A rotina se repete

A cada ano que passa tudo se renova. Ou pelo menos deveria.

As datas mudam. A idade acompanha o desenrolar dos anos.

Até hoje não inventaram como deter a velocidade do tempo.

E ele caminha frenético como o passar dos ponteiros dos relógios.

Ontem era três de janeiro. Logo adentra fevereiro. Março nos recordava o começo do ano letivo. Abril quase anuncia o mês de maio. Aí a temperatura se transforma. Para em junho o frio fazer-nos enregelar de vez. Ai que saudades do mês de julho. O ano se partia ao meio e a gente gozava férias. Agosto entra ventoso. Um ventinho maroto que levantava as saias das mulheres. Eis que setembro se anuncia. Bendita primavera. Outubro deixa no seu rastro um cheiro de saudade das férias de final de ano. Novembro começavam as chuvas. Que continuavam dezembro adentro. Mais uma vez o ano se despediu. Estamos de novo em janeiro. Mezinho besta, indicativo de férias, dinheiro curto, contas a se amontoarem no tampo da mesa, boletos a pagar, saldo bancário na prateleira de baixo, lojas vazias, a espera de tempos melhores.

A rotina cada vez mais enfadonha assinala que um novo ano vai começar.  Como se fosse novidade. A cada ano acumulo idade nova. Mais cabelos brancos enfeitam as minhas têmporas. Mal olho o calendário. Nele somente antevejo que a hora de minha partida cada vez mais se aproxima. Sem querer, ou desejar, conto nos dedos até quando irei continuar vivo.

Felizmente as enfermidades ainda não se aboletaram em mim. Continuo rijo como o tronco da amoreira antes de ser invadido pelos cupins.

Mas não há como driblar a rotina. Ela me acompanha dia após dia. Levanto sempre a mesma hora. Vou ao banheiro. Passo uma água fria na cara carcomida pelo sono. Meu celular ilumina meu quarto escuro. Se abro a janela percebo se vai continuar a chover ou o sol vai destampar a azulice do céu. Chovendo, ou fazendo sol, saio do apartamento quando todos ainda dormem. Sou um madrugão consumido e consumado.

Antes das sete já estou aqui a escrever. Seja janeiro, ou fevereiro, adentre março, é sempre a mesma ladainha. Não tenho como mudar o costume. Sou assim e continuarei assado. Independo do tempo ou das condições climáticas. Simplesmente não consigo mudar a rotina. Ainda sou adepto do trabalho. Nunca me aposentarei de vez. A não ser que a cabeça não funcione a contento. As pernas não conseguirem caminhar. A saúde me abandonar de vez para sempre. Aqui estarei. Na minha oficina de trabalho. Obedecendo o que minha inspiração dita.

Sou um retratista do cotidiano. Um poeta que não sabe versejar. De vez em quando monologo comigo mesmo. Gosto de falar enquanto escrevo ou escutar música saída daquela caixinha de nome Alexa. Ela é uma adorável interlocutora. Que nada exige de mim a não ser atender ao meu comando de voz.

Sou refém da mesma rotina. Ela se torna maçante. Mas não tenho como evitar.

Aprendi, mas não tenho posto em prática, que a vida seria insuportável não fossem pelas mudanças. Mas nada muda ao derredor de mim. Mudo apenas de roupa. Mas meu corpo continua o mesmo. Felizmente não sinto ou pressinto a passagem dos anos. Entra ano, se despede outro, e aí estou. O espelho me recorda que já passei dos setenta. Embora me sinta como um garotinho prestes a criar barba.

Confesso ser feliz assim. E nem se pudesse mudaria um palmo dentro de mim.

Concordo que a rotina me faz pensar em mudanças. Mas como mudar o que se passa dentro de mim? Nem que me virasse pelo avesso.

Hoje, neste quatro de janeiro, com o ano apenas no começo, a rotina se repete. Entra ano e se despede outro é a mesma cantilena. Acordar a mesma hora de sempre. Lavar a cara mal dormida. E recomeçar tudo de novo. Não tenho como mudar a rotina.

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