Sou refém da pressa, do afogadilho. Diz, um dos meus filhos, o mais velho, que sou hiperativo.
Diz Rubem Alves, antes de sua morte: “eu tive um caso de amor com a vida. Ela deve ser colhida diariamente. Quem deseja economizar o hoje para o amanhã fica com a vida apodrecida nas mãos. A alma é uma cigarra. Há na vida um momento em que uma voz nos diz que chegou a hora de uma grande metamorfose; é preciso abandonar o que sempre fomos para nos tornarmos outra casa”. E termina com: “Deus é um grande silêncio”.
Já o grande poeta chileno Pablo Neruda afirma: “sofre mais aquele que espera sempre do que aquele que nunca esperou a ninguém”.
Rubem Alves e eu temos algumas particularidades em comum. Ambos nascemos em Boa Esperança, ele e eu vivemos em Lavras, o grande escritor, cronista de mancheia, foi meu patrono na Academia de Letras de Lavras.
Nos seus últimos anos ele falava muito na morte. Embora tenha tido um caso de amor com a vida. Já eu, seu pupilo insosso, ao qual pedi um prefácio de um livro antigo, Rubem me respondeu num e-mail que não tinha tempo. Foi quando pensei na palavra tempo. Eu também, como médico, atleta, fazendeiro de fim de semana, entre outros predicados, poliglota, estudioso de outros idiomas, amante da vida, nas horas certas ou incertas, nunca fiz do tempo um grande problema. Para encompridar o tempo acordo cedo. Amo as madrugadas. Deixo a cama entregue a ela mesma. Naquele sono “camal”, envolto em sonhos pesadelos.
Tenho medo da noite. Já o disse numa crônica anterior. Para aproveitar bem o tempo evito os braços da noite. Saio de casa antes que a padaria abra as portas. Mais cedo do que o padeiro ou o retireiro, atrás de vacas extraviadas.
Concordo que a alma é uma cigarra. Precisamos todos nos metamorfosear constantemente. A vida seria insuportável não fossem as mudanças. Por isso mudo de casulo roupa todos os dias. Enquanto tiver vida a me acompanhar nas corridas loucas dos fins de semana. Rubem Alves, de crente em Deus, passou a descrer Dele ao fim da vida. Por isso afirmou que Deus é um grande silêncio. Já eu creio Nele sempre. Diz Tereza de Ávila que a gente encontra Deus até nas panelas. E eu acredito. Quando tento dormir, e não consigo, antevejo Ele nas minhas noites insones. Quanto tento fugir de mim mesmo e não me acho. Quando tento me equilibrar e não vejo o chão. Quando tento amar e acabo amando a mim mesmo. Quando tento e “retento” resolver o meu grande problema de identidade, e não sei quem sou eu. Quando ainda tento perceber onde se esconde Deus. Se na igreja principal, se numa capelinha secundária, se num castelo elegante, se numa choupana miserável.
Já Neruda diz que sofre mais aquele que espera sempre do que aquele que nunca esperou ninguém. Já eu detesto esperar. Chego antes, sofro devido à maldita sensibilidade. Sofro por sentir demais. Não deixo ninguém a minha espera. Como abomino quem me faz esperar demais.
E o que tem a ver pressa com saudade? Ontem vi este dito num parachoque de caminhão. Achei a frase linda. Como bela estava a manhã depois de uma chuvadonha mansa (antagônicas essas duas palavras ditas antes. Chuvadonha, segundo Carlos Drummond de Andrade, era uma tempestade. Nada de mansa por sinal).
Eu tenho pressa talvez devido a saudade dos anos bons que não voltam mais. E talvez tenha saudade movida pela pressa que me consome.
Tenho pressa de ver meus objetivos alcançados. E tenho saudade dos meus pais. Que morreram sem pressa em meus braços de filho. Nem sei se eles sentem saudades do céu.
Tenho saudade dos meus vinte anos. Mas de nada adianta a pressa de voltar a eles. Depressa devagar quase parando.
Tenho pressa de me ver diplomando meu neto. Nem sei se poderei assistir a essa galhardia tão feliz. E não tenho saudade do tempo quando eu , menino ainda, calças curtas feitas de um fiapo de tecido da perna do terno de meu avô materno, andava naquela bicicletinha de rodinha cor de rosa, naquela pracinha de Boa Esperança, terra onde nasceu Rubem Alves. Meu conterrâneo por duas vezes.
Talvez a saudade inexista por um singelo motivo. A memória me atraiçoa, menino jovem não tem memória, ancião pensa mais no passado que no presente e no futuro, incerto, por não saber quantos anos lhe restam.
Tenho uma angustiante incerteza dos caminhos que deverão passar por mim daqui em diante. Teria sido pela pressa que me consome? Pela saudade que não some?
São tantos e tantos motivos para falar de ambos- pressa e saudade, que nem mais sei a quem reclamo…