Cartinha ao Papai Noel

Quase não se tem mais o costume de escrever cartas.

Os e-mails, os zaps, a internet, tomaram a caneta e a folha de papel de nossas mãos.

Ainda me lembro das minhas cartinhas que tinham um endereço certo.

A primeira delas, escrita num papel timbrado, na tentativa feita por minha saudosa professora de melhorar a minha caligrafia, era endereçada a uma garota que mal me conhecia.

Depois de não aceitar ao meu pedido de namoro passamos a ser amigos. Na hora do recreio ela me lançava olhares de longe, talvez arrependida de não ter aceitado os meus galanteios, quem sabe por onde anda, nos dias de agora, aquela menina que deixou gravado no meu coraçãozinho sonhador uma marca indelével do que seria amor.

Continuei a escrever cartinhas. Algumas foram endereçadas ao Papai Noel.

Nelas estava escrito, em letrinhas miúdas, pedidos de presentes de Natal.

“Papai Noel. Bem sei que os tempos andam difíceis. Quem sabe aquela bicicletinha de rodinhas amarelas poderia ser deixada debaixo daquele pinheirinho enfeitado de bolas coloridas. Fui, durante o ano que está prestes a terminar, um bom aluno. Nunca tirei notas inferiores a sete e meio. Se não fui o primeiro meu nome sempre figurou no quadro de honra ao mérito. Ao final da quarta série recebi uma medalha de bom comportamento. Muito embora tenha olhado de soslaio por baixo da saia daquela menina. Por isso fiquei de castigo. Fui repreendido pelo bedel. Fiquei constrangido por aquele ato impensado. Até hoje não consegui deixar de admirar as pernocas grossas das jovenzinhas que por mim passeiam pelas ruas. Um costume deplorável. Mas olhar não tira pedaço. São olhares sem maiores intenções”.

Essa missiva talvez tenha sido escrita com uma caneta bic. Ou usando um lápis de cor da cor de uma borboleta azul.

O fato retrato que hoje não mais escrevo cartas. Escrevo sim, crônicas que retratam o cotidiano. São tantas que nem me lembro quantas.

Num dia destes, talvez tenha sido há duas semanas atrás, descobri, numa gaveta de uma escrivaninha, no quartinho do meu querido neto Theo, uma cartinha escrita de véspera.

Nela havia um coraçãozinho tinto em vermelho. Penetrando-lhe o átrio direito uma flecha que atravessava coração afora. No meio do ventrículo esquerdo havia uma palavrinha onde se inseriam estas palavras: “mamãe, eu te amo.”

E ela continuava papel afora: “se a senhora puder, e meu pai permitir, quem sabe poderia ganhar do Papai Noel um tablet amarelo. O meu não funciona mais. Está velhinho como meu avô. Ainda gostaria de receber, se não custar muito, um carrinho de bombeiro. O que tenho já não apaga chamas mais. A exemplo do meu avô que se encontra enferrujado. Largado a um canto qualquer. Sabe, minha querida mãezinha, aquela patinete que meu avô me deu, no Natal passado, acabei dando de presente a um amiguinho que não tinha nada parecido. Com que sorriso ele recebeu o presente. Foi com um sorriso semelhante quando eu nasci. Sob os olhares enternecidos do meu quase surdo avô. Ainda gostaria de ganhar do Papai Noel um saco cheinho de guloseimas docinhas. Balas Chita, chicletes de hortelã , pipocas doces, não pra mim. E sim para presentear o meu querido avô para ver sua dentadura se desprender do céu da boca e vê-lo banguela. Vai ser uma linda cena. Ah, já ia me esquecendo. Por último gostaria tanto de ver meu avozinho correr de novo. Ele mal se aguenta nas suas pernas gastas. Quem sabe ele vai dar de presente a sua bengala a alguém que precisa mais.”

Não sei o desfecho desta carta. Talvez ela retrate o meu porvir.

Pra conhecimento seu, meu querido netinho Theo. Ainda estou em plena forma. Não de um bolo fofo. Dispenso a sua bengala. A dentadura guarde pra você. Quando dela precisar. Ainda estou longe da senilitude. E, tome cuidado com os erros de português. E melhore os seus garranchos. A sua cartinha ao Papai Noel vai ser endereçada a outro qualquer. Não espere presentes de mim. Você, meus outros dois netinhos, são os melhores presentes que eu poderia ganhar.

 

 

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