Não restam dúvidas que estamos vivendo um verdadeiro circo de horrores.
Naqueles tempos idos o circo era um espetáculo com enormes atrativos.
Não apenas pelos animais que por ali desfilavam. Pela mulher que se transformava em gorila. Como, principalmente, pelos palhaços que faziam a alegria da garotada. Com aqueles narigões vermelhos, com aquelas golas salientes, com aqueles sapatões pontudos, com aquelas bocas tintas por sorrisos gargalhentos. E como a gente, ainda meninos, nos deliciávamos com a coragem dos trapezistas. Com a desenvoltura dos equilibristas. Com a beleza da senhorinha que subia por uma fita toda glamorosa. Desafiando as alturas. Com seus cabelos louros balançando ao vento.
Quando o espetáculo terminava mal acreditávamos em seu desfecho. Olhinhos esbugalhados tentávamos adentrar em outra sessão. Sem pagar outro ingresso éramos tolhidos em nossas pretensões por um anãozinho que servia de segurança, apesar de sua pouca estatura.
Pena que o passado foi sepultado. Os circos se foram. Com suas lonas rotas foram substituídos por não mais conseguirem competir com atrações modernas. Como por exemplo a televisão que nos fazem emburrecer. Tamanha a quantidade de aberrações que são exibidas em horários nobres. Quando são noticiadas apenas calamidades. Noticias fantasiosas. Assaltos, corrupção, falsos profetas alardeiam o fim do mundo. Fazendo dos telespectadores meros coadjuvantes de um espetáculo funesto. Mais parece um circo de horrores. Ai que saudade me traz aqueles circos de antigamente, quando a nossa intenção era apenas rir das palhaçadas daqueles palhaços das perdidas ilusões.
Foi há dias atrás, creio que ontem, quando retornava da academia, naquele clube daquela mesma rua por onde passo, ao cair das tardes, quando me encontrei, sem reconhecer quem seria aquela moça, a principio, desconhecida, fui interpelado por ela no meio do passeio, era uma tarde chuvosa, com uma súplica estampada em seus olhos.
Não tive como não atender ao seu chamado.
“Doutor! O senhor não me reconhece? Fui sua paciente naquele postinho de saúde apinhado de gente. Quantas e quantas vezes o procurei. Ainda me lembro da derradeira vez que nos encontramos. Era a última paciente daquela manhã. Precisava de uma receita de alguns medicamentos. O senhor não só me atendeu como também teve a paciência de escutar as minhas queixas. Estava deprimida. Como não tinha recursos para me consultar com um psiquiatra recorri ao senhor. E sai daquela unidade de saúde mais aliviada. Até hoje me lembro de suas últimas palavras: “ não se desespere. A vida vai melhorar. Tenha fé”.
“ Hoje aqui estou. Perdi meus pais. Vivo só. Não trabalho mais. Não tenho ânimo pra nada. Estou prestes a dar cabo de minha vida. Nada mais me resta. Perdi aquelas pessoas únicas nas quais acreditava. Por sorte o encontrei. Não tenho mais forças para continuar vivendo. Desculpe se eu o incomodo. Não tenho ninguém mais a me ouvir”.
Naquele passeio passavam pessoas. Enquanto nós conversávamos. Não sei qual seria o destino dela. Nem sequer imagino. Quem sabe aquela moça, de olhar carregado de angústia e sofrimento, consiga sair da sua situação aflitiva.
Aquele olhar, com aqueles olhos úmidos, foi pra mim um pedido de socorro.
É cada vez mais difícil sobreviver neste circo de horrores por que temos passado.