De pinguim em pinguim

Sempre me encantou o diminutivo.

Amo as coisas pequeninas. Os grandões que me perdoem.

Daí agradeço quando me chamam de Paulinho. Já que não cresci mais do que um cadinho.

Hoje, depois de anos e anos de vida, a fita métrica indica quase um metro e setenta. Uma altura suficiente para não me destacar da multidão, a não fazer sombra a quem vem atrás, e a não contradizer aqueles que alardeiam que a verdadeira altura não se avalia, em verdade, do cume da sobrancelha ao alto da testa. Pra mim o que conta em verdade é aquilo que se esconde dentro da massa encefálica. Aquele amontoado de neurônios. A inteligência e a capacidade de aprendizado da qual somos dotados.

Nada contra dos ditos girafentos. São capazes de trocar lâmpadas sem usar escadas. De fazer coisas que os baixinhos não fazem. No entanto as suas espinhas dorsais sofrem com o passar dos anos. E acabam andando vergados sobre eles mesmos. Dando trabalho aos ortopedistas. Sem chance de correr como os baixinhos correm. Pintando rodapés com enorme facilidade.

Na roça, pra onde sempre vou aos sábados, por vezes ali pernoito, vendo as estrelas piscarem, imagino serem vagalumes noctívagos em busca de suas amadas, é cada um que me encontro, que não só me faz rir como de vez em quando chorar de alegria.

Seu Zé da Tiana, um senhor já bem andado em anos, parece ter quase cem, em verdade coleciona quase oitenta, gente sofrida, mãos caludas, tez tostada pelo sol, sempre com sorriso a cavoucar-lhe a face, sempre que por ele passo, quando de volta pra cidade, proseamos por alguns minutos a fio.

Ele me passa coisa boa. Gente da prateleira de cima.

Seu Zé sorri das adversidades. Quando morreu seu filho mais novo, o ano passado, à beira da sepultura, ele fez um discurso deveras emocionado.  Em alta voz declinou todas as virtudes daquele filho amado.  No final percebi, em seus olhos claros, toda a tristeza que lhe inundava a alma. Seu Zé sofreu na pele a dor mais doida que já percebi.

Não sabia se ele estava chorando ou sorrindo de tanta amargura. Naquela tarde mansa. Quando o filho partiu.

Naquela tarde em que nos encontramos, não faz tanto tempo assim, em nossa prosa amistosa, sendo eu urologista, acabei lhe perguntando como estava a urina.

E ele me disse, sem demonstrar queixume, com aquela vozinha mansa: “quer mesmo saber, doutor? Não está tão ruinzinha assim. Urino mais durante a noite. Tenho um pinico debaixo da cama. Ele amanhece cheinho. Não dói nadinha de nada para mijar. Apenas demora muito para a bexiga esvaziar. Agora mesmo terminei de urinar. A urina sai de pinguim em pinguim. Tenho medo de um dia ela empacar.”

De fato um dia aconteceu.

Seu Zé da Tiana foi atendido, num sábado de tarde, com a urina empacada. Era um bexigão que mais parecia um balão. Dali saiu quase três litros de urina catinguenta.

Depois de aliviá-lo da tal situação ele me agradeceu efusivamente. Deixando transparecer toda a gratidão por ter-me como amigo.

De pinguim em pinguim a vida transcorre mansamente por aquelas bandas por onde ando. Nas rebarbas da minha rocinha em Ijaci.

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