Gostaria de continuar do mesmo jeito

Hoje, véspera de Natal, um solzinho tímido entra pela minha janela.

Uma chuvinha miúda umedece os meus cabelos.

A mesma hora de sempre acordei.

Disposto, ainda com um soninho a tentar fechar-me os olhos.

O ano quase se despede. E muitos, neste ano de tantos acontecimentos funestos, despediram-se da vida.

Quantos anos mais me restam? Hoje conto com setenta e dois. Completos no ultimo dia sete.

Se me perguntarem o que gostaria de receber como presente de Natal, antes, menino ainda, escreveria na minha cartinha, endereçada ao Papai Noel, que tal aquele carrinho de bombeiro, ou quem sabe aqueloutro patinete de rodas duras, que um dia, já se se foi ao longe, acabou me fazendo ver estrelas, depois de uma queda naquela mesma rua, que daqui se avista pelos fundos.

Ou, quem sabe, talvez, uma raquete de tênis nova, pois a velhusca, com qual jogava com meu velho e saudoso pai, um dia, numa partida durante a qual vencemos a duras pelejas, acabou arrebentando as cordas, estatelou-se no chão macio, e foi quebrada sem chance de ser consertada de novo.

Foram tantos os presentes que ganhei de aniversário, que quase coincidia com o dia de Natal, que não é possível contar nos dedos.

Agora, já que me transformei no bom velhinho, falta-me a barba branquinha, passei a ser o Papai Noel dos meus netinhos.

Este é o derradeiro dia do ano que vou estar aqui. Dou-me o direito de descansar até o ano vindouro. Serão férias curtinhas.  Não me sinto cansado o bastante para não continuar a labuta de sempre. Agora, já jubilado do serviço público, ainda longe da aposentadoria, espero ainda continuar na lida médica por muitos anos mais. Tenho por mim que o médico não se aposenta completamente. Quem tem este direito é o paciente. Quando no seu médico já não mais confia.

Gostaria, neste ano que agoniza, de continuar do mesmo jeito.

Ainda capaz de correr distâncias longas ao final da tarde. De sorrir mesmo frente às adversidades. De distribuir sorrisos mesmo a quem não sabe sorrir.

No ano que se avizinha, mais um ano percorrido, gostaria de colecionar mais amigos, afinal são tantos que já perdi.

Neste Natal que transcorre no dia de amanhã, não tenho a pretensão de ganhar presentes. Afinal a vida que tenho levado é em verdade o maior presente que já almejei.

Tenho a familia com que sempre sonhei. Os amigos que me restam, mesmo distantes, ainda guardo um carinho enorme por eles todos.

A saúde a tenho a emprestar aos outros. A disposição nunca me faltou. Ainda sou capaz de operar se a doença exigir. Se não posso curar empresto meus conhecimentos a favor de quem precisar. Não sou de lastimar por pequenas coisas. Deixo o fato acontecer primeiro para me lamuriar depois. Não sou de derramar lágrimas sem causa justa. Compadeço-me de quem precisa. Ajudo a quem merece. E não desmereço a ninguém.

Gostaria, se me fosse permitido, de continuar a viver por muitos anos mais. De nunca deixar de ter saudades. De jamais ser destituído da tal sensibilidade. Que me cavouca o peito. Desaquece-me a alma.

Gostaria, de coração aberto, de desejar a todos vocês, boas festas. Saúde, e um ano novo recheado de coisas boas.

Hoje me despeço. Até das minhas crônicas. Até o ano que se aproxima. E como gostaria que ele fosse pródigo em alegria. Em todos os lares. A todos os amigos o meu sincero desejo de um feliz Natal. E um ano novo melhor do que este, que deixou no seu rastro tantas amarguras e decepções.

Aqui ficam expressos os meus desejos. Que eles se concretizem. E não se tornem apenas palavras soltas ao vento.

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