Por vezes me deparo com uma situação que muito me aflige.
Quem seria o pai daquela criancinha, abandonada, jogada às traças, que perambula a esmo pelas ruas da cidade, mendigando nos semáforos, tentando vender balas a fim de levar pra casa algumas moedinhas apenas, e vive na mendicância, sem ter chance de viver a infância, frequentar boas escolas, mais tarde, quando jovem ainda, ter de servir como aviãozinho do tráfico, a serviço de marginais que nunca são pegos, e vivem soltos em suas mansões, voando em aviões, desfrutando da vida sem nunca ter trabalhado de fato, e, a mercê de bons advogados jamais pagam pena, são libertos graças à conivência de uma justiça que privilegia os endinheirados, deixando mofar em celas imundas apenas os pobres, pretos e prostitutas.
Elas na maior parte das vezes nem conhecem quem participou do seu nascimento. São filhos de alguém. Mas este quem jamais será descoberto.
E essas crianças, doce infância que um dia vivi, são filhos de pais ausentes. Que somente lançaram a semente no útero e fecundaram o óvulo recém-expelido do ovário.
Mas depois se fizeram ausentes. Sem querer saber que naquele dia, de um sexo desprotegido, resultou um filhote que não teve a ventura de conhecer o pai.
Essa criança, criada pela mãe, ou pela avozinha, poucas chances tem de se dar bem na vida.
E, mais tarde, já era tarde, ela se envereda pelo caminho do mal. Torna-se mais um marginal que um dia acaba sucumbindo a uma bala perdida, num tiroteio entre a policiais e traficantes, que tentam impor suas vontades, num morro qualquer.
Nunca fui afeito a comentar sobre três assuntos os quais tenho evitado. São eles: politica, religião e futebol.
Primeiro é que politica não me atrai. Meu voto só confesso às urnas. Nunca tive a intenção de me canditar a nada. Nem em pesadelo.
Religião cada um tem a sua. Deus é um só. Aquele ser iluminado, que não aparece em corpo presente, mas se deixa ver a cada dia. Nos momentos de aflição e felicidade genuína.
Ao futebol prefiro o tênis. E como jogava meu ícone das raquetes, que agora parece ter-se aposentado. Federer não tem substituto à altura. Sóbrio, educado, versado em sete idiomas, o suíço deixou marcas indeléveis nas quadras do mundo inteiro.
Lavras, minha menina dos olhos, pra onde cheguei aos cinco anos, é uma cidade peculiar.
Aqui se encontra quase tudo. Dotada de bons hospitais. Onde a educação é levada a sério. Fincada num lugar privilegiado. A meio caminho entre belas capitais. Cidade de clima ameno. Hoje faz frio e mais tarde o sol se levanta. Dizem que quando a cerração baixa o sol racha.
Minha Lavras tem sentido na pele algumas inconveniências. A rixa politica não tem permitido a cidade se deslanchar como merece. Briga-se por um osso sem dono. Peleia-se por causas indefinidas.
Conheço de perto dos três hospitais que aqui existiram. Trabalhei por quase uma vida operando em cada um deles.
Ainda me recordo de médicos que aqui deram o melhor que tinham.
Doutor Jesus, no Vaz Monteiro, defronte a casa dos meus pais, na Santa Casa a figura ímpar do doutor Silvio Menicucci, seu irmão Pedro, doutor não menos ilustre Antônio Faria, com sua calma peculiar e seu tino pra negociar, meu primeiro anestesista, que saudade do doutor Hugo, e outros tantos que por aqui viveram. Meus antecessores e conselheiros. Aos quais a cidade deve muito. E jamais deverá esquecê-los.
A velhusca Santa Casa tem mais anos que a nossa querida Lavras. Não lhe conto os anos. Mas quantas vidas ela salvou.
Ainda me lembro do pavilhão antigo. Onde fui operado de fimose pelas mãos do doutor Silvio ajudado pela enfermeiro Lico. E como me faz falta a Santa Casa da saudosa Marieta das irmãs. Daquelas enfermeiras presentes e prestativas com as quais convivi, vindo da velha Espanha, precisamente de Madri.
Hoje a realidade se transformou radicalmente. Os velhos esculápios se foram. Creio que ainda operam no céu. Tentando tratar doenças dos anjos e dos santos.
A velha Santa Casa ganhou unidade nova. Um imponente prédio olha a rua principal com olhares de nostalgia. Quem sabe sentindo saudade dos colegas que já se foram.
Agora brigam, uma peleja inexplicável, nestes tempos de eleição, quem seria o pai da criança.
Grupos rivais tentam convencer os eleitores de quem seria a paternidade de uma conquista que vai beneficiar não somente a nossa comunidade como toda a região.
Desde há tempos pretéritos não tenho pela politica em alta estima. Ao revés. Mudo de assunto quando se referem a tal.
Pra mim não importa quem seja o pai do menino ou da menininha. O que conta que ela nasça em boa saúde.
Que este centro de oncologia renasça das cinzas como a ave Fênix. Avoando na intenção pura e simples de trazer melhoras a todos àqueles portadores de canceres. Daqui desta cidade linda. Que um dia, penso eu, estará liberta de rinhas politicas que mais parecem brigas de galo pela conquista de uma galinha morta.