A espera de dias melhores

Dizem que a esperança é a última que morre.

Pelo menos é o que pensa a maioria.

Já aquela pessoinha de alma pura, chamado pelos amigos mais chegados de Zé, um José qualquer, perdido num amontoado de gente, neste ano quase agonizante, tudo não passou de um embuste. Um chiste, uma piada de mau gosto, causa de incontáveis desgostos, na sua vidinha insossa, mais parecida a quantas delas assistimos pais afora, neste Brasil continental, onde a maioria nada tem. Em contrapartida a uma minoria que detém a totalidade da riqueza nacional.

Naquela quase véspera de final de ano as chuvas não davam descanso naquela região quase sempre ensolarada, aonde a chuva, quando vinha, era motivo de alegria para aquela gente humilde, que vivia graças ao trabalho exaustivo no campo.

Ali, naquele lugar ermo, fincado nos cafundós de onde Judas esqueceu as botinas, onde passava um corguinho quase sempre magricela, onde a água era escassa, desta vez, em pleno verão, quente, abafado, caiu uma tempestade de fazer engordar os riachos, que naquele fim de ano transbordaram. Causando transtornos na vida de todo o mundo.

As ruas da cidadezinha, quase um arraial, encheram-se de uma água barrenta, inundando casebres, onde as famílias perderam o pouco que possuíam, se viram, da noite pro dia, com água pelo pescoço.

Nada foi salvo. A não ser a esperança de dias melhores.

Naquela noite, onde a chuva caiu sem cessar, o desafortunado Zé, acordou sem ter dormido.

Com a água subindo além de onde era permitido o pobre Zé amanheceu desalentado.

Nada sobrou naquele casebre caiado de branco.

A geladeira, novinha, comprada a prestações suaves, de acordo com seu orçamento apertado, amanheceu boiando na enxurrada. A televisão, quase nova, apareceu cheinha de peixinhos coloridos, mais parecia um aquário, tal a quantidade de água que entrou-lhe tela adentro.

Tudo que havia dentro de casa foi perdido. Nada sobrou. A não ser a esperança em dias melhores.

Mesmo sujeito as adversidades Zé, que poderia ser João, arregaçou as mangas, apesar de ser tempo de jabuticabas, e foi à luta.

Tomado de forças que pensava não ser capaz, Zé tentou, retentou continuar a vida.

Mas, no dia seguinte, quase o ano fechava os olhinhos de cansaço, pensando que o sol iria voltar de férias, mais um ledo engando.

Uma chuva torrencial voltou a cair. Desta vez foi ainda pior. Se pior fosse possível.

Foi uma tempestade fazer doer as juntas. Ajuntando-se tudo isso o rio transbordou. As ruas viraram um mar de lama. Ali só era possível navegar usando um bote salvador.

Zé, usando um pneu velho, enorme, terminou o dia salvando pessoas que foram desabrigadas pela enchente que se formou.

Contaram-se nos dedos mais de mil infelizes moradores daquele arraialzinho ao sul da Bahia de todos os santos. E não faltaram santinhos para rezar.

Quase final de ano. Enfim o sol voltou a brilhar.

Parecia que tempo iria melhorar. Afinal o ano terminaria de hoje a um dia apenas.

Naquela manhã, ensolarada, a amarelice predominava.

De repente, não mais que num repente, repentinamente, o céu acinzentou-se.

Caiu uma aguaceira de fazer os barquinhos toscos remarem correnteza abaixo.

Nada mais restou daquele povoado a não ser a esperança de dias melhores.

Que jamais se concretizou.

Tenham certeza. Não é exatamente isso que desejo a vocês. Que o ano novo renasça das cinzas qual Fênix.

Trazendo nos seus braços felicidade e muita paz. Sucesso seja em qualquer atividade. Amor em quantidade suficiente para estreitar laços. Que não se desfaçam por qualquer motivo.

Feliz ano novo. Adeus ano velho.

E que dois mil e vinte de dois seja em verdade um ano profícuo em alegria. Que seja compartilhada entre famílias. Entre iguais e desiguais. Que as desigualdades não sejam tão acachapantes. Que os desníveis sociais não sejam tão aviltantes. Que a felicidade impere em todos os lares.

Tenham certeza. A esperança não deve morrer. Falece o ano. Não a esperança que renasce dentro de cada um de nós.

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