Pra que tentar encompridar o dia e amortalhar a noite?

Bendigo as madrugadas. Aquela aragem fina de chuva que teima em não cair e não consegue. O céu ainda escuro, de um cinza ameaçador, na linha do horizonte um chumaço de luz, poucas pessoas se atrevem a andar pelas ruas semidesertas.

Se pudesse eliminar a noite de seu currículo escuro assim o faria. Deixaria a vida apenas envolta na claridade, no máximo uma nesguinha de negritude descolorida de amor, entremeada de alguns focos de crepúsculo pintado com todas as cores do arco-íris.

Tenho receio da noite. Que, ao dormir ela me engolisse com sua enorme bocarra preta, cheia de dentes obsoletos, já que a noite não se alimenta, apenas do sono dos dorminhocos.

As horas tempranas são as ideais para escrever. Naqueles momentos madrugadores a inspiração está em alta, os pensamentos voam, as ideias proliferam como a erva daninha renasce no verde do jardim.

Bem sei que o sono faz falta. Dizem que ele é vital para encompridar a vida. Concordo em parte com esta assertiva. Mas, quando o fulano de tal não consegue fechar os olhos, esquecer-se das agruras da vida, das contas amontoadas no criado que só consegue falar de desemprego, de desassossego, da sofreguidão por que passam famílias inteiras, mercês do desemprego, da falta de renda condizente, da angústia de não conseguirem pagar a anuidade da escola do filho que não deseja e nem quer sofrer um retrocesso de migrar para a escola pública que nem carteira decente tem para conferir-lhe nádegas ao assento.

Bem sei, na nossa cidade, e em outras iguais, quem acorda antes do padeiro, ou do retireiro, pode vislumbrar cenas bem tristes e insalubres. Lixo fora dos sacos pretos esparramados pelos passeios, cães noctívagos cavoucando sacos de lixo, restos das sobras de ontem revirados ao acaso, as margaridas madrugadoras ainda não acordaram com suas vassouras salvadoras, pedintes sem teto esmolando de olhos remelentos debaixo de marquises engoteiradas, andarilhos tentado pôr a vida em dia, embora saibam que vai ser quase impossível, neste país onde o impossível tem seus dias contados no enorme emaranhado de politiquices e sem vergonhices abjetas das quais somos informados mais e mais. Debalde, sem solução à vista desarmada.

Andando pelas ruas quase desertas, naquelas madrugadas de primavera, com o verão ameaçando chegar, o fim de ano anunciar as festas natalinas, tristes para grande parte da população, menos para alguns felizardos montados em contas milionárias, de tantas e tantas cifras que mal cabem na calculadora do celular, posso pensar mais e mais, sofismar cada vez mais, onde o nosso povo vai parar?

E eu não paro tanto de caminhar quanto de pensar.

Penso tanto que meu cérebro que pouco descansou durante a noite efervescente de ideias loucas dá sinais de cansaço.

De fadiga, de estresse.

Mesmo assim não sinto ou pressinto por dentro qualquer sinal de esmorecimento.  Sinto-me jovem na planura dos meus quase setenta anos. Faltam-me sete para chegar à idade em que morreu meu pai. Da que faleceu minha mãe falta um pouco mais.

Foi caminhando, no dia de hoje, e em outros iguais, antes que a padaria acordasse os pães quentinhos, que o retireiro encontrasse aquela vaca extraviada sumida no brejo da esperança rediviva, antes que as garis da limpeza urbana tivessem tempo e empunhar suas vassouras intrépidas, descendo pela rua, vendo pessoas caminharem furibundas, antes de enfrentarem mais um dia de trabalho duro, um senhor, meu conhecido, tentar fazer sumir aqueles quilinhos em volta da cintura obesa, andando sempre mais, de ver outro, enviuvado de pouco, depois de perder o sono pensando na amada morta, caminhando no entorno do jardim como um sonâmbulo moribundo, que pensei no que escrever na manhã de um novo dia.

Sei ainda que as letras combinam e como com as madrugadas. Naquelas horas bem cedo a inspiração bate forte. Como o vento que açoita a minha janela, de onde avisto cenas do meu passado logo na rua de baixo.

Volto de novo à pergunta do título. “por que tentar encompridar o dia e amortalhar a noite”?

Por tudo isso, e muito mais…

 

 

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