende de roça e suas complicações é ver alternar-se o sol com a chuva mansa, num dia faz sol, noutro descarregam as lágrimas adubadas de uma chuvinha que desce sem fazer estragos na vida do campo.

Purina e Milena eram amigas perto. Embora fossem de índoles e pelagens distintas.

Ambas exibiam na carteira de identidade a data de nascimento no mesmo dia, no mesmo mês, do mesmo ano de 1998. Portanto contavam com dezoito anos completos naquele mês de novembro.

Não fizeram festa naquele chuviscoso novembro. Também, quem iria chegar até lá, com a estradinha nanica que virou um atoleiro enorme, onde até o boi do compadre Agenor atolou até os chifres que não tinha?

Purina e Milena tinham um segredo inconfessável. Ambas eram apaixonadas por dois machos distintos.

Acontece que a linda Milena se deitou com o dela, que se chamava Tonico, num matinho que serviu de motel, por isso veio o nome de Matel, perto de um buraco de tatu bola.

Purina se deixou acasalar com seu garanhão chifrudo pertinho dali.

No mês seguinte as regras menstruais se deram por ausentes. As duas ficaram enjoadas, não podiam sentir o odor da comida que tinham ânsia de vômito.

Milena e Purina moravam em dependências díspares na propriedade do pai de Milena.

A primeira morava num quartinho só dela. Cercada de todo conforto. Já a pobre Purina não se acostumou a tal luxo.

Passava os dias no pasto, de manhã cedinho ia ao curral faminta, ávida por degustar o banquete despejado no cocho de cimento.

Enquanto que a contemporânea amiga tinha sob seus olhos uma mesa farta, com todos os petiscos que apreciava muito.

Meses se passaram. As chuvas serenaram. A roça de milho deu espigas gigantes, grande parte viraram milho verde vendido na feira do mercado municipal, e a outra serviu de silagem às colegas de Purina.

A barriga das duas amigas estufava a olhos vestidos. Não havia mais como acobertar o mal feito. A “prenhice” das duas saltava a olhos desnudos de qualquer um por menos observador que fosse.

A barrigona durou mais de nove meses, exatos 285 dias. Nas duas amigas, que pariram quase iguais.

Só que, enquanto Milena foi levada ao hospital em trabalho de parto adiantado, com a bolsa rota, com todos os recursos disponíveis da moderna medicina, sendo submetida à cesariana, pelas mãos expertas de um obstetra famoso, a pobre Purina expeliu o concepto num matinho perto do curral, onde foi montada no cio pelo boi fecundo, de nome Jacinto, que desvirginou a maior parte das vacas da coleção do Seu Júlio, pai de Milena.

Antes do final inusitado da nossa história não seria demais se lembrar do dia quando as duas amigas chegadas, embora morando em pontos díspares na propriedade, viram retirados de dentro de seu útero as duas crias.

Na maternidade não faltou luz. No matinho a pobre Purina foi picada por uma cobra de pouco veneno.

Milena foi levada às pressas da sala do bloco cirúrgico para um apartamento maravilhoso. Regiamente decorado por uma amiga também parturiente.

Enquanto a pobre Purina, uma linda vacona preta e branca amoitou a bezerrinha num capinzal fechado. Na intenção pura e singela de protegê-la dos predadores maiores, o pior deles o ser humano, que se trata de um ser desumano muitas das vezes.

Depois de se ver com o filho nos braços, uma linda menininha de olhos claros e pele morena, como a do pai, que sumiu na braquiária depois do mal feito, enjeitou a criança, nem ao menos deu-lhe o sobrenome, Milena deixou a pobre e infeliz cria, sem nome ainda, nas mãos do conselho tutelar, pois não queria nada com o título de mãe, que em absoluto não seria jamais.

Ao revés, a boa vaca de nome Purina, a que protegeu a cria com cascos e coices, defendeu a linda bezerrinha do bico dos urubus, que espreitam a morte como eu espreito a vida, evitou que a cobra peçonhenta nela injetasse o veneno fatídico, fez da filha uma vaca da prateleira de cima.  Dando mais de cinquenta litros de leite em primeira ordenha. Campeã de todos os torneios de encher o balde, com o leite branco da vaca preta, embora a filha da Purina fosse tinta de preto e branco.

Anos depois, ao passar pela roça onde viveram em desarmonia as duas quase irmãs, ao optar entre uma e outra, entre a vaca Purina e a mulher desalmada Milena, fico com a primeira.

Desde então, entre as vacas, e os animais que as possuem, fico com as vacas. Sem medo de errar…

Os dois são nomes lindos como o dia que nasceu na roça.

Eram “garotas” nascidas no mesmo mês de novembro.  Chovia forte naquela noite escura, raios, trovões, percorriam o céu ameaçador naquele cafundó de Judas.

Há uma semana o senhor Júlio, dono da propriedade onde viviam as duas fêmeas, plantou sua roça de milho. Que quase não viu emergir da terra seca aqueles fiapos verdinhos, encarreirados como soldados em um batalhão, por um motivo simplório: nada de chuva depois da planta, passaram-se semanas baldias sem que nenhuma aguinha despejasse do lado do céu azul, que de repente mudou para cinza plúmbeo, depois despencou uma chuva mansinha, que dura até o dia de hoje, quatorze de novembro.

“Bendita chuva criadeira. Tomara ela persista a semana inteira, não deixe de cair até o próximo mês, que dure tanto quanto o meu amor pela mãe de Milena”. Assim disse em voz alta o bom Júlio, que perdera a esposa um mês antes da nossa história ter começo.

E a chuva repicava furibunda de segunda a segunda, causando alguns percalços na vida da roça. O trator grudava as rodas na lama barrenta. Nenhum peão se animava a empunhar a enxada, ou a foice, o que fosse.

A via de acesso àquela propriedade ficou intransponível. Nem uma junta de boi dava contar de chegar até lá.

A família ficou ilhada naquele ermo pedaço de chão. Sem internet, ou celular, ou televisão.

E como fazia falta um dia sequer sem a chuva que continuava a despencar do alto do céu cinzento! Dois ou mais dias de sol seriam maravilhosos para secar a estrada, fazer granar a roça de milho, dar um basta no lamaçal que tomou conta do curral. O ideal, para quem entende de roça e suas complicações é ver alternar-se o sol com a chuva mansa, num dia faz sol, noutro descarregam as lágrimas adubadas de uma chuvinha que desce sem fazer estragos na vida do campo.

Purina e Milena eram amigas perto. Embora fossem de índoles e pelagens distintas.

Ambas exibiam na carteira de identidade a data de nascimento no mesmo dia, no mesmo mês, do mesmo ano de 1998. Portanto contavam com dezoito anos completos naquele mês de novembro.

Não fizeram festa naquele chuviscoso novembro. Também, quem iria chegar até lá, com a estradinha nanica que virou um atoleiro enorme, onde até o boi do compadre Agenor atolou até os chifres que não tinha?

Purina e Milena tinham um segredo inconfessável. Ambas eram apaixonadas por dois machos distintos.

Acontece que a linda Milena se deitou com o dela, que se chamava Tonico, num matinho que serviu de motel, por isso veio o nome de Matel, perto de um buraco de tatu bola.

Purina se deixou acasalar com seu garanhão chifrudo pertinho dali.

No mês seguinte as regras menstruais se deram por ausentes. As duas ficaram enjoadas, não podiam sentir o odor da comida que tinham ânsia de vômito.

Milena e Purina moravam em dependências díspares na propriedade do pai de Milena.

A primeira morava num quartinho só dela. Cercada de todo conforto. Já a pobre Purina não se acostumou a tal luxo.

Passava os dias no pasto, de manhã cedinho ia ao curral faminta, ávida por degustar o banquete despejado no cocho de cimento.

Enquanto que a contemporânea amiga tinha sob seus olhos uma mesa farta, com todos os petiscos que apreciava muito.

Meses se passaram. As chuvas serenaram. A roça de milho deu espigas gigantes, grande parte viraram milho verde vendido na feira do mercado municipal, e a outra serviu de silagem às colegas de Purina.

A barriga das duas amigas estufava a olhos vestidos. Não havia mais como acobertar o mal feito. A “prenhice” das duas saltava a olhos desnudos de qualquer um por menos observador que fosse.

A barrigona durou mais de nove meses, exatos 285 dias. Nas duas amigas, que pariram quase iguais.

Só que, enquanto Milena foi levada ao hospital em trabalho de parto adiantado, com a bolsa rota, com todos os recursos disponíveis da moderna medicina, sendo submetida à cesariana, pelas mãos expertas de um obstetra famoso, a pobre Purina expeliu o concepto num matinho perto do curral, onde foi montada no cio pelo boi fecundo, de nome Jacinto, que desvirginou a maior parte das vacas da coleção do Seu Júlio, pai de Milena.

Antes do final inusitado da nossa história não seria demais se lembrar do dia quando as duas amigas chegadas, embora morando em pontos díspares na propriedade, viram retirados de dentro de seu útero as duas crias.

Na maternidade não faltou luz. No matinho a pobre Purina foi picada por uma cobra de pouco veneno.

Milena foi levada às pressas da sala do bloco cirúrgico para um apartamento maravilhoso. Regiamente decorado por uma amiga também parturiente.

Enquanto a pobre Purina, uma linda vacona preta e branca amoitou a bezerrinha num capinzal fechado. Na intenção pura e singela de protegê-la dos predadores maiores, o pior deles o ser humano, que se trata de um ser desumano muitas das vezes.

Depois de se ver com o filho nos braços, uma linda menininha de olhos claros e pele morena, como a do pai, que sumiu na braquiária depois do mal feito, enjeitou a criança, nem ao menos deu-lhe o sobrenome, Milena deixou a pobre e infeliz cria, sem nome ainda, nas mãos do conselho tutelar, pois não queria nada com o título de mãe, que em absoluto não seria jamais.

Ao revés, a boa vaca de nome Purina, a que protegeu a cria com cascos e coices, defendeu a linda bezerrinha do bico dos urubus, que espreitam a morte como eu espreito a vida, evitou que a cobra peçonhenta nela injetasse o veneno fatídico, fez da filha uma vaca da prateleira de cima.  Dando mais de cinquenta litros de leite em primeira ordenha. Campeã de todos os torneios de encher o balde, com o leite branco da vaca preta, embora a filha da Purina fosse tinta de preto e branco.

Anos depois, ao passar pela roça onde viveram em desarmonia as duas quase irmãs, ao optar entre uma e outra, entre a vaca Purina e a mulher desalmada Milena, fico com a primeira.

Desde então, entre as vacas, e os animais que as possuem, fico com as vacas. Sem medo de errar…

Os dois são nomes lindos como o dia que nasceu na roça.

Eram “garotas” nascidas no mesmo mês de novembro.  Chovia forte naquela noite escura, raios, trovões, percorriam o céu ameaçador naquele cafundó de Judas.

Há uma semana o senhor Júlio, dono da propriedade onde viviam as duas fêmeas, plantou sua roça de milho. Que quase não viu emergir da terra seca aqueles fiapos verdinhos, encarreirados como soldados em um batalhão, por um motivo simplório: nada de chuva depois da planta, passaram-se semanas baldias sem que nenhuma aguinha despejasse do lado do céu azul, que de repente mudou para cinza plúmbeo, depois despencou uma chuva mansinha, que dura até o dia de hoje, quatorze de novembro.

“Bendita chuva criadeira. Tomara ela persista a semana inteira, não deixe de cair até o próximo mês, que dure tanto quanto o meu amor pela mãe de Milena”. Assim disse em voz alta o bom Júlio, que perdera a esposa um mês antes da nossa história ter começo.

E a chuva repicava furibunda de segunda a segunda, causando alguns percalços na vida da roça. O trator grudava as rodas na lama barrenta. Nenhum peão se animava a empunhar a enxada, ou a foice, o que fosse.

A via de acesso àquela propriedade ficou intransponível. Nem uma junta de boi dava contar de chegar até lá.

A família ficou ilhada naquele ermo pedaço de chão. Sem internet, ou celular, ou televisão.

E como fazia falta um dia sequer sem a chuva que continuava a despencar do alto do céu cinzento! Dois ou mais dias de sol seriam maravilhosos para secar a estrada, fazer granar a roça de milho, dar um basta no lamaçal que tomou conta do curral. O ideal, para quem entende de roça e suas complicações é ver alternar-se o sol com a chuva mansa, num dia faz sol, noutro descarregam as lágrimas adubadas de uma chuvinha que desce sem fazer estragos na vida do campo.

Purina e Milena eram amigas perto. Embora fossem de índoles e pelagens distintas.

Ambas exibiam na carteira de identidade a data de nascimento no mesmo dia, no mesmo mês, do mesmo ano de 1998. Portanto contavam com dezoito anos completos naquele mês de novembro.

Não fizeram festa naquele chuviscoso novembro. Também, quem iria chegar até lá, com a estradinha nanica que virou um atoleiro enorme, onde até o boi do compadre Agenor atolou até os chifres que não tinha?

Purina e Milena tinham um segredo inconfessável. Ambas eram apaixonadas por dois machos distintos.

Acontece que a linda Milena se deitou com o dela, que se chamava Tonico, num matinho que serviu de motel, por isso veio o nome de Matel, perto de um buraco de tatu bola.

Purina se deixou acasalar com seu garanhão chifrudo pertinho dali.

No mês seguinte as regras menstruais se deram por ausentes. As duas ficaram enjoadas, não podiam sentir o odor da comida que tinham ânsia de vômito.

Milena e Purina moravam em dependências díspares na propriedade do pai de Milena.

A primeira morava num quartinho só dela. Cercada de todo conforto. Já a pobre Purina não se acostumou a tal luxo.

Passava os dias no pasto, de manhã cedinho ia ao curral faminta, ávida por degustar o banquete despejado no cocho de cimento.

Enquanto que a contemporânea amiga tinha sob seus olhos uma mesa farta, com todos os petiscos que apreciava muito.

Meses se passaram. As chuvas serenaram. A roça de milho deu espigas gigantes, grande parte viraram milho verde vendido na feira do mercado municipal, e a outra serviu de silagem às colegas de Purina.

A barriga das duas amigas estufava a olhos vestidos. Não havia mais como acobertar o mal feito. A “prenhice” das duas saltava a olhos desnudos de qualquer um por menos observador que fosse.

A barrigona durou mais de nove meses, exatos 285 dias. Nas duas amigas, que pariram quase iguais.

Só que, enquanto Milena foi levada ao hospital em trabalho de parto adiantado, com a bolsa rota, com todos os recursos disponíveis da moderna medicina, sendo submetida à cesariana, pelas mãos expertas de um obstetra famoso, a pobre Purina expeliu o concepto num matinho perto do curral, onde foi montada no cio pelo boi fecundo, de nome Jacinto, que desvirginou a maior parte das vacas da coleção do Seu Júlio, pai de Milena.

Antes do final inusitado da nossa história não seria demais se lembrar do dia quando as duas amigas chegadas, embora morando em pontos díspares na propriedade, viram retirados de dentro de seu útero as duas crias.

Na maternidade não faltou luz. No matinho a pobre Purina foi picada por uma cobra de pouco veneno.

Milena foi levada às pressas da sala do bloco cirúrgico para um apartamento maravilhoso. Regiamente decorado por uma amiga também parturiente.

Enquanto a pobre Purina, uma linda vacona preta e branca amoitou a bezerrinha num capinzal fechado. Na intenção pura e singela de protegê-la dos predadores maiores, o pior deles o ser humano, que se trata de um ser desumano muitas das vezes.

Depois de se ver com o filho nos braços, uma linda menininha de olhos claros e pele morena, como a do pai, que sumiu na braquiária depois do mal feito, enjeitou a criança, nem ao menos deu-lhe o sobrenome, Milena deixou a pobre e infeliz cria, sem nome ainda, nas mãos do conselho tutelar, pois não queria nada com o título de mãe, que em absoluto não seria jamais.

Ao revés, a boa vaca de nome Purina, a que protegeu a cria com cascos e coices, defendeu a linda bezerrinha do bico dos urubus, que espreitam a morte como eu espreito a vida, evitou que a cobra peçonhenta nela injetasse o veneno fatídico, fez da filha uma vaca da prateleira de cima.  Dando mais de cinquenta litros de leite em primeira ordenha. Campeã de todos os torneios de encher o balde, com o leite branco da vaca preta, embora a filha da Purina fosse tinta de preto e branco.

Anos depois, ao passar pela roça onde viveram em desarmonia as duas quase irmãs, ao optar entre uma e outra, entre a vaca Purina e a mulher desalmada Milena, fico com a primeira.

Desde então, entre as vacas, e os animais que as possuem, fico com as vacas. Sem medo de errar…

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