Quanta chuva caiu desde cedo! Inda agora ela se debruça por sobre a terra sedenta de água do alto. O céu azul tirou férias. Em seu lugar nuvens escuras empanam o brilho do sol. Talvez a semana inteirinha, sete dias mortos em minha cidade, por alguns motivos solenes: a greve da universidade e o feriado do dia da proclamação da república do nosso país, pouco a pouco emergindo da insalubridade que toma conta da boa vontade dos cidadãos de bem, cada vez mais desiludidos frente às maracutaias que nos maculam a honra, de norte ao sul do país.
A descida das águas é bem-vinda nos ares da roça. Ela ajuda a tintar de verde a pastaria, a fazer granar e crescerem os pezinhos de milho recém plantados, faz a vacada luzir o pelo, engordar os bezerrinhos novinhos, aumenta a produção de leite, mas faz despencar-lhe o preço nas gôndolas dos supermercados. E pobre do produtor de leite…
Neste domingo treze de novembro, dia feio para os urbanos, lindo para os roceiros, sobremodo os que vão à praia, deixei a cama antes que ela acordasse.
Não sei exatas quantas horas seriam. Não fiz o cálculo exato. Por certo seria antes das seis da manhã. Um cadiquinho antes que minha esposa acordasse.
Queria correr nem que fossem alguns quilômetros magros. Precisava me preparar para uma carreira longa, nada menos que cinquenta quilômetros a serem vencidos, no perto dezoito de dezembro, numa ultramaratona entre Ijaci e Ibituruna.
Um entendido em corridas de longa distância me aconselhou evitar correr em esteira na intimidade favorável de uma academia. Os percursos nas corridas de rua, pelo asfalto, ou pisando o chão duro das estradas vicinais, exigia mais das minhas pernas fortes.
Como estava chovendo não sabia aonde ir. Correr com um guarda chuva não é possível. Com uma capa própria também deveria evitar.
A princípio fui dar umas voltas no entorno do condomínio onde moro. Cada volta completa mede um quilometro no entorno da Avenida das Acácias, a mesma onde me escondo.
Dez voltas seriam o ideal, pelo menos presumia.
Durante o curto trajeto, observando de olhos atentos a linda paisagem, naquela hora temprana, não se via vivalma morta ou viva dos dorminhocos moradores daquele logradouro tão lindo.
Meus olhos apenas se debruçaram sobre pássaros madrugadores. Filhotes, mães e papais passarinhos, vigiavam os ninhos. Muito verde era visto durante a corrida. Árvores da espécie Murta, camélias brancas e cor de rosa, trepadeiras roxas e multicores, pés de manacás sem suas flores cheirosas, arbustos dos quais ignoro os nomes, flores gentis, jardins bem cuidados, outros carecendo de mãos capazes de revitalizar a beleza das flores, passeios generosos calçados do mesmo ladrilho usado em Copacabana, casas mansões, outras mais modestas, algumas em reforma, outras em construção, janelas em escuridão, luzes acesas nas salas vazias, quartos onde dormiam pessoas cansadas da vida, cozinhas esperando a manhã, prontas ao café da manhã, amantes em atos de amor, casais em quartos separados, crianças dormindo seus sonos de anjos, aproveitando a calma do domingo cedo, se preparando para a chegada da segunda, dia que muitos irão folgar, carros nas garagens e estacionados junto ao meio fio, a maior parte molhados pela chuva fina, assim foi a minha corrida por aqueles dez quilômetros no entorno do condomínio Jardim das Palmeiras.
Depois saí pelo portão entreaberto, para dar uma espiadela nos olhos da rua.
A cidade ainda dormia. Era domingo, treze de novembro. Cedo.
De volta aos meus domínios, depois de tomar café numa padaria perto, ao retornar pelo portão já de asas abertas, sob a vigilância de outro porteiro simpático, todos são, dei mais algumas voltas no entorno daquelas alamedas lindas, molhadas pela chuva que teimava e ainda teima em cair de mansinho.
Cheguei a casa antes das oito da manhã. Foram mais ou menos três horas de corrida. Poucas em se considerando a espichada maratona do dia dezoito de dezembro.
Não sei se estarei preparado para correr tanto.
Mas depois de percorrer aqueles míseros quinze quilômetros, ou seriam mais?, acabei correndo no entorno de mim mesmo.