Ruelas estreitas de saudade

As visitas ao cemitério, campo santo, como prefiro, não apenas para mim acontecem no dia de finados, precisamente hoje, dois de novembro.

Ali compareço de quando em quando.

Por vezes encontro o portão de ferro trancado por um cadeado duro. Naqueles dias não insisto. Passo outro dia. Espero, nas minhas orações sem hora de acontecer, pode ser na véspera do sono cair, um sono estimulado por um sonífero, ou durante as madrugadas frias, quando desço a rua em direção ao consultório, paro um cadinho na intimidade da igreja, oro um pouco, principalmente quando ela está solitária, apenas tendo os santos como convidados, peço a Deus e seus amigos diletos por minha família, pelos que precisam de médicos, por quem tem saúde de sobra, felizmente neste caso me incluo, pelos animais que tanto amo, sejam de penas ou couro, depois saio da igreja de cabeça baixa, pensativo, e escrevo com mais e mais voracidade, antes de exercer minha outra face de urologista.

Aquele local de paz e recolhimento me ajuda a desvendar a vida sem antes passar pela aridez da morte. Ali encontro a paz que não encontro em vida. Afinal são meus pais, avós, parentes próximos e distantes, gente que deixou na terra a tatuagem amara da saudade dos seus entes queridos, que ali repousam seus restos mortais, por certo a alma, se existir, avoou pra longe, nalgum lugar imperceptível, seria na azulice do céu, na escuridão das profundezas da terra, não imagino onde seja.

No dia de reverenciar os mortos o campo santo fica tal e qual um jardim florido. Só que estas mesmas flores logo ocupam o mesmo lugar dos mortos, falecem por falta de local ideal. Faltam-lhes água, o substrato terra, adubo, desvelo.

Por este motivo acho um desperdício deitar flores vivas no mesmo local de vivos que já morreram. O melhor seria enfeitar os jardins das casas das pessoas antes de elas falecerem. Não é?

Sou de cultivar flores e saudades. Sou refém imenso da tal sensibilidade, do choro e do riso fácil, sou fervoroso cultivador do amor, da paixão, não do ódio e do rancor.

Procuro deixar os dissabores trancafiados num cadeado do qual joguei a chave fora, e nenhum chaveiro daria conta de reabrir o ferrolho da minhalma sonhadora.

Sempre que passo pelo campo santo, num dia qualquer, ou de reverenciar a memória de quem partiu, sem querer, sobre o túmulo dos meus pais e parentes que ali pegaram carona na morte terrena, derramo gotas de água salina sobre o tampo daquele mármore quente. Que deve ficar frio nos dias de inverno.

A!, se aquelas lágrimas pudessem ser convertidas em chuva! Que bom seria para os campos da roça. Para as vacas esconderem as costelas, para a pastaria verdejar, para as árvores soltarem folhas novas, para o homem do campo destrancar o sorriso depois de uma chuva mansa, que tem o dom de fazer nascer com saúde os pezinhos de milho recém plantados, para adubar com seu adubo que vem inserido nas gotas de chuva que vai entranhar a terra ressequida do mês de outubro, tudo isso e muito mais.

Um colega de turma, daquela turma de medicina do agora longínquo 1974, hoje me mandou um texto de onde extraí isso: “não devemos carregar vida afora este cadáver insepulto de um amor que acabou, está morto. Recendendo saudades necróticas e purulentas dentro de nossos sonhos, o execrável cheiro de memória. Temos de nos amar mais e mais. Não nos prendermos nas celas do sofrer. Mas há pessoas que morrem sem morrer em nossas vidas e ficam insepultas, no vai e vem das nossas recordações. Temos de suturar e tamponar com vigor a ferida viva do nosso coração ensanguentado, jogar estas lembranças na lata de lixo do passado e fazer a reciclagem correta e curativa de nossas atitudes”. (Nelson Antonio).

Com ele concordo de coração e alma. Mas discordo de desistir de ter saudade.

Hoje foi dia de finados.

Como quase sempre compareci ao cemitério. Junto a mim estava a minha esposa.  Levamos dois vasos de crisântemos bicolores. Que ela, minha pequena grande mulher comprou de véspera.

Ela picou em parte a parte dela. Eu conservei intacto o vaso meu.

A minha parte ficou por inteira por sobre o mármore cinzento, como estava o dia, embelezando, por curto tempo, o túmulo dos meus pais.

A parte da minha esposa foi desfolhada em galhos menores que foram salpicados em dois ou mais túmulos. O de seus avós, tios, cunhado, e o de seu pai, em outro local.

Deixamos o campo santo, sob um sol de rachar, um calor ensurdecedor. Uma pequena multidão ali compareceu, para deixar flores vivas nos túmulos mortos. Pena que suas vidas serão tão curtas!

Naquela curta peregrinação entre os túmulos, entre flores reais e imaginárias, atravessamos ruelas estreitas.

São ruelas estreitas de saudades deles, e de todos os mortos que ali convivem com a morte, enquanto eu penso conviver com a vida…

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