A solteirice sempre fez parte dos piores momentos de uma agradável balzaquiana de nome Fialhobunda. Podem estranhar o epílogo do nome – bunda. Mas era o que dona Fialhobunda, Fia para os amigos mais chegados, exibia de melhor naquele traseiro arrebitado, sinuoso como a estrada de Santos em seus melhores dias, cheia de curvas e apetrechos brejeiros, que, quando corria na esteira provocava torcicolo em quem corria do lado.
Como foi formosa a dona Fia!
Era linda ao extremo.
Cabelos negros como a asa da graúna, cintura de pilão sem esforço, traseiro que, se olhasse por inteiro corria-se o risco de ali afundar os olhos e deixar preso o coração. A face se parecia a um quadro de da Vinci, com a mesma expressão fisionômica de então. Os cabelos, ah!, coisa mais linda. Eram escuros, sem tinta até a idade que não se pinta, sedosos e macios, de um caimento e cumprimentos perfeitos, indo além da cintura da imaginação. O abdome mais parecia um colo de mãe fecundo. Nem encovado demais, nem pro lado de fora, como aquelas barrigas de cervejeiros, protusas por inteiro, nem tanquinho de menos.
Nada era imperfeito no corpo jovem da dona Fialhobunda.
Até que os anos nela montaram, e acabaram por o tornarem uma abóbora madura ao extremo. Gordota, chata, sem graça, com todos os defeitos mais.
Quando dona Fia era moça dispensou um monte de pretendentes.
Como morava na roça, entre vacas e galinhas caipiras, homem formoso se fazia ausente. O que sobrava era o bagaço de cana, depois de espremido no moedor.
Primeiro tentou pedir-lhe a mão um tal de seu Zé Mané. Como ele tinha bicho de pé foi solenemente recusado.
A seguir foi a vez do seu Zé Leitão. De tão gordo teve um infarto fulminante, que acabou por ficar debaixo do chão e fora das pretensões da linda mocinha Fialhobunda. O terceiro na linha sucessória foi o Nhô Bento. Como ele bebia demais, uma tal pinga ruim, ou péssima, de nome canjibrina, caiu fora do páreo macio. O quarto, seguido dos quintos dos infernos não teve o nome assinado na lista de pretendentes. Por todos esses motivos terminou por ficar para titia a pobre dona Fia.
Um belo dia de primavera, dia quente, sem sinal de chuva no ar, céu azul até demais, eis que o destino da nossa encomendada dona Fialhobunda, depois da bunda despencada, as pelancas desarmadas, os olhos mortiços, cheios de olheiras profundas, roxos que nem fica a pele depois do belisco de raiva do marido traído, da barriga mais parecendo um tonel de chope de mais de dez mil litros, eis que apareceu, na casinha tosca da roça onde morava, um pretendente mais maduro que um pêssego bichado e cheio de carunchos graúdos.
Era um vizinho de pasto de nome Tamanduá Deu Bandeira. Apelido gerado por culpa do abraço que ele abraçava, mais forte que dez toneladas.
O tal era mais feio que bicho de pé anemiado. Magricela, zarolho, cambota, perneta, e mais um nem sei quantos defeitos nele pediram empréstimo e não pagaram.
Ainda por cima enviuvado de pouco, de uma grande dama da invernada.
A pobre mulher morreu de susto. Depois de acordar nos braços do marido que nunca foi lindo, como eu.
Dona Fia aceitou de mal grado o pedido de casamento. Fê-lo com desgosto, a contragosto.
Afinal era uma matriarca, sem filhos ou netos, ou a quem deixasse aquela rocinha prejuizenta, lotada de vacas em fim de carreira, de gabirus sem serventia a não ser para virar linguiça, e de penosas que amoitavam o ovo no ninho da seriema que não se deixava ver, era veloz como o vento que assopra.
O casório não teve bolo. Nem ao menos uns docinhos de meleca morta. Nem teve flores ou velas, nem ao menos uma fita amarela, gravada com o nome dela- Fialhobunda Moribunda.
A festança não teve lua de fel. Nem de mel, ou coisa de menos valia.
A primeira noite nem com Viagra resolveu. O peru do seu Tamanduá, sem gluglu, não empinou como a pipa do menino ladino que alçou voo rumo ao céu de brigadeiro que o sol lambia com sua língua de fogo apagado.
Dona Fialhobunda acabou inda mais virgem de quando começou a carreira. Com selo intacto, indevassável buraquinho, mais estreito que buraco de tatu nanico.
Mesmo assim perseverou na lida. Tentando perder o lacre da virgindade escondida.
Ela tinha pelo marido morto (brocha, bem sabido), seu Tamanduá Deu Bandeira um amor tão intenso, um ciúme doentio, que a fazia ir à loucura insana. Era doida por ele, apesar da brochura sistêmica.
Quem ainda não teve um cavalo inteiro nas mãos? Aquele que não tem parança. Que não pára nem com reza brava, e relinha ao menor motivo. Eu tenho um assim. Seu nome é Theo. Um lindo cavalinho inteiro, batizado com o mesmo nome do meu primeiro neto. Um garoto lindo que vai ser batizado na semana entrante.
A comparação entre o cavalo inteiro e dona Fia tem uma razão a descoberto.
O cavalo precisa de rédeas curtas para o seu andar sem galope. Caso contrário ele corre como uma seriema desgarrada. E deixa o pobre peão sem chapéu e capote.
Dona Fialhobunda era uma ciumenta sem motivo. Quem havia de querer um estropício como seu marido fresco? E ainda por cima incapaz de fazer sexo seguro? Ninguém, em insana consciência, desejaria tal coisa do outro mundo.
Para manter a união, não amargar a situação anterior de solteirice aguda, dona Fia mantinha seu Tamanduá Deu Bandeira em rédeas curtas.
Como meu cavalinho de nome Theo, em honra e homenagem ao meu primeiro lindo neto.
De nada resolveu as rédeas curtas da dona Fia do seu Tamanduá Deu Bandeira. Na primeira oportunidade ele pulou a cerca, e deu no pedal, da sua bicicleta de pneu furado.
Mesmo assim nunca mais voltou ao regaço daquela mulher idosa, linda como era antes, bem antes do começo da nossa história sem final feliz…