Como tem sido difícil construir uma estrada para atingir meus sonhos

A chuva tem sido pródiga em fazer verdejar a roça de milho nesse começo de novembro.

Antes tudo estava ressequido.

A pastaria de um verde esmaecido clamava por água despejada dos céus. As árvores semi secas pediam a intervenção de São Pedro. Os riachos cantarolavam, com sua voz desafinada, alguma providência de uma entidade maior, qualquer uma que tivesse o poder de atrair a bendita chuva que teimava em não cair. O homem da roça suplicava: “por favor, meu senhor! Deixe a chuva cair, não permita que minha rocinha plantada de pouco me deixe com saudade da vida na cidade, pra onde não quero voltar”. Os pássaros pescadores tentavam tirar um peixinho que fosse do açude que virou um lamaçal podre, famintos, sofredores. As vacas exibiam suas costelas à mostra, angustiadas por não terem o que comer. Tudo fedia a fedentina da morte. “Quando a chuva vai cair de novo”? Perguntava o pobre homem do campo.

No entanto a chuva deitou-se em pingos graúdos, que se converteram em enxurrada grandota, em pouco tempo apareceu a enchente na planura do vale seco, tudo verdejou, a terra cantou, as vacas engordaram, o leite derramou, o preço baixou, a roça de milho penduou, as bonecas do milharal se tornaram espigas de verdade, cada uma mais linda que a outra, tudo virou maravilha nos ares da roça.

No entanto, para mim, fazendeiro de fim de semana, que mal sabia de que cor e sabor era o leite branco da vaca preta, que vaca de três peitos não dá leite como a outra, de quatro, que quando a égua pisca a vagina é sinal de fecundidade, que quando a vaca está no cio o touro lhe cheira o traseiro, qual lua é melhor para se plantar, qual adubo é ideal para esta ou aquela cultura, que o tico-tico nanico choca os ovinhos do pássaro preto, se tornando, depois de os ovos eclodirem, pais postiços, que acabam criando os filhotes como se fossem próprios, e tanta e tanta coisa mais, que, se ficasse aqui escrevinhando estas sandices, tomaria tempo demais dos leitores impacientes.

Há tempos contados tenho tentado construir uma casa no campo. Num ponto lindo, beira lago, de onde se avista uma visão de sonhos, local onde gostaria de passar meus derradeiros dias escrevendo um romance real sobre a vida que tive, penso continuar a desfrutá-la por mais tempo, embora não saiba quanto tempo mais.

A outra casa foi arrendada a uma amigo que entende de vacas e pouco dos animais que as possuem. A partir de um ou dois anos, vencidos, não tenho mais onde passar as noites, já que minha casa amarelazul foi ocupada por ele e sua família de mãos caludas, coração amanteigado, índole afável , gente da prateleira de cima, que entende de chuva como eu tento entender de juntar letras e formar palavras.

O problema maior que tenho enfrentado mora na estrada que liga a casa amarelazul a outra, beira lago represa do Funil.

A chuva tem sido alvissareira para os ares da roça. Para minha construção, por causa da conservação da estradinha curta, mais ou menos menos de um quilômetro, a descida das águas tem sido um solavanco na concretização dos meus sonhos pueris rurais.

Não há como fazer chegar o material na fundação do meu pequeno rancho. O barro, a lama, o charco alagadiço que se tornou o caminho até minha nova casa de campo, têm sido impedimentos a realização dos meus sonhos.

Tenho tentado de tudo para apaziguar em parte a situação.

Passei a máquina na estrada. Esparramei moafa. Tirei a enxurrada, compactei o piso macio da terra boa da minha roça. Mas a chuva caiu, de mansinho, depois deitou-se gorda pelo caminho, fazendo dos meus esforços debaldes.

Não satisfeito com a derrota a mim imposta pela chuva e pelas más condições do tempo, para os da roça eram perfeitamente toleráveis, para gente da cidade submersos em constrangimento, contratei uma firma especializada em manutenção e construção de estradas.

Ontem fui até lá com o engenheiro. Chovia mansamente. Fomos caminhando vagarosamente até o local da construção dos meus sonhos de ter uma casa beira lago. Onde possa receber os amigos mais chegados, principalmente gente simples do lugar.

Quase nos atolamos no barreiro. Fomos salvos de nos submergir até o pescoço por uma bota de borracha branca que comprei antes da ida a minha roça.

Era cerca de oito da noite quando voltamos à cidade. Não sem antes ouvir abalizadas opiniões de quem entendia do assunto roça.

Agora aguardo o orçamento de quanto vai ficar a reconstrução da nova estrada. Tomara o preço seja exequível. Dentro do meu minguado orçamento. Caso contrário abortarei meu sonho de ser feliz ao lado das minhas vacas e galinhas, dos meus cavalos e amigos, gente simples do lugar. E dos meus ideais de escrever mais um livro, dos tantos que já escrevi.

A chuva, tão necessária aos campos, aquela que faz verdejar-me os encantos, que faz brotar a roça de milho, que faz voltar o sorriso aos lábios duros e ressequidos do homem nascido ali, se não nascido de umbigo, pelo menos de coração, tem sido um obstáculo quase intransponível a concretização dos meus sonhos de ter mais uma casa de campo.  Não um castelo que a gente edifica, e não tem tempo de morar dentro dele.

Bem sei que tem sido difícil construir uma estrada para ver concretizados os meus sonhos. Mas, se o tempo ajudar, se a chuva me der uma trégua, acene a mim uma bandeira branca de paz, caso o sol espreguiçar-se, emergir do seu manto de nuvens cinzentas, aí sim, finalmente, vou atingir o topo do degrau mais alto, ali instalarei meu reduto final, onde, em paz comigo mesmo, vou ser feliz olhando a superfície daquele lago verde, tão verde como a relva linda do pasto colorido de um verde profundo, da cor dos olhos da minha mãe…

 

 

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