O branco e o negro são cores díspares na aquarela de cores. Um me recorda a antítese da outra.
Branco é diáfano e transparente. O negro escuro e taciturno.
Branco me lembra o dia. Negro a escuridão da noite.
No que diz respeito à raça humana pra mim ambas as cores se equivalem. O indivíduo de cor escura tem o mesmo berço daquele que nasce na claridade do dia, olhos claros, pele branca, bochechas vermelhas e rosadas, em contraste com o negrinho do pastoreio, pretinho tal e qual jabuticaba madura, fruta de paladar inigualável, que, uma vez passa do ponto cai ao chão e vira pasto aos marimbondos.
Não existe em nenhum lugar do mundo espaço para o racismo. Pretos e brancos, cafuzos e confusos, amarelos e escuros, índios e ameríndios, morenos e de pele clara, todas as cores deveriam conviver em harmonia dentro do contexto em que todos vivemos.
Depois dessa explanação descomplicada sobre o que penso da diferença entre branco e o negro, vamos a nossa história.
Deixemos o racismo de lado. E a vaidade na mesma moeda.
Meu querido neto Theo, aos quase quatro meses de vida, depois de expelido de dentro da minha querida filha, aos olhos estupefatos do pai e do avô, tem a pele clarinha como o dia que nasceu hoje. Dia de céu azul, um cadinho de nuvens cinzentas, que podem significar chuva na parte da tarde.
Seus olhos parecem se tornarão azuis. Ou verdes como os de minha mãe. Seus ralos cabelos mostram a cor de amanhã- talvez sejam louros de começo, para depois se tornarem de outra cor, talvez acastanharem-se de vez.
O fato que conta é que meu primeiro neto foi batizado no dia de ontem- cinco de novembro. Quase aos quatro meses de vida, mas parece mais.
Foi uma festa linda preparada com todo esmero pela mãe do Theo e com a interveniência da minha esposa.
O batizado na igreja foi concorrido como um matrimônio importante. O padre falou tão bonito, que dentro daquela capela antiga, Igreja do Rosário, não se ouvia um pio da coruja. Era só sepulcral silêncio.
A decoração foi coisa de cinema. Digno de o Vento Levou, filme épico estrelado por Clark Gable e Vivian Leigh nos papéis principais.
Na cerimônia religiosa Theo usava uma camisola de linho branco, com as iniciais de seu nome, bordados em fios de ouro. Estava linda a criança, bem parecida ao avô.
Depois os convivas foram convidados à festa. Na cobertura do apartamento dos pais do Theo.
Que festa linda ali sucedeu! O bufê foi regiamente elogiado. Com a assinatura de uma conhecida banqueteira de mancheia.
A banda cobrou em dólares. Para tocar até quando a noite pedisse para parar. Mas não parava nunca…
Tive de ir embora mais cedo. Afinal era uma sexta-feira, véspera de sábado, dia de ir à roça para saber como iam as minhas vacas.
Fui como de costume andando pelas próprias pernas.
Subi rua acima, pensando, com meus pensamentos errantes, como era bom ser avô. De uma figurinha tão linda e saudável, com pais lindos, avós tentando acompanhar o crescimento do primeiro neto, tomara Deus nos dê vida longa para assistir à formatura do Theo. Não importa no que ele se torne. O que importa é que seja feliz, como eu tento ser.
Quase à porta do condomínio onde moro deparei-me com uma cena incomum, embora seja mais comum do que se pensa.
Um cãozinho filhote, recém desmamado, negrinho por inteiro, olhos e pelagem da cor do urubu, bebia água empoçada no meio fio. Ali não havia nada de comer.
O pobre exibia costelas à mostra. Estava sarnento e pulguento, por certo uma alma não caridosa o havia abandonado de pouco. E ele sofria as dores do abandono e da fome madrasta.
Sem teto, sem afeto, sem carinho, o pobre filhote bebia numa poça de água barrenta. Era uma água imprópria para qualquer animal, ser pensante ou quase isso.
Não tive como socorrê-lo. Não havia espaço em minha casa para um cão abandonado. Torci para alguém, que se apiedasse de cães, o levasse para um abrigo confortável. Onde o pobre cãozinho negro como a noite escura tivesse melhor sorte.
Não soube depois o destino do pobre cãozinho, seria órfão?, nem sequer imagino.
Tomara a vida o tomasse em seus braços e nele depositasse o laço seguro das mãos do Deus dos animais.
Quase não preguei os olhos durante a noite. Pensava em ambos: no querido Theo e no cãozinho filhote.
O primeiro é lindo e branco. O segundo é preto e asqueroso.
A mão de Deus e dos homens abençoou meu neto. Mas até agora a mão de Deus e dos homens se esqueceu do pobre filhote abandonado.
Aquele cãozinho de olhos negros e pelagem escura sofria as dores do abandono.
Meu netinho Theo teve a ventura de nascer em mãos protetoras de Deus e dos homens.