A vida não lhe oferece uma segunda chance. Não a deixe pular para o dia seguinte, pois será tarde demais

Hoje desci a rua abrindo as padarias. O relógio do meu i phone último tipo ensinava-me, com seu mostrador iluminado, que era mais cedo que o padeiro acordava, ou que o retireiro procurava as vacas extraviadas em direção ao curral.

Adoro as madrugadas primaveris. Acho um desperdício ficar na cama sem nada o que fazer, a não ser pensar no que escrever no dia seguinte. O travesseiro já se cansou do meu corpo cansado de em ali ficar, amassando-lhe um dos lados, talvez dois.

Os lençóis, pobres mortalhas, muitas vezes desgrenhados, amanhecem como se uma ninhada de gatos persas ali fizesse ninho, ronronando a noite inteira.

A cama, pobre dela, reclama de quem tentou dormir por cima daquele colchão macio, ávida por se ver livre da tatuagem do meu corpo exaurido pelo cotidiano cruel.

Isso sem deixar a parceira, minha esposa querida, que tenta conciliar o sono da madrugada e não consegue, por minha culpa.

Tenho medo da noite. Confesso, sem temor da verdade inserida dentro dela. Adoro os dias despertos em intensidade máxima de luz. Odeio a escuridão das noites altas.

O dia foi feito para se viver. As noites, ao revés, ideais para fechar os olhos, para sempre, sem acordar jamais.

Agora, que estou na iminência de ficar idoso, já tenho a carteirinha de sênior, que me faculta pagar meia entrada, de andar de ônibus sem pagar passagem, tento desfrutar ao máximo dos dias que me restam. Quantos serão? Mais de dez, de vinte, um cadinho mais?

Aos sessenta e seis anos completos no ano passado, precisamente em dezembro, no próximo dia sete vou colecionar mais um des ano de vida, vou fazer mais um desaniversario, nem sei se verei meu primeiro netinho encaminhado na vida, com um diploma de universitário, seja em que área for, o que importa é que Theo seja feliz, como eu muitas vezes fui.

Meu pai passou para a outra vida aos setenta e sete. Minha mãe um pouco depois, aos oitenta e três. Eles morreram sem que eu, médico formado, nada pudesse fazer a não ser prantear-lhes a ausência.

Por tudo isso tento desfrutar a vida com unhas e garras prontas a sair do laço fatal da morte com todas as forças que tenho. Cuido do corpo, e da mente, com todos os argumentos de que disponho.

Malho todos os dias da semana. Piscino sempre que a temperatura permite. Não ando de carro. Deixo a minha caminhonetinha prateada estacionada defronte a minha casa. Dela apenas utilizo aos sábados e domingos, para uma viagem ao interior do meu interior. Quantas e tantas vezes a bateria inserida dentro do motor arriou a carga. Foi preciso uma injeção de ânimo para que o motor ronronasse de novo. Como o gato preto, um que não deu azar, ronrona ao ver a fêmea gata no cio do amor.

Sei que, sobremodo aos de mais idade, a vida não oferece uma segunda chance. Nem mesmo uma vezinha apenas, duas, jamais. Aos jovens tanto faz viver agora sem pensar no que lhes é reservado amanhã. Ou depois do depois de amanhã. Ou o futuro, que para nós tem o comprimento daquela saia curtinha, usada pela mocinha sem acanhamento, despudorada menina de lindas pernocas grossas, sem varizes ou cicatrizes feias, as piores cicatrizes advém das desilusões que nos cavoucam a alma, feridas insepultas que não saram nunca. Nem com um beijinho doce aplicado pela candura de uma mãe.

Quando você se apaixona, de verdade, uma paixão que o faz descrer do mundo ao derredor, se algeme a ela, jogue a chave fora, num lugar perdido no olvido do esquecimento, antes que a vida lhe faça entender que o tempo passou, com a velocidade de um tsunami gigante, e leve a tal paixão em direção a tão longe, tanto, que nunca mais lhe vai ser possível rever a razão daquele amor que agora virou uma tatuagem de hena, que desaparece rapidamente.

Ao contrário, se por acaso você deixar a vida pular, com suas pernas peraltas, ao dia seguinte, aí então será tarde demais. A mesma vida não costuma dar uma segunda chance de arrependimento. Depois de a oportunidade passar, depois de a paixão se desgrudar de você, um dos motivos nada mais é do que a mocidade passar, a velhice chegar, a beleza, a formosura acabar, as linhas sinuosas escaparem-lhe da visão dos olhos, alguém afirmou, com caminhão de razão : “a velhice é uma fábrica de monstros”.

Assim acontece a cada um de nós. A paixão acaba. O amor, não.

Daí a definição entre paixão e amor. A primeira depende da beleza dos seios. Da cintura que se deixa enlaçar com facilidade com que a fita métrica mede a cintura da jovem de cintura fina. Do traseiro arrebitado que corcoveia brejeiro na esteira da academia de ginástica. Do rosto sem rugas, não importam os sulcos da face que o arado da idade faz. Da celulite que acaba com a rigidez da anca da linda mulher que deixou a beleza de lado, desde aqueles verdes anos da sua mocidade jovem e jovial.

Já o amor, ah!, a esse não importa a decrepitude da idade avançada. Se os cabelos se tornam brancos, tudo bem. Eles já foram pretos e sedosos. Ainda bem.  A ele não conta se a conta dos anos não é mais a mesma. Se a cintura agigantou-se, e não permite que a fita métrica enlace os contornos roliços da atual mulher madura. Ou se, até mesmo as rugas passeiem pela face hoje cheia de sulcos que o tempo ali colocou. Ou até mesmo se aquele derrière fecundo, que lembra uma lua cheia, desceu em direção ao chão, o mesmo chão que, em tempo inexato, vai engoli-lo com terra e tudo, no dia da sua morte. Ou se a boca linda, de onde foram extraídos beijos duradouros, passou a ser um orifício apenas, de onde emergem tão somente  impropérios e admoestações impertinentes.

Por tudo isso, pense, com cautela: a vida não nos oferece uma segunda chance. Ou de saborear uma paixão, ou um amor de verdade.

Portanto agarre-se a ela, com amor e paixão, ela não lhe oferece uma segunda ou terceira chance de ser feliz. Não a deixe pular ao dia seguinte. Se não há de ser tarde, demasiadamente tarde. Infelizmente tarde.

E antes que o tarde se torne demasiadamente tardio, seja feliz, pra sempre, embora o para sempre dure menos que a eternidade infinita…

 

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