Só quem teve uma sogra como a minha sabe o trabalho que isso dá.
Não que ela, a querida Dona Edmea tenha feito mal a alguém. Com certeza esse alguém não sou eu. Aquele eu com minha prosa insossa, quem sou eu para me equiparar com os quitutes que ela faz, com suas mãos carinhosas, com tantos e tantos calos quantos foram as suas paixões, resumidas apenas ao seu amado morto, seu Zé Lasmar, figura admirada pela honestidade no trato com as coisas dos outros e dele próprio.
Desde quando elegi sua filha maravilhosa como proprietária, sem nunca haver comprado meu coração, a mãe da Rosa, ou Rosemírian, como queiram, estilista de mancheia, mágica em transformar perus pelados em cisnes brancos, com suas roupas de caimento perfeito, sonegando as imperfeições descabidas naquelas clientes de mal com a balança, a minha sogra não era vista com olhos amenos.
Não sei qual a razão.
Com o tempo matraqueando-me o tirocínio, com os anos montando-me a clarividência, me ensinando qual o lado bom e ruim das pessoas, depois de conhecer minha querida sogra à exaustão, de provar, na barriga do fogão aqueles petiscos de encher a boca de saliva doce, de saborear, por uns minutos que fosse os beijos quentes que ela fazia do amendoim comum, de degustar calmamente o café com broa de milho, junto aos biscoitos de polvilho, até mesmo o sumo de limão que só ela saberia adoçar, acabei por me apaixonar pela esposa do seu Zé Lasmar.
Foi um amor que veio de mansinho, com enorme carinho, nascido de anos e anos de convivência não tão fraterna como se tornou nos dias de agora.
Merecem menção meritória as filhas da Dona Edmea. Seria sem I, com acento, ou sem os dois?
Não importa. Ela é tão maravilhosa com ou sem assento, sem ouvido que me escute as imprecações da vida, com aquela dor no ombro que foi fraturado tantas e tantas vezes, que perdi a conta de quantas foram, fora aquele joelho gasto pelos carunchos da vida, com aquele cabelo mechado pelos anos sempre arrumado como de pouco nascido de um salão de beleza, com aquele par de óculos de grau, com aquela elegância que extrapola os anos, tendo sido considerada a mulher mais bela de Perdões, a terra de minha mãe, que rivaliza com ela em formosura, e delicadeza pura, que alguns defeitos, quem não os têm?, não dão conta de macular-lhe a bondade, o amor que inspira aos outros, a todos que a conhecem bem.
Dona Edmea. Quando a senhora tiver de morrer, depois dos cem anos, ou mais, faltam alguns poucos anos para tal infelicidade acontecer, que a data caia num trinta de fevereiro. Que seja num dia de chuvadonha imensa. Para tentar ocultar-me as lágrimas que da minha face descerão.
Ao seu velório não poderia faltar nunca o canto dos rouxinóis. Ou das cotovias. Ou até mesmo do azulão, ou do Bentevi, dizendo que mal te viu morrer. E acabou falecendo depois de desconsolo incomensurável.
Minha cara sogra. Se pudesse ter duas, três, ou mais, como a senhora, confesso: cem iguais não seria o bastante, para guardar tanto amor guardado, tanta saudade insepulta, tanta nostalgia imaculada.
No dia em que ocorrer a fatalidade do seu féretro, dia mais triste do mundo, que se equipara ao dia do passamento dos meus progenitores, eu mesmo desejo realizar seu funeral.
Que seu cortejo seja de um tamanho sem par. Que ele aconteça no dia de finados. O dois de novembro que se avizinha perto.
Como ele se apressa rápido demais que seja transferido sem data certa. Pois certo é o meu sofrimento, meu lamento será enorme, do tamanho da comoção que me envolve.
Quero todas as alças do seu caixãozinho branco. Que serão disputadas com avidez por todos aqueles que a conheceram em vida.
Todo o séquito de acompanhantes abanarão lenços brancos. Na outra mão o luto prevalecerá.
A sepultura da senhora já tem lugar cativo. No mesmo jazigo perpétuo onde hoje mora o único amor de sua vida – seu Zé Lasmar.
Ao fim da comitiva que a levará à última morada quero fechar a boca do túmulo. Com lágrimas salinas que servirão de cimento, em pouco tempo um concreto duro ali vai estar.
Nos seus últimos instantes gostaria de discursar. Ou ler um crônica que fala de amor, ou de um sentimento profundo, nascido da saudade, do prazer em te conhecer, desde o primeiro momento em que a vi passar.
Minhas derradeiras palavras serão tão poucas, tão insossas, frente ao lirismo singelo de sua pessoa generosa com todos, sobremodo os humildes, os pedintes que lhe passam à porta da sua casa linda, como linda é a beleza da senhora.
Durante o enterro da minha querida sogra convocarei os menestréis do amor. Os anjos e os querubins. As pessoas afins.
Enfim, a todos, que, como eu, não desejaria nunca participar do infeliz dia quando minha sogra morrer…