Salpicos de querência

Foi dito que as pessoas podem não se lembrar do exatamente o que você fez ou o que você disse.  Mas elas sempre se lembrarão como você as fez sentir-se. Portanto você pode fazer a diferença. Pense nisso.

Antes de contar a história do acontecido nesta manhã iluminada de sábado, doze de novembro, quase dia da proclamação da república do Brasil, gostaria de esclarecer aos leitores os distintos significados da palavra querência, tão bonita, que o esclarecido Google me deu: querência pode ser lugar amado, nostalgia e saudade do lugar de nascimento. Em alemão, idioma no qual cada vez mais quero me imiscuir, falar com correção e desenvoltura, querência se assina – Heimweh, que desdobrada quer dizer – Heim – lar, casa. Heimat – pátrio. Weh- dor, magoado, doente. Ou ainda, indo mais longe – Wehmut- melancolia, tristeza, saudade.

Guimarães Rosa usou querência, no celebre Burrinho Pedrés, de Sagarana, na seguinte frase: “Mas a pior de todas é a arrancada do gado triste, querendo a querência. Boi apaixonado que desmama, vira fera. Saudade em boi, eu acho que ainda dói mais do que na gente.

Já salpico é a mancha de lama ou qualquer líquido, e também pedra de sal usada para salgar carnes e outros alimentos.

Querência, afinal, para mim, é o lugar onde se quer bem ou se vive.

Foi para lá que me desloquei na manhã bem cedo no dia de hoje.

Trata-se da minha rocinha antes prejuizenta no município de Ijaci. Há mais ou menos dezessete quilômetros de aqui, minha Lavras amada, salve salve.

Foi antes de a padaria se abrir.

Cheguei ao meu palmo de chão encantado juntinho ao retireiro bom de braço e de coração. Roberto já estava com o leite quase todo no tanque de expansão. Sua amada Lúcia já estava de prontidão para nosso café da manhã regado a café puro da roça, pão que trouxe da cidade, de outra padaria mais madrugadora, recheado de ovo caipira, e só.

Depois da degustação maravilhosamente pura fui buscar os cavalos lá no alto do morro em pé.

Levei numa das mãos o cabresto e na outra uma canequinha de ração, atrativo para a mãe do Theo (cavalinho inteiro que tem o mesmo nome do meu neto) se deixar apanhar pelo laço.

O nome da mãe do Theo é Cigana. Uma linda pampa bicolor, branca e castanha, que faz sucesso entre os garanhões dos arrabaldes de Ijaci, embora não queira nada com nenhum deles. Inclusive eu.

Descemos os três morro abaixo. Em trote manso, como o potrinho castanho filho da égua Cigana (que não sabe ler a palma da mão).

Antes de chegar à casa amarelazul, cenário de Madest, um dos meus romances já esgotados, dei de olhos na roça de milho do amigo arrendador Roberto.

Fiquei com pena dos pezinhos de milho novinhos, sob um sol escaldante daquela hora temprana. Imaginei como seria o sol do meio dia. Tórrido, escaldante.

Depois de “encelar” (pôr a cela) no cavalinho Theo, na intenção de cavalgar, para algum lugar, não imaginava onde seria, ao pensar na rocinha de milho pedindo água do céu, em linguagem popular se chama de chuva, foi que a inspiração em mim brotou forte, como o calor do sol do meio do dia.

Caso eu tivesse uma força superior, vinda de um lugar alto, por cima das nuvens então ausentes, que de repente se tornariam cinzas plúmbeas, eu faria um pedido, quase uma súplica em forma de salpicos de querência (recordem-se do significado das palavras salpico e querência).

Se eu pudesse, e minhas forças permitissem, gostaria que a chuva apenas caísse sobre as roças de milho, sobre a pastaria ressequida, sobre o canavial recém plantado, sobre o eucaliptal cheio de pezinhos de eucaliptos novinhos, sobre o açude seco, com o fundo rachado, expondo-lhe o cerne antes cheio de lambaris e tilapinhas caipiras, ou girinos futuros sapos cururus, sobre a horta de couve carecendo de água caída do céu, que já vem temperada de adubo na medida certa para colorir de verde a natureza em festa, sobre o brejo morada de taboas, agora pedindo chuva, para não secar de todo, sobre a plantação de soja, tão carente de água, sobre a selva amazônica, manancial lago responsável talvez pela metade da água do mundo todo, somente por cima dos locais onde a chuva faz falta. Não nas grandes metrópoles, a exemplo de São Paulo, que sofre mercê das enchentes que fazem os paulistanos descabelarem-se no trânsito cruel, nos engarrafamentos monstros, e deixe a água da chuva apenas deitar sobre os locais em falta dela, como a roça de milho do amigo Roberto, do Geraldo da Nega, do Tiãozinho do Aristeu, e de tantos e tantos outros agricultores estóicos e trabalhadores, que mourejam duro no cabo da enxada ou da foice, esparramados por esse imenso Brasil.

Ficam aqui ubicados (talvez não exista essa palavra em português, e apenas em espanhol) os meus salpicos de querência. Se não puder executar algum deles, que me perdoem a inconfidência.

Não foi por mal, ou por pior, foi, talvez, por excesso de querer demais…

Mais um talvez, se me permitem- talvez eu faça a diferença, as pessoas talvez se lembrem de mim de como eu as fiz felizes. Não pelo o que eu disse. Tenho dito…

 

 

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