O menininho do Mineirão

Um dia destes, não sei quando foi, ao passar por uma loja de produtos veterinários, a caminho de casa, quase à hora do almoço, fui surpreendido por uma mulher loquaz que contava prosa a sua amiga: “sabe? Gastei mais de cinco mil reais com meu cãozinho de estimação. Ele foi atropelado por uma motocicleta e quase morreu. Deixei-o internado para se recuperar dois dias. Foi medicado e agora está bem. Vou comprar um perfume para cachorro. Quero um bem caro. E uma coleira com dois brilhantes incrustados para enfeitar-lhe o pescoço. Vai ficar lindo o Agenor (era o nome do cãozinho de pseudo rico e gastador inveterado)”.

Mal sabia ela que eu era um médico urologista recém saído de um ambulatório médico de especialidades, onde tento, quase sempre, e não consigo, mitigar o sofrimento de seres humanos que me procuram depois de rica espera. São seres humildes, carentes, que precisam ser operados de patologias afeitas à especialidade, aguardam debalde a solução cirúrgica de seus problemas e muitas vezes a espera se torna infrutífera. Passam meses, estendem-se anos, e nada de a tal cirurgia ser executada. E a pedra no rim acaba por danificar irremediavelmente o órgão. A fimose amadurece de velha. A próstata acaba por entupir a uretra. E o tumor renal de suma gravidade termina por levar o pobre paciente ao óbito. Não por culpa do médico e sim do sistema falho.

Nada contra se cuidar de cães. Ou de qualquer animal dito irracional, embora muitas vezes os irracionais somos nós.

Mas da mesma forma sou rancorosamente contrário aos abusos que certas madames proclamam em defesa das suas famas de gastadeiras, de atirarem dinheiro em direção às pás dos ventiladores, de se proclamarem as salvadoras do mundo, se alardeando protetoras dos cães, e no entanto nem se lixam quando um semelhante se mostra estendido na calçada, um pedinte faminto esmola, uma pessoa enferma sofre as mazelas de uma saúde pública doente.

Ontem retornei ao estádio do Mineirão, fincado na capital das Minas Gerais.

A derradeira vez em que ali estive, se for puxar pela memória, creio já são passados mais de quarenta anos.

Hoje o futebol não faz parte das minhas predileções no que se refere ao esporte. À bola maior, aos gramados, às multidões ensandecidas que se agitam nas torcidas, à azafama dos estádios, prefiro uma bolinha menor, estádios menores, atletas educados e de boa formação cultural, que quase sempre dominam mais de três idiomas, fora o pátrio, que se chama tênis.

Um detalhe confesso: quando se trata de jogo da seleção nacional não me furto a assisti-lo. De corpo presente não tem sido regra.

Como o estádio do Mineirão ficou bonito depois da reforma com vistas à copa do mundo última! Que maravilha ele ficou…

Enquanto esperava a abertura dos portões que levam ao gramado, depois de uma viagem assaz confortável em companhia de amigos recentes, eu era o caroneiro feliz, fui degustar um tropeiro famoso num bar perto da entrada do campo monumental. Uma multidão teve a mesma ideia. Por pouco mais de dez reais passaram-me pela boca faminta e sedenta uma cervejinha estupidamente gelada e uma marmita de feijão tropeiro, com a marca registrada da comida mineira de boa qualidade.

Em meio a multidão de pessoas que ao meu lado comiam e bebericavam de repente estendeu-me a mãozinha carente um moleque da cor da jabuticaba por madurar.

Era do tamanho de uma criança de três anos, mas por certo teria bem mais.

O jovenzinho simpático apenas balbuciou uma pequena palavra quase ininteligível: “nota”!

Enquanto me empanturrava com aquela comida boa e tomava minha Bud bem gelada olhei em direção à carinha assustada da pobre criança desprotegida que esmolava.

Molhei-lhe a palma da mãozinha clarinha com uma nota de cinco reais. Ao que ele agradeceu com outra palavrinha escura, como estava a noite.

Depois, ainda à espera da abertura dos portões do estádio, olhei pros lado à procura do menininho do Mineirão. Esqueci-me de perguntar-lhe o nominho. Que por certo seria pequenininho como o dono.

Foi quando avistei a família do menininho do Mineirão.

Todos estavam perto de onde ele esmolava. Num passeio próximo ao bar do tropeiro e das cervejas geladas.

A presumível mãe, uma talvez irmã mais velha, uma pequenina dentro de um bercinho pequenino, usando uma chupeta amarela, e só.

Fizemos um selfie juntos. A tal irmã foi quem me ajudou a regular o celular. A foto saiu linda, como ficou o estádio Governador Magalhães Pinto.

Não mais vi o menininho do Mineirão. Acabei por assistir, maravilhado, à maiúscula vitória da Seleção.

Ah!, já ia me esquecendo. Consegui não apenas o selfie como o nome do menino pedinte. Seu nome é Uesley, escrito assim mesmo.

Uesley não tem o tratamento fidalgo do cãozinho da madame da loja de produtos veterinários.

Muito menos teria a assistência veterinária, no seu caso médica, do tal cachorro de dono noveaux rich.

Nem ao menos a coleira de brilhantes. Nem ao menos o perfume caro, menos ainda uma alma caridosa despenderia cinco mil reais para um tratamento decente no caso de um acidente. Ou coisa banal.

Deixei o lindo estádio do Mineirão reformado com um estranho pressentimento, quase um lamento.

Que pena que em nosso lindo país, de tantos e tantos encantos mil, os pobres desassistidos menininhos do Mineirão não têm a mesma chance de um cãozinho de dama elegante, de norte ao sul do Brasil.

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