Saudades do tio Zito

Foi com ele, através dele, com seu jeito galhofeiro e divertido, que aprendi a começar a entender as vacas que ruminam, os cavalos por que correm, os porcos por que grunhem, as galinhas por que motivo cacarejam, os pássaros do mato por que se escondem dos homens, por qual motivo a vida no campo me atrai tanto, até hoje, no descabelar dos anos tardios.

Tio Zito era o irmão um pouco mais velho do meu pai. Um dos Abreus – da linhagem que contava com seis irmãos, hoje só resta um, o tio Albertinho com seus mais de noventa anos, creio, se não me falta a memória, noventa e cinco, porta de entrada para os cem.

Meus avós paternos, pais de todos eles, se chamavam Alberto de Abreu e dona Maria. Eles se foram em primeiro lugar, geraram uma prole mediana, que se juntaram aos pais queridos no céu.

Tio Bento, mascate viajeiro nunca pousou as asas por aqui. Creio que Três Corações, cidade do rei Pelé, o viu partir rumo a outras paragens, mais distantes de aqui. Ele passou a maior parte do tempo nas terras férteis do Paraná. Era o de mais idade de todos. Faleceu longe da minha cidade querida, sem que eu pudesse acompanhar-lhe os funerais.

A seguir, em ordem de longevidade vinha o galã da turma. O tio Chico Abreu, casado em primeiras bodas com dona Lulu. Que viveu pouco tempo ao lado dele. Morreu cedo de moléstia do coração. Também fazendeiro de pouca predestinação, já que abandonou as lidas da roça em tempos idos. Virou construtor da cidade, não enricou, ao revés. Foi um colecionador de insucessos, sempre foi meu amigo, nas vezes em que se consultou comigo. Deixou um único filho, o Haroldo, além de outra menina adotada, que creio viver em São Paulo, de nome Tianinha.

Ainda me lembro, com eternas saudades, da única mulher naquela família dos Abreus, oriundos da localidade das Três Barras, um pedaço de terra fincado no pasto rico das saudades, onde era a fazenda do Tio Zito Abreu. Tia Liquinha, esposa dedicada do Zé Elias, alcunhado de Zé do Haical, foram morar em Varginha. Os dois tiveram filhas lindas, uma das quais foi minha namorada, que deixaram uma linda ninhada de filhos, netos, nem sei quantos são.

Creio que o Abreu que eles assinam no sobrenome tenha origem na linda cidade banhada pelo rio Grande, Ribeirão Vermelho.  De Abreu, bem lembrado.

O querido tio Albertinho ainda mora em Volta Redonda. Não sei por quanto tempo mais, tomara eternamente como a derradeira semente de uma família que me é tão importante, além da outra parte do meu nome, que tem o Rodarte no sobre.

Daqui da janela do meu consultório de Urologia me fita com saudade a casa que foi de meus pais. Ali está estacionado grande parte do meu passado.  Que tem lembranças ternas da Rua Costa Pereira, Rua dos Rodartes, dos antigos poucos existem mais.

Mas esta crônica tenta deixar os Rodartes de lado. Ela gostaria de falar nas reminiscências dos Abreus.

Voltando ao saudoso Tio Zito, naquela fazenda linda, hoje pouco resta dos meus tempos de menino, daquele curral em L, daquele ribeirão aos fundos de águas límpidas e cristalinas, daquela casa assobradada, onde passávamos as noites encantadas ouvindo causos de assombração, contados pela faceirice do querido Tio Zito, no rabo do fogão a lenha, que ainda crepita dentro das minhas lembranças pueris, das jabuticabeiras mãe de frutas graúdas, que aguçavam-nos o apetite no fim de ano, antes do almoço, prévia do jantar, do campinho de pelada perto da porteira de entrada da fazenda das Três Barras, principalmente das lindas primas de Varginha, com suas pernocas grossas, uma foi um dos amores da minha meninice namoradeira, da minha lambreta azul e branca, de garupa famosa por levar apenas moças bonitas, de tantas e tantas férias escolares, contava nos dedos o mês de dezembro chegar, com sua cara chuvosa, com seu hálito quente, para na fazenda do tio Zito folgar.

Eu me considerava filho varão do querido tio Zito Abreu. Já que o primo João, ex ministro do ex presidente Sarney, era almofadinha demais para pisar estrume de vaca, e andar de cavalo em pelo.  Ele preferia os estudos à vida singela na roça. Suas duas filhas de quando em vez apareciam para uma visitinha de beija-flor.

Acredito não haver me esquecido de nomear algum Abreu que ficou atrelado na esteira que sempre se movimenta nos anos perdidos no tempo.

Se me olvidei, que me perdoem, não foi por falta minha, e sim pela memória um tanto surrada pelos anos tantos que coleciono dentro do meu calendário de idade provecta.

No domingo que a folhinha engoliu mais uma vez fui correndo, pela estrada do Madeira, até a origem da família Abreu.

Da minha casa até Ribeirão foi um pulo curto.

Deixei a seringueira desterrada dormitando seu sono folhal.

Em pouco tempo já estava em Ribeirão Vermelho. Fazia frio, em torno de quinze graus centígrados. Usava meu fone de ouvido, para correr ao som de boa música, como sempre faço.

Eram mais ou menos dez da manhã quando estava nos arrabaldes da cidade de Lavras, perto da boca norte da comunidade.

Foi quando olhei de lado, e vi, uma placa indicativa do nome da estrada do Madeira: “rodovia Zito Abreu”.  Pouca gente sabe quem foi Zito Abreu.

Pai da Gláucia, da Eneida, do João de Abreu, da Maria Alice, primos meus. Irmão do meu saudoso pai.

Uma vez em lavras, ainda cansado pela corrida curta, mas feliz da vida em poder correr tanto, na idade em que estou, sessenta e seis anos, ao ver na placa da rodovia o nome do tio Zito, bateu-me uma saudade intensa dele.

E dos Abreus que já se foram. Um dia serei eu…

 

 

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