O pequeno Chico da Roça desde menino ajudava ao pai no alambique modesto, que apenas produzia pinga pro gasto, que depois cresceu, espichou, engrandeceu, e extrapolou aquela pequena quantidade de cachaça para encher dez ou mais barris inteiros, que eram vendidos na região da sua cidade, alcançou, pela qualidade do produto, feito de cana purinha, o mercado nacional, com a sua marca patenteada recente: “cachaça Meiota”.
Nunca é demais explicar o significado da palavra Meiota. Quer dizer, segundo a fonte consultada, meia garrafa de cachaça.
Talvez tenha nascido daí a razão do apelido que virou nome de batismo daquele meninote levado, que adorava jogar futebol com uma bola de meia, para a seguir, quando ganhou uma de verdade de um tio torto, tomou gosto pela coisa, e sonhou, nunca é demais entabular sonhos, ser jogador de futebol profissional, a exemplo do seu ídolo Neymar, e de tantos outros esparramados pelo Brasil afora.
Acontece que o ambiente faz o homem. Ou o menino, qual seja o jovem.
Com a fábrica prosperando, com o negócio aumentando, vendo os lucros engordarem, fabricar pinga dá mais dividendos que tirar leite, e menos trabalho, o pobre Chiquinho, de provador de pinga passou a ser tomador compulsivo. Bebia cachaça todos os dias.
Entornava pela manhã, no café da manhã, que não era café e sim aguardente da ruim, uma nomeada canjibrina que deixava o usuário mais tonto que peru na véspera da ceia natalina, tomava banho de pinga, não uma simples meiota, mas a garrafa inteirinha, no meio do dia dois ou mais tragos acompanhados de torresmo feito na hora na banha de porco, mais meiota de canjibrina, mais uma vez, e dormia sem fechar os olhos pensando na tal cachaça ruim.
Como quem bebe muito se esquece de forrar o estômago, a bebida satisfaz o desejo de comer, por isso quem toma todas emagrece e adoece, Chiquinho Meiota acabou com cirrose aos quinze anos. Mas depois melhorou.
Salvou-o de um transplante de fígado um padre amigo. O bondoso pároco o levou à sacristia, ofereceu-lhe o ombro amigo, tirou-o das más companhias, deu-lhe preciosos conselhos, tentando salvar da perdição aquela alminha desvirtuada do bom caminho, levando-o à escada da salvação.
Dois meses depois, quase refeito do vício, eis que Chiquinho Meiota voltou aos campos de várzeas, de chuteira novinha, presente do mesmo tio torto irmão do seu pai fabricante de pinga.
Um belo dia, ainda pensando na “marvada” pinga, durante uma pelada vestida, era um domingo de tarde, um olheiro, caçador de talentos, vindo da capital, sujeito que empresariava grande parte dos jogadores de futebol profissional de sucesso irrestrito, deitou os olhos incrédulos no Chiquinho Meiota.
Daquele dia bendito foi um salto alto ao time da segunda divisão do São Paulo Futebol Clube.
Chiquinho deixou a pinga e a família numa terça feira bem tarde.
O dia ameaçava fechar os olhos de sono. A noite fungava chuva depois de uma estiagem maldita.
O pai do jogador convertido de tomador de canjibrina à atleta semi profissional torcia para a carreira de o filho deslanchar.
E não é que assim aconteceu?
Em dois anos Chiquinho foi jogar no Barcelona, ao lado de Neymar e Messi, Luisito Soares, e uma árvore de Natal recheada de craques da bola, não cracks da droga.
A apresentação do novo atleta foi acompanhada em todo mundo com festas e comemorações efusivas. No Brasil, na casa do jogador a festa foi simplesinha, mas recheada de saudade e admiração.
Na roça do Chiquinho Meiota até as vacas mugiram de felicidade, o canavial penduou, as galinhas botaram mais ovos, os porcos engordaram mais e mais.
No primeiro jogo do Barcelona pela liga dos campeões Chiquinho amargou o banco de reservas. Era esperado.
Já no segundo, contra o Bayern de Munique, enfim a estréia do nosso amiguinho.
O primeiro gol foi do time adversário. Ao segundo sucedeu-se o terceiro.
O placar contra foi mudado no segundo tempo.
Chiquinho fez um lindo gol de cabeça. O segundo foi de penalidade máxima, cavada por ele mesmo. O empate saiu dos pés avassaladores de Neymar, naquele jogo estava mais calmo.
O tento da vitória foi uma obra prima de Messi, que driblou a defesa inteira do time alemão, deu um drible da vaca no goleiro, e com a bunda enfiou a bola na gaveta do ângulo esquerdo.
Foi um placar apertado, que deu a vitória da liga ao time Catalão.
Acontece, como por vezes ocorre com os jogadores brasileiros que emigram rumo ao estrangeiro, talvez devido aos problemas de idioma estranho, a saudade da família, a incultura dominante, ao sabor da comida diferente, eles abortam as chuteiras, voltam ao seu país de origem, e dependuram as chuteiras.
No caso de Chiquinho Meiota teve um agravante de peso. A “marvada” pinga, o vício maldito, a tal meiota (meia garrafa de cachaça), que não lhe saiu da cabeça.
Chiquinho Meiota foi pego pelo dopping. Não pelo uso de drogas ilícitas. E sim de tomar todas as pingas que trouxe do Brasil.
A temporada seguinte foi um desastre para o nosso amigo Chiquinho Meiota.
Foi deportado para o Brasil por falta de rendimento em campo.
Mais uma triste história das tantas que acabam mal.