Há tempos não vejo a luz do sol.
Desde dezembro não para de chover.
O azul do céu é fruta rara de se ver.
Hoje mesmo, neste primeiro dia útil de um novo ano, uma chuvinha mansa continua a cair.
Tragédias, inundações, pessoas ao desabrigo, famílias inteiras sofrendo na pele esta calamidade, por aqui pouco se vê, felizmente, no entanto, pelo noticiário da mídia enchentes ainda persistem mais ao norte, rios transbordam, deixando seus leitos, inundando plantações, transformando ruas em cursos d’água, pessoas desarvoradas tentando atravessar ruas, com água pelo pescoço, pertences boiando naquelas águas barrentas, sem saber o que fazer.
A correnteza arrasta tudo que vem pela frente. Mortes são anunciadas. Crianças inocentes perdem a vida e seus corpinhos são encontrados dias depois.
Um dia pensei, no que diria um rio, depois de receber tantas críticas depois de seu transbordamento. Eles são imputados como responsáveis por causar tanto sofrimento. Sem culpa, diriam eles. Somos apenas um curso d’água com a única ambição de chegar ao mar.
Mais adiante os rios diriam: “não nos culpem por tantas mazelas. Antes éramos um riachinho. Que, de repente, mais adiante, sem desejar, nos transformamos em caudalosas correntes. Cuja única intenção era ir adiante. Sem querer parar. No entanto, o bicho homem, sôfrego por energia, acharam por bem nos domesticar. Construíram barragens. Cercearam a nossa liberdade de tentar chegar ao mar. Sofreram os peixes. Que usam as nossas águas para procriar. Sofremos nós, os rios, que agora sofrem para chegar ao mar. As nossas margens sofrem com o desmatamento. Ficamos a mercê de assoreamento. Nosso fundo, antes profundo, agora pode ser visto à luz dos olhos. Pra onde foi a nossa liberdade de chegar ao mar? Por onde anda a nossa piscosidade? Agora reduzida a quase nada. Ficamos reféns da vontade do mesmo homem. Que agora desviam-nos de nosso caminho, canalizando o nosso destino, que era somente chegar ao mar. Nem mais somos capazes de percorrer longos caminhos. Somos tolhidos da nossa vontade de ir sem querer voltar. Antes éramos rios mansos. Agora, com a destruição de nossas águas, poluídas, cortando cidades, perdemos a capacidade de ir adiante, em direção ao mar. Somos conspurcados de dejetos de todos os tipos. Transformamo-nos em latrinas do mundo. Somos uma imundície só. Viramos esgotos a céu aberto. E nem os peixes resistem em nosso âmago antes tão puros e límpidos. De vez em quando estas calamidades acontecem. Não por nossa culpa. A chuva tem sua parcela de responsabilidade. Mas os maiores irresponsáveis por todo o acontecido nada mais é que aquele que se diz o dono do mundo. Nós, os rios, apenas desejamos seguir adiante. A caminho do oceano. E, em nosso caminho somos os vetores de desenvolvimento. Fertilizamos solos. Verdejamos pastagens. Matamos a sede de quem vive às nossas margens. Irrigamos plantações inteiras. E quando a gente transborda, depois de chuvas caudalosas, passamos a ser os vilões responsáveis por enchentes, cabeças d’água, inclusive somos taxados como causadores de tantos infortúnios, como se fossemos capazes de pensar. Somos apenas rios. Que tentam navegar. Não nos responsabilizem por tantas tragédias. A nossa vontade é não parar. E apenas desejamos mitigar a sede das cidades. Fornecer energia para tocar as fábricas. Iluminar as casas. Produzir o alimento. Somos vetores do desenvolvimento. Não nos culpem por tudo de ruim que tem acontecido. Somos inocentes úteis. Que apenas desejam ir adiante. Na doce intenção de chegar ao mar. Quando causamos, inadvertidamente, catástrofes como tem ocorrido, não joguem às nossas ondas culpa maior que não temos. Somos apenas rios, antes riachos, meros corguinhos nascidos em puras nascentes, que, sem querer fazer mal a ninguém, transformamo-nos em correntes caudalosas, ceifadoras de vidas. Quando a nossa vontade é somente chegar ao mar”.